Podcast - Falando de Mercado: Os impactos do coronavírus no mercado brasileiro de combustíveis

Author Argus

As medidas de combate ao contágio por coronavírus têm provocado um forte impacto na demanda por petróleo e derivados ao redor do mundo. Qual o tamanho da queda na demanda e como isso se reflete na comercialização de combustíveis no Brasil?

No segundo episódio da série Falando de Mercado, Vanessa Viola, Vice-Presidente Sênior da Argus para a América Latina, e Clayton Melo, Diretor da Argus no Brasil, discutem os efeitos da pandemia no setor brasileiro de combustíveis.

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Transcript

Vanessa: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos impactando os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Vanessa Viola, vice-presidente da Argus para a América Latina. No episódio de hoje eu converso com Clayton Melo, diretor da Argus no Brasil, sobre os impactos do coronavírus no mercado brasileiro de combustíveis. Bem-vindo Clayton.

Clayton: Obrigado Vanessa. É um prazer estar aqui!

Vanessa: Clayton, as medidas de combate ao contágio pelo coronavírus tem provocado um forte impacto na demanda por petróleo e seus derivados ao redor do mundo. Qual o tamanho da queda da demanda de combustíveis no mercado brasileiro?

Clayton: Vanessa, nas primeiras semanas após a implantação das medidas de restrição de mobilidade as demandas de diesel e de combustíveis do ciclo otto, gasolina e etanol, chegaram a cair 30 e 70% respectivamente, dependendo da distribuidora e da região. Ainda não é possível determinar a queda exata no mês de março porque a ANP só divulgará os números no final deste mês de abril, mas algumas das maiores distribuidoras do país afirmam que a demanda parece ter se estabilizado em um patamar 25% menor para o diesel e 50% menor para os combustíveis do ciclo otto. A queda menor na demanda por diesel tem sido explicada pela contínua necessidade de abastecimento de produtos essenciais à população, e especialmente pela movimentação de uma grande safra de grãos.

Vanessa: E como a Petrobras, que refina e fornece a grande maioria dos combustíveis no mercado doméstico, tem reagido a essa queda significativa da demanda?

Clayton: A queda significativa dos preços do petróleo no mercado internacional, combinada com a queda de demanda provocada pelo coronavírus tem criado diversos desafios para a Petrobras. Ela já anunciou o corte de 200.000 barris de petróleo dia na produção de petróleo, que representa algo da ordem de 9% em relação ao patamar anterior, e de cerca de 2 bilhões de dólares em gastos operacionais em 2020. A taxa de ocupação de suas refinarias já havia caído de 79 para 71,5% de janeiro para fevereiro, de acordo com a ANP, e especula-se uma queda bem mais significativa nas próximas semanas em função do novo patamar de consumo de combustíveis claros. Além disso a companhia também adiou o prazo para recebimento de propostas de compra de parte de suas refinarias.

Vanessa: De que forma essa volatilidade afetou a importação de combustíveis claros para o Brasil?

Clayton: Nossa equipe de jornalistas já percebia uma redução significativa das negociações de cargas de gasolina e diesel na primeira semana de março. Ao final da primeira quinzena já havia uma estimativa de chegada de mais de 1 milhão de metros cúbicos de diesel aos portos brasileiros naquele mês, e apesar de uma janela de arbitragem aberta os importadores continuavam afastados das negociações. A situação começou a mudar na segunda semana de abril, quando começamos a perceber alguma movimentação entre os importadores, e que acabou resultando em algumas transações no início da semana passada. Ou seja, o Brasil voltou a importar diesel.

Vanessa: E qual o impacto disso tudo nos preços dos combustíveis?

Clayton: Desde o início do 2020 até a última segunda-feira 20 de abril, a Petrobras já havia reduzido os preços nas refinarias em algo da ordem de 48% em média – obviamente os números dependem do combustível e do polo de entrega. Mas o último reajuste ocorreu quando o preço do petróleo WTI estava ao redor de 12 dólares por barril, que como sabemos chegou a níveis negativos recentemente. Portanto devemos esperar uma volatilidade ainda grande nos preços da Petrobras nas próximas semanas.

Nesse mesmo período nós registramos uma queda de 27,5% do etanol hidratado na região Centro-Sul, o que pode se acentuar com o início da safra da região.

Já no varejo a queda é mais lenta, dado que distribuidoras e postos tentam minimizar as perdas com a venda de estoques mais antigos, comprados a preços mais altos.

Vanessa: Você mencionou os preços de etanol - de que forma essas circunstâncias tem impactado o setor sucroenergético, tão importante no abastecimento do mercado interno de combustíveis?

Clayton: O momento em que as medidas de restrição de mobilidade foram implementadas e a queda de demanda ocorreu com força não poderia ser pior para o setor. A região centro-sul, que é responsável por mais de 90% da produção nacional de etanol, está iniciando sua safra neste momento e o excesso de oferta tende a pressionar ainda mais os preços.

Os grupos produtores mais capitalizados e com mais capacidade de armazenagem podem carregar seus estoques até a segunda metade da safra, quando esperam uma melhora na demanda e nos preços de realização. Mas boa parte dos produtores não tem essa possibilidade. É provável também que haja um aumento da produção de açúcar, favorecida pela desvalorização do real frente ao dólar, em detrimento da produção de etanol.

Algumas distribuidoras também acionaram cláusulas de força maior em contratos de etanol anidro para reduzir suas obrigações de retirada de produto das usinas, o que provocou uma forte reação das entidades representativas do setor.

A indústria tem feito demandas ao governo federal na tentativa de preservar minimamente sua competitividade, entre elas a eliminação temporária do PIS/COFINS, o aumento da CIDE sobre a gasolina, a redução de impostos sobre os créditos de descarbonização CBios e o fim das quotas de importação de etanol anidro com isenção de imposto de importação, mas ainda não é possível prever se e quando essas demandas serão aceitas.

Vanessa: Muito obrigado, Clayton. Se você quiser saber mais sobre os impactos da pandemia no mercado global de commodities, acesse nosso microsite dedicado ao assunto em www.argusmedia.com/coronavirus.

Voltaremos em breve com mais uma edição do ‘Falando de Mercado’. Até logo!

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