• 9 de fevereiro de 2026
  • Market: Crude

A captura de Nicolás Maduro pelos EUA mudou a dinâmica do mercado de petróleo venezuelano, inserindo barris antes sancionados no mercado global e pressionando preços de óleos pesados na América Latina. Conrado Mazzoni, gerente de desenvolvimento de negócios da Argus, conversa com João Scheller, especialista em petróleo da Argus, sobre como esses fluxos podem afetar Colômbia, Equador, Brasil e o Golfo americano nos próximos meses.

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Conrado Mazzoni: A captura do presidente Nicolás Maduro no dia 3 de janeiro por forças americanas fez com que os Estados Unidos passassem a controlar as exportações de petróleo da Venezuela e introduzissem esse óleo no mercado não sancionado. Essa situação tem colocado pressão sobre os preços de petróleo similares na região e pode até impactar o mercado de alguns óleos brasileiros. É sobre isso que iremos falar neste episódio do Falando de Mercado. Vamos falar sobre a atual situação do mercado de petróleo na Venezuela, vamos falar sobre os preços aqui na região e o que a gente pode esperar para os próximos meses. Meu nome é Conrado Mazzoni, eu sou gerente de desenvolvimento de negócios aqui na Argus e estou aqui com João Scheller, que é responsável pela precificação de petróleos brasileiros e latino-americanos. Tudo bem, João? 

João Scheller: Tudo certo, Conrado. Prazer estar aqui com você para falar sobre um assunto tão importante, que está tão em voga no mercado agora. 

CM: Maravilha, o prazer é meu. E vamos começar entendendo, João, como é que estava esse mercado quando eclodiu toda essa situação de Venezuela. A gente, claro, tem muita percepção sobre o que vem a seguir, mas vamos entender onde nós estávamos quando tudo aconteceu. 

JS: Perfeito, Conrado. Bom, antes de mais nada, eu gostaria de fazer um disclaimer só de que essas informações fazem parte de uma troca interna que a gente tem aqui na Argus, não diz respeito só a uma operação minha especificamente, mas de toda uma equipe que a gente tem aqui na Argus, não só em São Paulo, mas em diferentes escritórios ao redor do mundo. E uma menção especial ao nosso head de precificação de petróleo nas Américas, o Gustavo Vasquez, que tem uma experiência de muitos anos já no mercado, cobrindo esse mercado de petróleo, tanto aqui na América Latina, como também em outros países. 

Começando então a falar sobre essa dinâmica de preços, esse contexto de mercado antes de tudo que aconteceu no começo de janeiro. A qualidade do petróleo da Venezuela — só para ter uma referência, petróleos tem uma diferença de qualidade entre um e outro; obviamente o petróleo da Venezuela tem uma qualidade, ele é mais pesado e tem um teor de enxofre maior — compete com os petróleos de alguns países aqui na região, em especial a Colômbia, México e o Canadá. O mercado para esses petróleos pesados já estava num movimento de queda de preços no final do ano passado. Isso diz respeito a uma demanda da China, especialmente, ali desde meados de novembro. Portanto, a gente vai ter uma maior concorrência, mais players oferecendo petróleos com qualidade similar, com um teor de enxofre grande, a tendência é que esses preços caiam. Partindo desse pressuposto, a gente pode falar um pouco então sobre o que a gente espera para esse mercado de óleos pesados, o que a gente espera para esse mercado do petróleo venezuelano a partir de agora. 

Vale mencionar só duas coisas que também são importantes e que também impactam os preços. A estratégia da OPEP para a produção de petróleo ao redor do mundo obviamente é um fator crucial, vai influenciar as expectativas, os limites de produção que o mercado global consegue absorver, o que a gente vai esperar com relação à demanda. E além disso, quando a gente fala do mercado dos Estados Unidos, que é ali o receptor natural, o destino natural para esses óleos venezuelanos e também a expectativa do próprio governo dos Estados Unidos foi bem clara com relação a isso, o mercado americano já está bem suprido de petróleos pesados. Nos últimos anos, teve um desenvolvimento do mercado canadense, a gente vai falar sobre isso no decorrer do episódio, mas o mercado canadense já consegue suprir o golfo americano que tem a demanda por óleos dessa mesma qualidade. Então já tem uma pressão relativamente grande na oferta no mercado americano de óleos similares. 

CM: Antes da gente entrar mais na parte de mercado, João, é interessante fazer esse histórico da Venezuela. Você mencionou a OPEP, a Venezuela foi um país central na criação desse grupo e quando a gente recorda ali os anos 1990, a gente lembra dos picos de produção, a Venezuela ocupando uma posição de destaque nesse mercado. Como é que você faz esse histórico desse passado, essas mudanças estruturais e como que a gente está nesse momento? 

CM: Perfeito, Conrado, acho que vale pontuar que a Venezuela dos anos 1990 é diferente da Venezuela que a gente tem agora. Aquela Venezuela que vendia volumes muito grandes para o mercado do Golfo dos Estados Unidos, ela estava posta num momento histórico em que você não tinha ainda a produção canadense, por exemplo, tão avançada como tem hoje, não tinha infraestrutura de transporte desse petróleo para a região do golfo, não tinha vários fatores que afetam a concorrência nesse mercado. Então o ambiente atual é completamente diferente, tem mais competição, tem mais competitividade e, além disso, é um momento em que a Venezuela não está produzindo mais tanto petróleo como produzia naquela época, isso por diversos fatores, mas o principal deles a pressão interna, a crise econômica na Venezuela, a dificuldade de investimento, a própria infraestrutura logística de produção na Venezuela. Então a gente está num momento histórico diferente e acho que isso é bastante importante porque às vezes as pessoas imaginam que você vai retornar a um momento de produção superforte, supergrande, como existia há algumas décadas e esse cenário não existe mais. 

CM: João, eu imagino a dificuldade que tem sido acompanhar todas as nuances do mercado, a cada hora surge uma nova notícia, uma informação que impacta nas expectativas dos agentes, mas uma informação que o mercado está muito de olho é a questão dos 30, 50 milhões de barris venezuelanos que trocaram de mãos e passaram para os Estados Unidos. Já dá para ter uma ideia para onde vai esse fluxo? Como que você está vendo essa questão? 

JS: Bom, Conrado, eu acho que não dá ainda para a gente ter essa noção exata para onde vai esse fluxo. Acho que essa é a pergunta de um milhão de dólares porque primeiramente é tudo muito novo ainda. A reunião que o governo americano teve com algumas companhias para tratar exatamente sobre a venda desse óleo venezuelano, dessa produção venezuelana, ainda é muito recente. A entrada dessas companhias e as primeiras ofertas são muito recentes. Então ainda não dá para a gente cravar exatamente para onde que essa produção vai. Acho que vale, na verdade, dar um passo para trás e olhar os fatores que podem influenciar isso tudo. Primeiramente, a gente precisa entender qual é a qualidade desse petróleo. A gente tem, claro, classificações de óleos, diferentes campos de produção na Venezuela, mas o fato é que a gente tem que ter uma consistência na produção desses óleos, uma consistência em termos de qualidade para que os refinadores consigam, de fato, comprar com uma recorrência esse óleo venezuelano, que é algo que só dá para saber quando a gente tiver a qualidade de fato muito bem definida. Para além disso, a gente tem visto duas companhias de trading multinacionais, a Vitol e a Trafigura, que são conhecidas e operam em diferentes países ao redor do mundo, reservando alguns navios já para enviar esse óleo, ou para o Golfo dos Estados Unidos ou para outras regiões, e também reservando armazenamento especial na região do Caribe, em países do Caribe, para guardar esse óleo e conseguir enviá-lo para o destino, qualquer que seja ele. Então já tem um movimento de mercado se preparando para isso. As primeiras ofertas também já estão circulando. A gente escutou ofertas para a Ásia, em especial para a China, escutamos ofertas para a Europa, escutamos ofertas para os próprios Estados Unidos, para a região do golfo. Fato é que ainda tudo, de novo, é muito incipiente. Então quando a gente fala “para onde vai esse petróleo”, pode ir para qualquer lugar. Assim, inicialmente esse óleo ia para a Ásia, então você imagina que poderia voltar a ir para lá, mas o golfo americano também tem uma demanda grande. A gente acabou de falar que o golfo, porém, tem uma quantidade muito grande de oferta de óleo. Então vai depender de como o mercado vai se ajustar e como os preços, em especial, vão se ajustar a essa nova dinâmica. 

CM: E Vitol e Trafigura estão muito nos holofotes, a gente tentando acompanhar os próximos passos da destinação desse volume de petróleo. Mas algumas companhias já estão posicionadas na Venezuela, já há algum tempo, é o caso da Chevron, da Repsol e da Eni. Como é que fica a situação para essas companhias, João? 

JS: Conrado, sim, essas companhias já estavam, de fato, operando na Venezuela. Há um pré-requisito na Venezuela, pelo menos existia esse pré-requisito desde os anos 2000 para que essas empresas estrangeiras tivessem que operar em joint ventures com a estatal PDVSA para poder explorar a produção de petróleo na Venezuela. Chevron, Repsol e Eni são exemplos de empresas que operam nesse formato. A Chevron, em especial, operava com uma licença emitida pelo governo dos Estados Unidos para poder fazer as exportações desse petróleo especificamente para os Estados Unidos, apesar das sanções que o governo americano tinha imposto à Venezuela nos últimos anos por conta da situação política do país. A Chevron estava operando com essa licença até meados do ano passado, quando o governo Trump não renovou essa licença, ficaram alguns meses de um hiato, sem produzir, sem exportar esses barris da Venezuela. A Chevron voltou com uma nova licença no final do ano passado, na segunda metade do ano passado, e tem mantido um fluxo relativamente estável de exportações desde então, com base nas informações que a gente consegue ter, fazendo mapeamento de navios, fazendo mapeamento de cargas, já que essa licença não é tão clara em detalhes com relação a esse volume que é exportado para o Golfo. No caso da Repsol e da Eni, essas empresas também operavam com licenças do governo americano, mas as mudanças do ano passado trouxeram um pouco de incerteza com relação a como essas companhias conseguem operar na Venezuela. Esse movimento tende a ser um pouquinho mais longo, a gente vai demorar um pouco para entender ainda, para ter mais claro o papel dessas duas companhias e a quantidade de volume que elas vão produzir e poder exportar da Venezuela. O fato é que a gente tem que fazer uma diferenciação entre o que é a produção da Chevron, por exemplo, e o que é a produção que a Vitol e a Trafigura, aqueles 30, 50 milhões de barris, qual é a diferença que existe entre essas duas companhias. A Chevron está produzindo petróleo na Venezuela para exportar para o golfo, para o seu próprio sistema de refino. Então não é uma carga que vai ser oferecida no mercado spot — pelo menos não é o que tem acontecido, isso obviamente pode mudar. Então essas cargas da Chevron não dizem respeito às cargas que a gente está falando da Vitol e da Trafigura, que estão começando a ser ofertadas no mercado. E a Repsol e a Eni, como eu mencionei, vai depender de como a licença do governo americano vai operar. O fato é que tanto a Chevron quanto a Repsol, por exemplo, mencionaram e deixaram claro para o governo americano que elas têm interesse de expandir a sua participação no mercado venezuelano, dado que elas já estão presentes nesse mercado há alguns anos, já têm expertise e estão dispostas a expandir, eventualmente aumentar a sua participação. Então a gente pode esperar que a participação dessas companhias de fato aumente ou, pelo menos, modifique de alguma forma nos próximos meses. 

CM: E aí, naturalmente, se tivermos uma maior atividade de comercialização desse petróleo na Venezuela, isso vai se refletir em impactos nos preços no mercado. Como é que você tem visto, João, essa dinâmica de preços? E aqui é sempre importante destacar que nós temos a cobertura, o acompanhamento e a publicação de preços de petróleos da Colômbia, da Guiana, da Argentina e do Equador, que o João é responsável por esse levantamento de mercado também. Então, considerando também esses impactos regionais, João, como é que você vê a estrutura comercial a partir desse evento? 

JS: Perfeito. Na Colômbia, que é um mercado que tem como seu principal destino de exportação a região do Golfo dos Estados Unidos, esse impacto já está chegando. A gente já consegue ver esse impacto em termos de preço. O primeiro programa de carga, os primeiros navios que foram vendidos depois do anúncio, depois de todos os fatos que ocorreram na Venezuela com a captura do Maduro no início de janeiro, esses navios já foram vendidos a preços mais baixos do que o normal. Na verdade, a preços consideravelmente mais baixos do que o normal. Castilla, por exemplo, que é um dos petróleos mais exportados pela Colômbia, chegou num preço que é um dos mais baixos nos últimos dois anos. Então, tem um impacto direto por conta daquilo que a gente falou no começo do episódio. Mais concorrência e mais oferta de óleos com qualidade similar para o mercado do golfo que estava pressionando os preços. E o outro óleo, que também é da Colômbia, o Vasconia, que tem uma qualidade um pouco mais leve do que o do Castilla, também teve preços fortemente afetados. É um petróleo que é considerado de qualidade similar ao da Venezuela e, de novo, tem como seu principal mercado o golfo americano, que se espera que seja também o principal mercado da Venezuela, ou pelo menos foi o que foi mencionado pelo governo americano num primeiro momento. Então tem esse impacto já que é possível ser visto. O Equador também tem uma produção de petróleo pesada relevante e a gente ainda não teve uma visibilidade em relação ao impacto dos preços por lá. A Petroecuador, que é a estatal do país, já começou uma licitação para a venda das primeiras cargas neste ano. Então a gente vai ver, provavelmente, nas próximas semanas, esse impacto mais claro também no Equador. É algo que a gente considera natural, dada a mudança regional de produção. Vale também mencionar, Conrado, que os preços que a gente via sendo praticados do petróleo venezuelano no mercado antes de tudo o que aconteceu agora em janeiro eram preços muito baixos. A gente tinha uma venda relativamente constante para a China, por exemplo, mas esses preços extremamente baixos eram preços de cargas sancionadas pelo Ocidente — Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido. Então essas cargas não podem ser comparadas com as cargas de agora, que agora sim estão em um mercado não sancionado. Então a expectativa é que se tenha de fato um prêmio considerável. E vale mencionar que é como se fosse um mercado distinto mesmo. As refinarias chinesas que compravam essas cargas venezuelanas com um desconto superconsiderável por serem sancionadas não vão continuar tomando, não é uma expectativa de que elas continuem tomando, pelo menos, esse petróleo venezuelano agora não sancionado a preços muito mais caros. A expectativa é de que elas busquem alternativas sancionadas, seja por exemplo no Irã, que tem uma produção que poderia eventualmente substituir esse óleo venezuelano, em partes, busque outros países ou simplesmente pare de refinar alguma quantidade X de barris, diminua um pouco essa quantidade comprada por conta dessa falta desse óleo sancionado. Vale mencionar que os preços de petróleo venezuelano que eventualmente eram reportados antes não devem se repetir agora com essas cargas que a Vitol e a Trafigura vão ofertar. Elas devem obviamente manter um preço mais marcado a mercado, digamos assim, marcado ao mercado regional. Por falar em preço, inclusive, a gente está falando aqui do impacto na América Latina dos países na região, e no Brasil? Você que é especialista aqui no mercado de petróleo do Brasil, acompanha de perto a dinâmica de preços, como é que você está vendo assim esse possível impacto, o que o mercado tem visto com relação a esse possível impacto do óleo venezuelano agora não sancionado aqui na região? 

CM: Pois é João a gente lançou recentemente as referências de petróleos brasileiros do pré-sal Búzios, Tupi e Mero em base FOB. Fizemos um trabalho de lançamento no fim do ano passado, e graças a isso a gente tem feito um acompanhamento, uma conversa mais próxima com os participantes e isso naturalmente tem contribuído para a nossa leitura de mercado, o nosso entendimento de mudanças de mercado, como essa questão de Venezuela. E assim, em um primeiro momento, o impacto no Brasil deve de fato ficar limitado aos petróleos mais pesados. Estamos falando de Papa-Terra, Peregrino, Marlim, Albacora Leste e Atlanta, por exemplo. Não se espera que a gente tenha um efeito sistêmico em todos os petróleos aqui, incluindo os petróleos do pré-sal, que são petróleos que são destaque em nível de produção, são os petróleos mais exportados — e estão com produção, no caso de Búzios, acima de um milhão; Tupi também, um milhão de barris por dia —, e eles têm uma qualidade médio e doce, tendo como principais mercados a Europa e a Ásia. Então não se espera um impacto aí que chegue nesses petróleos, mas sim algo mais localizado nos petróleos mais pesados. No caso dos fretes, se a gente imaginar uma atividade maior de navios VLCC na região para fazer esse serviço de carregamento do óleo venezuelano, pode ser que a gente tenha algum impacto nos preços de frete, mas isso, claro, vai depender do vigor dessa demanda de China e Índia, se isso vai acontecer de forma recorrente com esses petróleos da Venezuela agora não sancionados. E o que a gente tem observado até agora de demanda no golfo para esses barris é de fato uma atividade maior de navios Aframax na região do Mar do Caribe. Então, aí na parte do frete é alguma coisa para a gente acompanhar o desenrolar dessa história toda. 

Bom, então chegamos aqui ao final desse Falando de Mercado. Muito obrigado, João.

JS: Obrigado você, Conrado, foi um prazer. 

CM: O prazer foi meu. Obrigado aos ouvintes. João trouxe muitos pontos interessantes para a gente continuar acompanhando os desdobramentos dessa situação de mercado e aproveito aqui para fazer um convite: neste ano nós teremos o nosso clássico evento da Argus, a Rio Crude. A conferência voltada para o mercado de petróleo no Rio de Janeiro vai acontecer neste ano entre os dias 18 e 20 de maio. Estaremos lá, todo o time da Argus, painéis com conteúdo muito qualificado, convidados das grandes companhias para a gente conseguir cada vez mais ter uma compreensão maior e mais clara com toda a profundidade Argus no que está acontecendo nesse mercado. Então te aguardamos lá. Muito obrigado. Até a próxima.