Falando de Mercado: Perspectivas para as exportações de café brasileiro

Author Argus

O agronegócio segue impulsionando a balança comercial brasileira em meio à pandemia e, além da soja, o café também experimentou um salto no volume de exportações.

O que está por trás deste desempenho e quais são as perspectivas comerciais para o café brasileiro nos mercados doméstico e internacional? No episódio desta semana da série Falando de Mercado, Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, conversa com Kauanna Navarro, repórter de agricultura e fertilizantes, sobre as perspectivas para a safra brasileira de café este ano.

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Transcript

Camila: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil. E no episódio de hoje eu converso com Kauanna Navarro, repórter de grãos e fertilizantes da Argus, sobre o crescimento nas exportações brasileiras de café. Bem-vinda, Kauanna.

Kauanna: Obrigada, Camila. É um prazer estar aqui.

Camila: A pandemia gerou uma crise econômica mundial, mas o agronegócio brasileiro tem sido beneficiado com a forte valorização do dólar ocorrida nesse período. As exportações de soja devem bater novo recorde, mas não é apenas a soja que tem sido beneficiada por esse cenário. Qual outra área do agronegócio que tem se saído bem na crise, Kauanna?

Kauanna: Não é apenas a soja mesmo. O café brasileiro tem ficado mais popular no exterior. Com o real desvalorizado, a commodity ficou mais competitiva em outros países. No primeiro semestre do ano, a receita brasileira de exportação de café aumentou 28,2pc em relação ao mesmo período de 2019. Em volume, o aumento foi bem menos expressivo, de 0,3pc. Os dados são do Conselho Brasileiro de Exportadores de Café (Cecafé).

Camila: Mas esse avanço se deve apenas ao real desvalorizado ou há algo a mais ajudando nisso?

Kauanna: Ah, tivemos uma ajuda extra. As exportações brasileiras também foram ajudadas por um declínio na produção no Vietnã, onde baixas temperaturas e chuvas acima da média reduziram a produtividade. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA, prevê a produção de café da safra 2020-21 do Vietnã em 30,2 milhões de sacas de 60 kg, queda de 3,5pc em relação ao ano anterior.

A produção brasileira de café robusta — que é considerado um grão de qualidade inferior ao arábica — preencheu a lacuna no mercado global deixado pelo Vietnã, com as exportações de grãos robusta subindo 30pc no período de janeiro a junho, segundo dados do Cecafé. As exportações totais, que incluem produção industrializada e o grão arábica, diminuíram 4pc no mesmo período.

Camila: E quem compra o grão robusta?

Kauanna: O café em grão robusta é bastante usado em certas misturas nos EUA e em outros pequenos nichos de mercado. Mas, recentemente, encontrou novos mercados consumidores, incluindo importadores iniciantes, como Espanha, Rússia e alguns países africanos.

Camila: O Vietnã teve quebra de safra... e no Brasil, como anda a produção? Temos boas perspectivas para a próxima safra?

Kauanna: O Brasil produziu 59,3 milhões de sacas de café até junho de 2020, segundo dados do USDA. Para a próxima temporada, a previsão é de um recorde de 67,9 milhões de sacas. As boas condições climáticas prevaleceram na maioria das regiões cafeeiras brasileiras, apoiando o estabelecimento, o desenvolvimento e o enchimento dos grãos. Com isso, o rendimento da safra foi maior.

Camila: O movimento cambial continuará sendo positivo para as exportações brasileiras?

Kauanna: As exportações devem continuar sendo ajudadas pela desvalorização da moeda brasileira em relação ao dólar. Desde janeiro, o real caiu XXpc em relação ao dólar, e os problemas macroeconômicos causados pela pandemia de Covid-19 devem continuar afetando a moeda. Mas as notícias não são só positivas, há preocupações com a demanda dos EUA. O país foi o maior comprador de café brasileiro nos primeiros seis meses do ano, com quase 20pc de participação de mercado. Mas a situação econômica nos EUA, que também foi bastante afetada pela pandemia, pode levar a uma redução na compra de café. É bom lembrar que o PIB americano caiu quase 33pc no segundo trimestre na comparação com o mesmo período do ano passado. É de se esperar, então, que a demanda pelo café brasileiro sofra algum impacto.

Camila: E como ficou o mercado doméstico nisso?

Kauanna: Os preços no mercado interno brasileiro permaneceram estáveis neste ano, à medida em que a demanda por exportações aumentou. O consumo interno de café no Brasil para 2020-21 deverá permanecer inalterado em 23,5 milhões de sacas em comparação com o ciclo anterior. Desse total, 22,4 milhões de sacas devem ser torradas e moídas e 1,2 milhão de sacas devem ser destinadas ao café solúvel.

Camila: E até o fim do ano? Algo deve mudar com a projeção de queda acentuada do PIB brasileiro? Lembrando que no boletim Focus, do Banco Central, a estimativa é de retração de quase 5,5% da economia este ano.

Kauanna: Apesar da queda projetada para o PIB brasileiro para 2020, o café tem alta penetração nas famílias brasileiras, cerca de 97pc das famílias brasileiras consomem café regularmente, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Café. A associação espera que o aumento do consumo nas famílias brasileiras deva compensar as perdas no consumo "fora de casa" com o fechamento temporário de cafeterias, hotéis, bares e restaurantes brasileiros imposto para conter o avanço da pandemia de Covid-19.

Camila: Muito obrigada, Kauanna. Este e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do Falando de Mercado. Até logo!

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