Falando de Mercado: Safra de cana este ano deve ser menor que anterior

Author Argus

Condições climáticas adversas durante a época de cultivo e a concorrência contínua entre a cana-de-açúcar e outras culturas, como soja e milho, devem reduzir a safra no Centro-Sul este ano.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Vinícius Damazio, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis. Eles falam sobre como o setor está se organizando e quais as estratégias diante das novas projeções para a safra.

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Transcript

[Camila] Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou diretora da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Vinícius Damazio, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis. Vamos abordar as projeções do setor sucroalcooleiro para os próximos meses da safra de cana-de-açúcar na região Centro-Sul.  Seja bem-vindo, Vinícius.

[Vinícius] Obrigado, Camila.

[Camila] Vinícius, no fim de agosto a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) atualizou suas expectativas para a safra de cana-de-açúcar 2022-23 no Centro-Sul, apontando uma moagem de 514 milhões de toneladas de matéria-prima. Esse foi o segundo levantamento da safra realizado pela agência, e representa um volume menor do que o projetado nos primeiros meses da temporada. Por que essa redução chama a atenção do setor sucroalcooleiro?

[Vinícius] Camila, a Conab inicialmente previa um processamento de 539 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. Agora, a agência projeta uma moagem de 514 milhões de toneladas, uma estimativa que é 2pc menor do que a safra 2021-22, que totalizou 525 milhões de toneladas. Ou seja, teremos uma temporada ainda pobre este ano do que a do ano passado, que passou por inúmeros problemas climáticos.

A projeção da Conab também é o menor volume desde 2011, quando as usinas do Centro-Sul processaram apenas 493 milhões de t devido ao clima ruim.

Segundo a agência, a queda se dá em função de condições climáticas adversas durante a época de cultivo e a concorrência contínua entre a cana-de-açúcar e outras culturas nas áreas de plantio, como a soja e o milho. A primeira metade da safra 2022-23 foi ditada pela escassez, com as usinas culpando o desenvolvimento lento dos canaviais após um clima mais seco que o normal.

Além disso, os produtores têm que lidar com a herança dos problemas climáticos da temporada anterior.

[Camila] Como os participantes de mercado receberam essa revisão?

[Vinícius] A revisão dos números da Conab jogou um balde de água fria nas perspectivas de uma safra de cana mais forte, especialmente entre boa parte dos analistas independentes, que projetavam uma moagem entre 545 e 560 milhões de toneladas.

Havia essa expectativa de que a safra atual pudesse superar a temporada de 2021-22, que impôs condições climáticas e operacionais desafiadores para o setor brasileiro de etanol. Os canaviais foram duramente atingidos por uma seca prolongada – a pior em quase um século –, três ondas de geadas e incêndios florestais recordes. Mas, com um segundo ano de quebra à vista, o setor pode precisar recorrer à resiliência desenvolvida no ano passado para encarar novos desafios.

[Camila] E o setor produtivo? O que as usinas e cooperativas acharam dessa revisão?

[Vinícius] A queda já era esperada entre os usineiros do Centro-Sul. Fontes ligadas às produtoras disseram à Argus que uma quebra entre 5pc e 10pc é prevista nas unidades da região devido à escassez de chuvas.

Algumas companhias, como a Jalles Machado ou a Bevap, em Minas Gerais, poderão não ser tão afetadas quanto outras devido aos investimentos amplos em sistemas de irrigação, mas ainda assim alguma redução é esperada em relação aos resultados da temporada anterior.

O encarecimento de certos insumos operacionais, como fertilizantes, diesel e agroquímicos, representam outro desafio para os produtores nesta temporada. O conflito entre Rússia e Ucrânia impulsionou os preços dessas commodities, que são essenciais para o produtor de cana-de-açúcar. Isso significa maior necessidade de liquidez para os produtores, e maiores riscos.

Essa alta nos custos de produção ocorre em um momento de pessimismo no mercado sucroalcooleiro, com margens de lucro do etanol caindo e distribuidoras focadas em comprar da "mão para a boca". A paridade cada vez mais favorável ao consumo da gasolina em detrimento do etanol exerce pressão constante sobre os níveis de venda das usinas no mercado à vista.

[Camila] E quais são as estratégias das produtoras para superar esses desafios nos próximos meses?

[Vinícius] A princípio, Camila, muitos usineiros têm direcionado seu mix de produção para o açúcar, em resposta à deterioração das condições econômicas e da dinâmica do mercado de etanol. Mas, nem todas as empresas têm flexibilidade industrial para ajustar o mix em função dos preços de mercado e das condições da safra. Essas que não têm são as que mais devem sofrer.

O setor estima que os preços do etanol, especialmente do hidratado, continuem pressionados pela enxurrada de mudanças tributárias que limitaram a competitividade do biocombustível em relação à gasolina nas bombas. As reduções da gasolina vendida nas refinarias da Petrobras tornam ainda mais árdua essa disputa pela preferência dos motoristas.

Então, a tendência é as usinas do Centro-Sul priorizarem a produção do açúcar no futuro próximo, dada a paridade favorável à gasolina nas bombas e a limitação de matéria-prima no setor.

Uma segunda alternativa ao ritmo lento do mercado doméstico são as crescentes oportunidades de exportação de etanol, com cada vez mais cargas desembarcando na União Europeia, destino promissor para a especificação brasileira.

As exportações de etanol brasileiro para os Países Baixos representaram 42pc do total embarcado do país em julho, segundo dados do Ministério da Economia. Em agosto, responderam por 23pc do total embarcado do Brasil. Os Países Baixos desempenham um papel importante no comércio de etanol, sendo uma porta de entrada para a maioria das importações no continente europeu.

Há uma demanda importante por etanol anidro no mercado europeu. Houve no primeiro semestre e vai se repetir no segundo. Isso tira um pouco da pressão do mercado local.

Para as usinas ainda optando por vender etanol no mercado interno, a conta está sendo feita com base em três componentes: preços no mercado à vista, a receita proveniente da venda dos créditos de descarbonização (os Cbios), e a concessão de crédito presumido de ICMS para o etanol hidratado. Ainda assim, o prêmio do açúcar em relação ao etanol, a volatilidade no mercado, e as mudanças nos preços praticados pela Petrobras devem continuar pautando os rumos do mercado.

Já produtores mais capitalizados também estão considerando seguir uma estratégia de "carry", que envolve estocar etanol até o fim do ano, para quando está previsto o fim os benefícios fiscais da gasolina. Mas esse é um jogo mais arriscado, para poucos.

O momento realmente é decisivo para produtores. E quem se posicionar melhor pode conseguir reverter a expectativa ruim criada pela escassez de matéria-prima.

[Camila] E nesses momentos, estar melhor equipado ajuda na tomada de decisões. E esse é o papel da Argus: trazer informações que ajudem a iluminar os mercados de commodities. Obrigado, Vinícius.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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