Falando de Mercado: Alta dos combustíveis pressiona custos logísticos

Author Argus

Com a disparada do preço do barril de petróleo em meio aos problemas internacionais, o diesel no Brasil acumula alta significativa ao longo de 2022.

Isso vem criando um cenário desafiador para os setores agrícola e de fertilizantes na questão logística, por causa do aumento nos fretes de grãos e de nutrientes.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e João Petrini, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Eles conversam sobre os impactos do aumento das tarifas com transporte para o mercado e o que podemos esperar para a sequência do ano.

Fique por dentro de tudo o que acontece no mercado de combustíveis

Transcript

Camila Dias: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, e eu diretora da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com João Petrini, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre os efeitos da alta dos combustíveis nos custos logísticos para os setores de grãos e fertilizantes. Bem-vindo, João.

João Petrini: Obrigado, Camila. É um prazer estar aqui.

CD: João, o que vem provocando esse aumento dos combustíveis pela Petrobras em 2022?

JP: Então, Camila, um dos grandes fatores, se não o principal, é o conflito na Ucrânia, que provocou temores nos mercados globais, incluindo o petróleo. A Petrobras utiliza desde 2016 uma política de preços chamada PPI, ou Preço de Paridade Internacional. É um índice que se baseia nos custos de importação, incluindo transporte e taxas portuárias. Também leva em conta a variação do dólar e do barril de petróleo, uma vez que está ligada ao sistema internacional.

Com os problemas na Europa, o barril de petróleo disparou, junto com preocupações logísticas, o que contribuiu para a alta dos preços no Brasil. A Petrobras, inclusive, ressalta que no momento o balanço global de diesel está impactado por uma redução da oferta frente à demanda, com estoques reduzidos e abaixo das mínimas sazonais dos últimos cinco anos nas principais regiões produtoras. Por conta desse desequilíbrio, é necessário um reajuste nos preços até para evitar possível desabastecimento.

CD: Perfeito, João. E diante dessas circunstâncias, quais os impactos nos custos logísticos?

JP: Segundo participantes do mercado com quem conversei, tradings e misturadoras estão sofrendo bastante com os valores de fretes. Como o transporte é um custo variável, que depende de elementos como o fornecimento de caminhões, condições de frete-retorno e preços de combustível, as empresas assinam contratos baseados na previsão dessas possíveis variações de frete, fazendo um hedge e assim manter suas margens de lucro.

Uma variação entre R$10-15/t é normalmente prevista durante o planejamento logístico ao longo de um ano. Entretanto, com o aumento do preço do diesel registrado desde o início do conflito na Ucrânia, esta variação aumentou para R$40-45/t. Além disso, a situação também paralisou o planejamento para o restante do ano, já que é muito difícil fazer projeções de preços em meio à volatilidade mais recente.

CD: Certo, João. E em termos de números, o que você pode compartilhar sobre os valores de fretes?

JP: Então, Camila, se voltarmos um pouco atrás, no início de abril, no momento mais próximo do início do conflito na Ucrânia, trata-se de um período em que os fretes de grãos deveriam normalmente cair, após o período de pico da demanda, enquanto o mercado aguardaria a colheita da segunda safra de milho. Entretanto, os fretes de grãos monitorados pela Argus voltaram às máximas de 2022, vistas em janeiro.

O trajeto pela rodovia BR-163 até Miritituba, no estado do Pará, atingiu o maior nível em 2022 na primeira semana de abril. O valor do frete no trecho Sorriso-Miritituba atingiu uma taxa média de R$290/t e o frete no trecho Sinop-Miritituba atingiu um preço médio de R$278/t, valores vistos apenas em janeiro, no pico da demanda sazonal de transporte. O mesmo aconteceu nos corredores em direção aos portos do sul e do sudeste. A rota Rondonópolis-Paranaguá atingiu um preço médio de frete de R$365/t e o trecho Rondonópolis-Santos atingiu a R$380/t.

CD: Interessante, João. E essa tendência de alta se dissipou? Ou se mantém até hoje?

JP: Se mantém, Camila. Até a primeira semana de maio, fretes de grãos estavam até R$60/t mais altos que no mesmo período de 2021, segundo monitoramento da Argus.

Inclusive, para quem nos ouve neste momento e quiser acompanhar o comportamento dos fretes de grãos, pode acessar o link www.argusmedia.com/pt/hubs/fretes-de-graos. Lá são publicados gratuitamente os preços de nove rotas de grãos que são monitoradas semanalmente pela Argus.

CD: Muito bacana, João. E para o lado dos fertilizantes, o impacto foi o mesmo, com fretes mais caros?

JP: Foi sim, Camila. Com o ambiente atual e a alta nos custos logísticos, misturadoras e empresas do setor foram forçadas a repensar certas misturas de produtos e refazer cálculos de custos para evitar a escassez nas fábricas e cumprir os contratos a tempo. Inclusive, mesmo considerando a baixa demanda pelo serviço de transporte de nutrientes devido aos altos custos dos fertilizantes e as preocupações com o fornecimento de fertilizantes, principalmente da Rússia, a variação em comparação com o mesmo período do ano passado é significativa.

Vamos pegar como exemplo rotas com origem em Santos e Paranaguá, as principais portas de entrada de fertilizantes no Brasil. A rota Paranaguá-Rondonópolis na primeira semana de abril de 2022 registrou um preço médio de R$214/t, contra R$176/t um ano antes. O valor do frete na rota Santos/Cubatão-Rondonópolis chegou a R$241/t, em comparação com R$154/t no mesmo período em 2021.

CD: E, João, falamos de problemas e suas causas. Mas e agora? O mercado aponta alguma solução?

JP: Então, Camila, algumas alternativas foram mencionadas. No curto prazo, a situação é mais complicada. Espera-se que as empresas façam apenas negócios conservadores, evitando ao máximo o risco, e que as margens ao longo de todos os elos da cadeia produtiva, incluindo produtores, transportadores e caminhoneiros, sejam reduzidas.

Há também a preocupação de que os bancos possivelmente reduzam a disponibilidade de crédito para os setores agrícola e de fertilizantes, impedindo possíveis negócios. Mas um efeito colateral disto seria a saída do mercado de players que não podem se dar ao luxo de operar na nova realidade.

No longo prazo, o mercado considera como fundamental o investimento em fontes de combustíveis renováveis e também em ferrovias e hidrovias, para reduzir o custo com o transporte rodoviário.

CD: Perfeito, João. E para a sequência do ano, o que podemos esperar para os fretes?

JP: A situação deve continuar desfavorável, com custos logísticos altos. O conflito na Ucrânia não parece estar perto de se resolver, apesar de já estar precificado pelos mercados globais. Além disso, no dia 9 de maio, a Petrobras anunciou um novo reajuste no diesel vendido em suas refinarias, alta de quase 9pc, o que deve manter fretes em patamares elevados. Desde o início de 2022, o diesel já subiu 47pc.

Além disso, a colheita da segunda safra de milho já está batendo na porta. Com a alta demanda, principalmente para exportação, em uma janela de oportunidade que se abre para o Brasil com as dificuldades na Ucrânia – que é um importante fornecedor de milho para Europa – fretes devem bater recorde novamente. As condições ruins de frete-retorno de fertilizante nos portos também é um elemento que pode contribuir para fretes mais caros e custos logísticos elevados.

CD: Muito obrigada, João.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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