Falando de mercado: Alta nos combustíveis e receio com suprimento de diesel

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O recente aumento nos preços de combustíveis comercializados nas refinarias da Petrobras foi bem recebido por importadores, mas não o suficiente para impulsionar o fluxo de combustível estrangeiro para o país, em meio aos receios com uma possível crise de abastecimento de diesel.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Gabrielle Moreira, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis. Elas conversam sobre o impacto da elevação de preço entre participantes de mercado e sobre a diminuição da oferta de combustível em todo o mundo.

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Transcript

Camila Dias: Olá. Bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu diretora da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Gabrielle Moreira, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis, sobre a recente alta nos preços de combustíveis nas refinarias da Petrobras e sobre os receios com o suprimento de diesel. Bem-vinda, Gabrielle.

Gabrielle Moreira: Olá, Camila, obrigada. Que bom estar aqui novamente.

CD: Gabrielle, na semana passada a Petrobras elevou os preços de diesel e gasolina comercializados nas refinarias, o que caiu mal entre a população e possíveis eleitores do presidente Jair Bolsonaro, em um momento de altos índices de inflação. Os importadores, por sua vez, receberam bem a notícia, mas aparentemente, esse reajuste não foi suficiente para melhorar a situação, certo?

GM: Camila, é verdade que importadores receberam bem a notícia, sim. Mas o que escutamos tanto da Abicom, a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis, quanto de outros players que importam diesel é que essa alta apenas melhorou a janela de arbitragem. Foram 39 dias sem reajuste na gasolina e 99 dias sem reajuste no diesel.

É claro que um aumento de preço de combustível não será comemorado pela população, o que deixa o governo em uma posição delicada mesmo. Tão delicada que por semanas existiu uma pressão do governo para que o presidente da Petrobras, o José Mauro Coelho, renunciasse ao cargo por não ter “conseguido”, entre aspas, manter os preços dos combustíveis. Essa renúncia veio só no dia 20 de junho e não me parece que gerou incômodo entre participantes de mercado. Na bolsa de valores, é claro, a situação é bem diferente.

CD: Esse reajuste anunciado no dia 17 de junho já teve algum efeito nas importações?

GM: Apesar dos importadores terem recebido bem a notícia, não foi um gatilho para o fechamento de cargas de diesel logo após o anúncio. Vou me concentrar no diesel porque é onde existe a maior demanda e porque a arbitragem para gasolina está fechada há tanto tempo que os volumes têm pouca expressividade.

Mas é importante dizer que ainda que se esses importadores tivessem saído correndo atrás de cargas para fechar logo após o reajuste, não seria uma tarefa tão fácil. A menor quantidade de diesel disponível no mundo está dificultando esse fluxo, tornando os prazos de entrega mais longos. E não é só no Golfo Americano que vemos essa limitação de produto, Europa e Índia também estão com menos quantidade.

Alguns compradores com quem conversamos na semana passada mencionaram que as ofertas que estavam recebendo consideravam o carregamento de diesel entre o fim de junho e início de julho. Mais o tempo do frete, que podemos adicionar pelo menos uns 15 dias, não é tão perto assim para entregar. E quando o navio chega ainda precisa passar pelo processo de nacionalização antes de ser armazenado, o que leva mais alguns dias.

CD: E nos mercados de origem onde Brasil compra seu diesel, como está a situação?

A situação é muito complicada em qualquer canto do mundo, Camila. Isso por conta da capacidade de refino global muito limitada no momento, que é o reflexo do fechamento de muitas unidades ao redor do mundo ou de migração de alguns ativos para a produção de diesel renovável durante a pandemia.
Os políticos de todos os países estão muito atentos à questão da inflação e dos riscos de desabastecimento. A Índia, grande fornecedor do Brasil nos últimos meses, já vê riscos de abastecimentos pontuais nas regiões mais remotas do país. Nos Estados Unidos, a questão dos combustíveis (particularmente da gasolina) virou um pesadelo para a administração Biden alguns meses antes de eleições legislativas parciais, e o próprio presidente tem atacado grandes empresas do setor de energia sobre margens e resultados "não aceitáveis", apelando para o “dever patriótico” de refinadores para não se aproveitarem da guerra na Ucrânia para aumentar os preços.

CD: Mas isso significa então que existe uma chance de crise de abastecimento de diesel?

GM: Dizer que podemos descartar uma crise seria leviano, mas ouvindo importadores e distribuidoras de pequeno, médio e grande portes, a chance é pequena. As importações ficaram próximas de 1 milhão de m³ nos últimos meses, a demanda tem, sim, uma expectativa de avançar por causa das movimentações de safras e, apesar de haver uma espera maior para o diesel estrangeiro chegar até o Brasil, o produto continua chegando. E tem a produção nacional, além de combustível nacionalizado armazenado nos portos. Temos uma questão com preços, no entanto, que precisa ser lembrada. O diesel nacionalizado ficou próximo de R$2.000/m³ acima das bases nos portos de Santos, Paranaguá e São Luís.

CD: E tem acontecido aquisições de diesel nacionalizado nesses níveis de preços?

GM: O comprador só vai pagar esse valor se estiver muito apertado, prestes a ter os tanques secos, o que não está acontecendo. Ao menos por enquanto. Há semanas que não vemos negociações de diesel nacionalizado nesses três portos que acompanhamos. Normalmente a virada de cada mês é um período em que distribuidoras buscam mais diesel por estarem com os volumes da Petrobras já no fim. Não vimos isso na virada de maio para junho e, inclusive vimos algumas negociações pontuais entre congêneres. A virada para o mês de julho não parece que será muito diferente, estamos vendo uma demanda muito fraca por esse produto importado nos portos. São muitos os dias que vendedores nem apresentam ofertas, que comprador não cota produto.

CD: Recentemente, a Petrobras abriu a possibilidade para distribuidoras anteciparem as solicitações de volumes de diesel e gasolina com dois meses de antecedência. Em junho, por exemplo, as distribuidoras puderam requisitar os volumes para agosto. 

GM: Sim e foi algo muito bem visto por associados e não associados da Abicom, que sempre pedem por previsibilidade. O Sergio Araujo, o diretor-executivo da Abicom, numa conversa conosco, disse que isso tira peso das costas da Petrobras de ficar sozinha como responsável pelo abastecimento e que essa pouca previsibilidade que foi dada agora pode encorajar importadores a fechar negócios. Por enquanto, os associados da Abicom não estão totalmente seguros, segundo o Sergio, mas já é um passo adiante.

CD: Obrigada, Gabrielle. Vamos continuar acompanhando de perto os desdobramentos do mercado de diesel no Brasil.
Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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