• 4 August 2025
  • Market: Oil Products, Road Fuels
O mercado brasileiro de combustíveis passa por um período de ajustes desde a aprovação do aumento da mescla de etanol na gasolina de 27% para 30%, o chamado E30. Uma potencial consequência desse novo mandato é a necessidade de o Brasil importar etanol, sobretudo para abastecer o Nordeste. Saiba mais acompanhando a conversa entre Camila Fontana, chefe adjunta da redação da Argus no Brasil, e Maria Lígia Barros, especialista em etanol da publicação Argus Brasil Combustíveis.

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Camila Fontana: Olá, pessoal. Este é mais um episódio do Falando de Mercado, a série de podcasts semanais da Argus sobre os setores de commodities e energia.

O mercado brasileiro de combustíveis passa por um período de ajustes desde a aprovação do aumento da mescla de etanol na gasolina, o chamado E30. Uma potencial consequência desse novo mandato é a necessidade de o Brasil importar etanol, sobretudo para abastecer o Nordeste.

Eu sou Camila Fontana, chefe adjunta da redação da Argus no Brasil, e quem veio falar sobre o E30 e a possível retomada da importação de etanol pelo país é a Maria Lígia Barros, especialista em etanol da publicação Argus Brasil Combustíveis. Lígia, em que contexto de mercado veio essa elevação da mescla de etanol na gasolina de 27 para 30% em vigor a partir de agosto?

Maria Lígia Barros: Olá, Camila, e olá para os ouvintes do podcast Falando de Mercado. É um prazer estar de volta aqui. O anúncio do E30 aconteceu no fim de junho, que foi o terceiro mês da safra 2025-26 de cana-de-açúcar. E o que a gente viu até agora foi um atraso nessa safra. Os níveis de moagem de cana e de produção de açúcar e de etanol estão bem aquém do que foi registrado no ciclo passado. Isso tem a ver com fatores climáticos, como a ocorrência de chuvas em abril e em maio, e geadas em junho, mas também está relacionado com a menor quantidade de cana bisada e a pior qualidade do insumo depois das queimadas do ano passado. Além disso, é uma safra que começou com estoques de passagem baixos. As usinas, os produtores estão com estoques bem mais apertados do que eles tinham nesse mesmo período do ano anterior.

E o E30 vai requerer volumes maiores de anidro, o que aumentará a demanda, e isso vai fazer com que tenha menos disponibilidade de cana para transformar em hidratado, ou seja, a perspectiva de menor oferta. O saldo dessa conjunção de fatores é uma expectativa de suporte aos preços de etanol anidro e hidratado ao longo da safra. É a partir disso que o mercado avalia a possibilidade de importar etanol para o Brasil, entendendo que os preços aqui vão subir e pode acabar ficando vantajoso trazer produto de fora.

CF: E a gente pode ter qualquer ideia de volumes, de quantidades?

MLB: Sim, o que chama atenção é justamente esse volume de importação porque hoje o Brasil até importa etanol de fora, mas em volumes bem menores do que já importou um dia. E agora o mercado está discutindo, calculando a possibilidade de importar entre 400.000m³ a 800.000 m³ de etanol até o fim da safra, que encerra em março de 2026. Para você ter ideia, significaria uma média de 50.000 a 100.000 m³ por mês até o encerramento do ciclo, e no primeiro semestre deste ano, o Brasil importou 25.000 m³ de etanol por mês, em média.

CF: Lígia, o Brasil teria capacidade para suprir essa demanda internamente?

MLB: É provável que sim, Camila, se o setor conseguir aumentar a fabricação de etanol anidro. Tem alguns riscos para esse cenário, mas o que o mercado está vendo mesmo nesse momento quando avalia importação não é tanto uma questão necessariamente de suprimento, mas sim a oportunidade de preço.

CF: E se esse cenário que você descreve se concretizar, de onde virá e para onde irá esse etanol importado, na sua opinião?

MLB: A maior parte, dos Estados Unidos. É o que o mercado está desenhando e, muito provavelmente, o local de destino para esse etanol será o Nordeste brasileiro, principalmente os portos de Itaqui, no Maranhão, e de Suape, em Pernambuco, pela proximidade que acaba barateando os fretes.

CF: E o que vai pesar na decisão dos importadores, em termos de ritmo, de quantidade de compra de produto importado?

MLB: Isso vai depender do ritmo da intensidade de alta de preços do etanol aqui domesticamente. Vai determinar o quanto a janela de arbitragem vai se abrir, o quão atrativo esse produto importado pode ficar. E tem uma questão: quando isso poderia acontecer? O setor está avaliando, está considerando viável o início desse fluxo mais intensamente a partir de outubro ou novembro, que é quando o efeito do E30 começa a ser sentido nos preços e o produto norte-americano também pode começar a baratear – porque, no Hemisfério Norte, quando começa o inverno, existe um menor tráfego de veículos, ou seja, um menor consumo de combustível, e esse movimento, esse fundamento costuma pressionar para baixo os preços dos combustíveis por lá, entre eles, o etanol. Aqui no Brasil o preço sobe com o E30 e, por lá, barateia. Resultado disso é um aumento do preço aqui com o E30 e, por lá, uma queda, uma desvalorização. Esse movimento do inverno norte-americano se estende até mais ou menos março, sendo o período que também acaba a safra 2025-26.

CF: Lígia, com as idas e vindas da política comercial americana em relação ao Brasil, qual é a situação tarifária do etanol que a gente compraria dos Estados Unidos?

MLB: Essa é uma fonte de muita incerteza que põe em xeque esse cenário que a gente desenhou. Hoje - estamos gravando esse podcast no fim de julho - o cenário é o seguinte: o Brasil cobra uma tarifa de 18% sobre importações de etanol de fora do Mercosul, que é onde os Estados Unidos se encaixam. Enquanto isso, os Estados Unidos cobram uma alíquota combinada de 12% sobre o etanol brasileiro. Essa taxa é uma soma da tarifa-base de 2,5% mais a tarifa de 10% que Trump anunciou lá em abril. Tudo vai depender de como vão se desenrolar as tensões comerciais entre o governo dos Estados Unidos e o governo brasileiro. E, claro, a gente vai ficar aqui acompanhando e trazendo para vocês os desdobramentos desse mercado.

CF: Obrigada, Lígia. Obrigada aos nossos ouvintes por acompanharem mais um episódio do Falando de Mercado. Nós voltamos semana que vem com mais discussões sobre os setores de commodities e energia do Brasil e do exterior. Até lá.

MLB: Até lá.