Falando de Mercado: Impactos do coronavírus no financiamento agrícola no Brasil

Author Argus

O crédito ao agricultor brasileiro tem se mostrado limitado em meio à pandemia, apesar do patamar de juros historicamente baixo no país e dos recordes de produção. O que está por trás desta restrição e como isso deve afetar a compra de fertilizantes e insumos para a próxima temporada?

No episódio desta semana da série Falando de Mercado, Flavia Bohone, Editora de Agricultura e Fertilizantes, e Kauanna Navarro, Repórter de Agricultura e Fertilizantes, analisam os impactos do coronavírus no financiamento agrícola no Brasil.

Links relacionados

 

Transcrição

Flavia: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Flavia Bohone, editora da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. No episódio de hoje eu converso com Kauanna Navarro, repórter de grãos e fertilizantes, sobre os impactos da pandemia no crédito para os agricultores brasileiros. Bem-vinda, Kauanna.

Kauanna: Obrigada, Flavia. É um prazer estar aqui.

Flavia: Kauanna, o Banco Central reduziu a taxa básica de juros do país a 3% ao ano, a menor já registrada. Com isso, é natural esperar que o crédito fique mais barato e mais acessível, mas no campo a situação não é exatamente essa. O que está acontecendo?

Kauanna: Flavia, apesar de os juros estarem historicamente baixos, agricultores dizem que os credores não estão acompanhando o movimento, com taxas de juros até mais altas e mais restrição ao acesso ao crédito. Isso acontece porque esses juros muito baixos vêm na esteira de uma forte crise econômica que acabam envolvendo mais riscos de inadimplência na avaliação de muitos credores. Portanto, o que acaba acontecendo é que essa queda de juros dificilmente chega ao agricultor e o acesso ao crédito acaba ainda mais restrito aos clientes com baixo risco de inadimplência.

Flavia: Bom, sabemos que os credores avaliam uma série de variáveis antes de definir sobre a liberação de recursos. No cenário atual, além dos impactos econômicos causados pela pandemia de Covid-19, o que mais tem estado no radar dos credores para restringir o acesso aos recursos para o agronegócio brasileiro?

Kauanna: O assunto mais relevante no momento ainda é a proposta de novas regras para os planos de recuperação dos agricultores em Mato Grosso, principal estado produtor de grãos do país. Atualmente, está em discussão uma mudança nas regras que podem facilitar os planos de recuperação judicial de agricultores individuais como pessoa física, em vez da estrutura atual, que até que pessoas físicas entrem com o pedido, mas as exigências de registro na junta comercial fazem com que essas recuperações sejam praticamente inválidas. Isso significa que os credores dos agricultores, incluindo grandes tradings, enfrentam maior risco de os produtores buscarem o mecanismo de recuperação judicial, onde até 80% de suas dívidas poderiam ser eliminadas. Tradings chegaram, inclusive, a ameaçar parar de financiar a produção agrícola brasileira no ano passado. Mas elas ainda estão financiando as safras, só que estão mais cautelosas e o crédito está mais apertado.

Flavia: Como essa dificuldade de acesso ao crédito afeta as compras para fertilizantes?

Kauanna: Nesta safra as compras de fertilizantes foram amplamente antecipadas, com agricultores aproveitando os preços baixos do insumo no fim do ano passado e no começo deste ano. Com isso, as compras para o plantio de soja da safra 2020-21, que começa em setembro, estão quase concluídas. Mas essa restrição ao crédito e a volatilidade cambial podem acabar adiando ainda mais as compras de fertilizantes para o restante da safra de soja e para a safra de milho de inverno 2020-21 (safrinha).

Flavia: O dólar é um componente muito importante na compra de insumos e estamos vendo um momento de forte valorização da moeda norte-americana. Quais são os riscos para o agriultor nesse momento?

Kauanna: O Brasil importa mais de 70% do fertilizante que consome a cada ano. Portanto, a cotação do dólar é realmente um fator crucial na definição dessa compra, mas também mais um fator de risco. A compra de insumos como fertilizantes sem financiamento e sem planejamento pode ser particularmente arriscada, especialmente se o real estiver mais valorizado quando chegar a hora de vender as colheitas. Por isso é muito comum que os agricultores aproveitem momentos de queda do dólar e dos preços de fertilizantes para compor os estoques necessários para a safra seguinte. Quando falamos de culturas que não estão com cotações em dólar atrativas, como é o caso do açúcar e também do algodão, essa equação pode ficar particularmente desafiadora para os agricultores.

Flavia: Foi isso que aconteceu para a safra 2020-21 de soja?

Kauanna: Os preços dos fertilizantes estavam baixos devido ao excesso de oferta ao redor do mundo, enquanto os agricultores brasileiros estavam mais capitalizados, com as fortes exportações e a alta do dólar. Essa combinação foi favorável ao agricultor, que comprou os insumos com o dólar mais baixo e vendeu sua safra com o dólar muito mais valorizado. Agora, no entanto, com o dólar rondando máximas históricas em relação ao real, o agricultor fica muito mais cauteloso.

Flavia: Kauanna, uma das formas de financiamento existente no agronegócio é o barter, quando os agricultores compram insumos, como fertilizantes, e pagam com a própria produção. Esse mecanismo acaba sendo mais seguro para os credores. Como está o cenário no momento?

Kauanna: De fato, Flavia, as operações de troca são uma importante alternativa e um mecanismo muito usado na agricultura brasileira. Atualmente, as taxas estão bastante atraentes para o agricultor, inclusive. Mas nem todas as tradings estão dispostas a fazer essas transações de maneira tão adiantada. As compras de fertilizantes para o plantio de soja 2020-21, que começa em setembro, estão quase no fim e é muito cedo para definir preços para 2021-22. Os produtores relataram nas últimas semanas que as consultas para entregas em 2021 estão aumentando, mas é arriscado definir preços agora que os preços cfr de fertilizantes no Brasil estão próximo das mínimas históricas.

Flavia: Muito obrigada, Kauanna.

Se você quiser saber mais sobre os impactos da pandemia no mercado global de commodities, acesse nosso microsite dedicado ao assunto em www.argusmedia.com/coronavirus. Voltaremos em breve com mais uma edição do ‘Falando de Mercado’. Até logo!

 

Comments

Deixe uma resposta

Required
Insira o seu nome
O nome não está correto (apenas letras são permitidas)