Falando de Mercado: Como anda o paper market de soja no Brasil?

Author Argus

O paper market de soja negociada a partir de Paranaguá tem estado aquecido, tornando-se um mercado secundário cada vez mais significativo para comercializadores atuando no Brasil.

O que tem impulsionado esse mercado e quais as perspectivas para a safra brasileira de soja 2020-2021?

No episódio desta semana da série Falando de Mercado, Camila Dias, Chefe de Redação da Argus no Brasil, e José Roberto Gomes, repórter de agricultura e fertilizantes, conversam sobre as perspectivas para as exportações brasileiras de soja.


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Transcript

CD: Olá e bem-vindos ao "Falando de Mercado" – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com José Roberto Gomes, repórter de Agricultura e Fertilizantes da Argus. Nós vamos falar sobre as negociações no chamado paper market de Paranaguá e as perspectivas para as exportações de soja. Bem-vindo, José.

JR: Olá, Camila, obrigado. Um prazer estar aqui novamente.

CD: José, antes de mais nada, você poderia explicar o que é o paper market e o que é negociado lá?

JR: Claro, Camila. Olha, de uma forma bem resumida, o paper market, ou mercado de papel, como também é chamado, é o nome dado às negociações de prêmios fob de exportação de soja via porto de Paranaguá, no Paraná. Lembrando que o prêmio é um diferencial em relação aos preços de referência da commodity, que no caso da soja são os contratos negociados na Bolsa de Chicago. Esse prêmio incorpora frete marítimo, logística no Brasil, preços domésticos, entre outros componentes.

Bom, digamos que uma trading origina determinado volume de soja junto a uma cooperativa, uma cerealista, por exemplo, e passa a deter tal quantidade para exportação. Só que essa empresa ainda não tem um comprador final no mercado externo. Então, o que ela pode fazer é ir ao paper market e ver se alguma outra trading, que já possui comprador lá fora, mas não tem a soja originada, está disposta a comprar seu contrato, seu papel.

Ou seja, o paper market é um mercado secundário, onde revendedores, as tradings, negociam entre si. Ah, vale destacar que os volumes negociados são geralmente múltiplos de cinco mil toneladas.

CD: Obrigado pela explicação, José. Agora, o que temos visto é um paper market bem ativo, com várias negociações toda semana. O que explica isso?

JR: Pois é, Camila, bem observado. Nas últimas semanas, as transações no paper market giraram em torno de 100 mil, 150 mil toneladas, o que é um volume bem expressivo, segundo corretores com quem a Argus conversou.

Eu diria para você que são dois os fatores que têm impulsionado esses negócios. Primeiro que a originação de soja tem sido mais difícil para as tradings nos últimos dois meses, pelo menos. É que os produtores rurais reduziram o ritmo de vendas por causa de problemas com o plantio da safra 2020-2021. O plantio começou em setembro, mas faltou chuva, e muitos agricultores preferiram não se comprometer em entregar soja lá na frente sem a certeza de que produzirão a quantidade esperada.

Com dificuldades para conseguir soja no campo, digamos assim, as tradings passaram a recorrer ao paper market na tentativa de cobrir seus compromissos de embarque.

Outro fator que tem estimulado negócios é algo mais recente. Há alguns dias, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos cortou as previsões de safra e estoques de soja norte-americanos para a safra 2020-2021. Isso jogou os preços na Bolsa de Chicago lá para cima e, para compensar essa alta, os prêmios de exportação caíram aqui no Brasil.

Algumas tradings que estavam com posições compradas, temendo que os prêmios caíssem mais, entraram revendendo seus contratos para fazer algum dinheiro. No fim, isso ajudou a movimentar o mercado.

CD: Bem interessante. José, você pode dar uma ideia dos valores desses prêmios atualmente?

JR: Camila, se pegarmos os primeiros embarques da temporada 2020-21, fevereiro e março, esses prêmios estão em torno de 70 a 110 centavos de dólar por bushel sobre os preços na Bolsa de Chicago. São prêmios que se enfraqueceram nos últimos dias, como mencionei há pouco. No fim de outubro estavam entre 90 e 140 de centavos de dólar por bushel. Mas ainda são considerados bem firmes na comparação com os últimos meses justamente por causa dessa sensação de que o Brasil pode não ter o volume de soja esperado no início do próximo ano após os problemas com o plantio.

CD: José, já que estamos falando de exportação de soja, quais são as perspectivas de embarques para o ciclo 2020-21?

JR: São bem positivas, Camila. O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de soja, né? Deve colher um volume histórico de 135 milhões de toneladas nesta safra e exportar novamente mais de 80 milhões. A Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, projetou recentemente que as vendas externas ficarão em 85 milhões de toneladas em 2020-21, acima das 82 milhões projetadas para 2019-20.

Esse aumento é puxado pela demanda chinesa e pela desvalorização do real em relação ao dólar, o que torna as nossas commodities mais competitivas no mercado internacional.

CD: De fato, a China comprou muita soja do Brasil neste ano, né?

JR: Olha, Camila, muito mesmo. A China já é tradicionalmente o principal comprador de soja brasileira. E neste ano, com o enfraquecimento do real ante o dólar, nossa soja ficou ainda mais atrativa.

Entre janeiro e outubro o Brasil exportou quase 60 milhões de toneladas de soja pra China, o que é praticamente três quartos de tudo o que nós vendemos ao exterior, de acordo com dados do Ministério da Agricultura. Para a gente comparar, entre janeiro e outubro do ano passado tínhamos exportado 50 milhões de toneladas de soja para a China.

CD: José, para a gente concluir, como estão os preços domésticos da soja em meio a todo esse cenário que você descreveu?

JR: Nas alturas, Camila. A combinação de alta do dólar ante o real e de forte demanda externa levou os preços lá para cima. Sem falar que as exportações reduziram demais a oferta interna. Resultado? No porto de Paranaguá, uma referência nacional, os preços estão em torno de 165 a 170 reais por saca de 60 quilos. Simplesmente um recorde.

Muito obrigado, José. Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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