O setor agrícola do Brasil está se mostrando um dos únicos pontos positivos da economia do país, impulsionado por safras recordes e uma moeda local mais fraca.
O segmento expandiu-se no primeiro trimestre do ano, atenuando os impactos da pandemia de Covid-19 sobre o produto interno bruto (PIB) do país.
Espera-se que a agricultura registre uma expansão em 2020, apesar da crise global, liderada por uma safra recorde e um real depreciado em relação ao dólar, o que impulsina a receita em moeda local. O crescimento do segmento deve limitar a queda esperada do PIB nacional este ano.
O PIB agrícola do Brasil aumentou 1,9pc no primeiro trimestre em comparação com igual período do ano passado e 0,6pc ante o trimestre imediatamente anterior, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi o único segmento a registrar uma expansão para o período de janeiro-março. Por outro lado, o PIB nacional caiu 1,5pc em relação ao trimestre anterior, já observando restrições causadas pela pandemia de Covid-19.
As culturas de soja e arroz contribuíram para o desempenho, informou o IBGE, enquanto o Ministério da Agricultura destacou as exportações de produtos agrícolas, com uma média diária de embarques de janeiro a abril 17,5pc maior em relação a igual intervalo do ano passado.
A demanda externa - especialmente da China por soja e carne - vem compensando os efeitos da pandemia em segmentos como o de food service, informou a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Além disso, o país colheu mais de 120 milhões de t de soja este ano, com as exportações de seu complexo (soja em grão, farelo e óleo) devendo gerar receita de R$31,5 bilhões ($6 bilhões), prevê a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).
A soja é um importante item de exportação para o Brasil, e sua colheita ocorre principalmente no primeiro trimestre, ressaltando sua relevância para o PIB agrícola no período.
Olhando adiante
O agravamento da pandemia durante o segundo trimestre não frustrou as esperanças de expansão do setor agrícola brasileiro, que deve colher um recorde de 250,8 milhões de t de grãos e oleaginosas na temporada 2019-20, um aumento de 3,6pc em relação a 2018-19.
O Instituto de Pesquisas Econômica Aplicada (Ipea) prevê um aumento de 2,4pc no PIB do setor este ano em relação a 2019. Mesmo em um "cenário de estresse", com a crise piorando, o segmento registraria expansão de 1,4pc.
Os PIBs de soja, café e laranja devem subir 6,4pc, 15,4pc e 4,4pc, respectivamente, informou o Ipea. O Brasil é o maior exportador global dessas commodities.
O crescimento da agricultura deve limitar, mas não evitar, um declínio acentuado no PIB nacional, dada a sua pequena parcela no indicador. No ano passado, a participação da agricultura no PIB ficou um pouco acima de 5pc, enquanto a indústria e os serviços tiveram participação de cerca de 21pc e 73pc, respectivamente. Para 2020, economistas esperam que o PIB brasileiro caia 6,3pc, segundo a mais recente pesquisa Focus realizada pelo Banco Central.
Outras turbulências internacionais, como a atual tensão entre os Estados Unidos e a China, podem não ter um impacto significativo no segmento agrícola brasileiro, disse a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). A entidade acrescentou que os preços internacionais das commodities agrícolas têm sido adequados para cobrir os custos de produção até o momento.

