Podcast | Falando de Mercado: Impactos do coronavírus nos mercados brasileiros de etanol e gasolina

Author Argus

A produção brasileira de etanol foi diretamente impactada pelas restrições de circulação impostas logo antes do início da safra de cana-de-açúcar em 1º de abril, o que trouxe ainda mais incerteza a um cenário já delicado.

Como isso se refletiu no consumo do biocombustível e da gasolina, que competem lado a lado nas bombas? Ouça nosso podcast e descubra.

No quinto episódio da série Falando de Mercado, Clayton Melo, Diretor da Argus no Brasil, e Amance Boutin, Editor de Combustíveis da Argus, discutem os efeitos da pandemia nos mercados brasileiros de etanol e gasolina.

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Transcript

Clayton: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Clayton Melo, diretor da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com Amance Boutin, editor da publicação Argus Brasil Combustíveis, sobre os impactos do coronavírus e como o mercado brasileiro de etanol está se ajustando. Bem-vindo, Amance.

Amance: Obrigado, Clayton.

Clayton: Amance, quais foram os impactos imediatos da crise do Covid-19 sobre o mercado brasileiro de etanol?

Amance: A primeira reação do setor de etanol, que acho que foi do mercado global de combustíveis como um todo, foi de estupor e de incompreensão diante de o que estava acontecendo e como isso ia impactar o mercado. Se comentou muito do duplo choque de oferta e demanda no mercado global de petróleo e de derivados quando a crise estorou, como isso era inédito e colocava o setor inteiro numa trajetória muito perigosa. Eu acho que dá para fazer um paralelo com o setor sucroenergético. Eu me arriscaria a dizer que as condições talvez tenham sido piores do lado da oferta para produtores de etanol, pois a crise provocada pela pandemia levou à paralisação do país em meados de março, sendo que o início oficial da colheita de cana-de-acúcar é o dia 1 de abril. Ora, se no caso do mercado de petróleo e de derivados você tem uma estrutura como a Opep para abrir e tentar direcionar discussões sobre cortes de produção, este tipo de mecanismos não existe para o mercado de etanol, que é um mercado totalmente livre. Vale salientar também que, ao contrário do petróleo, a cana-de-açúcar não pode ser estocada sem perder rapidamente seu teor de açúcar. Postergar o corte e aumentar a proporção de cana bisada, também afeta a produtividade.

Clayton: E como isso se traduziu em termos de preços?

Amance: Esta incapacidade de combinar corte de produção e até mesmo de estocar a matéria-prima provocou uma queda de preços sem precedente no mercado spot. Os preços caíram 40pc entre 3 de março e 2 de abril para R$1.550/m³ com impostos no pólo produtor de Ribeirão Preto. Os preços têm se recuperado para um patamar situado entre R$1.600/m³ e R$1.660/m³ desde final de abril.

Clayton: Qual foi a destruição da demanda neste intervalo?

Amance: Os dados da UNICA apontam para uma queda de 32pc das vendas das usinas para as distribuidoras no Centro-Sul na primeira quinzena de abril em relação ao mesmo período do ano passado. Do lado dos postos, a consultoria Aprix viu uma queda da demanda na ordem de 60pc no início de abril com base em uma amostra de 200 postos em 10 estados do Brasil em relação ao início de março. A demanda por etanol vem se recuperando desde então, mas os estragos foram importantes, levando o setor sucroenergético a pedir que o governo tomasse medidas para apoiar o setor.

Clayton: Que medidas o setor sucroenergético tem propostos ao governo federal para minimizar o impacto da queda da demanda e dos preços nas margens das usinas?

Amance: O setor sucroenergético pediu uma suspensão do PIS/Cofins, uma elevação de 10¢/l da Cide sobre a gasolina, uma tarifa de 15pc sobre a importação de gasolina e linhas de créditos para que o setor possa investir em armazenamento. A elevação da CIDE ou alteração de outros impostos parece ter sido descartada pelo governo federal, mas ainda é cedo para garantir que nada será feito para apoiar o setor.

Clayton: Do lado da gasolina, quais foram os impactos?

Amance: O estrago foi grande também. O número de players é mais limitado no caso da oferta de gasolina no Brasil, se tratando basicamente da Petrobras, das distribuidoras e tradings que importam e de refinarias independentes, mas o volume dessas não é muito expressivo. Fizemos uma pesquisa, e as distribuidoras com quem falamos avaliaram a destruição de demanda entre 50pc e 60pc em abril, em relação aos níveis pré-crise. A queda do consumo da gasolina e de quase todos os derivados levou o Brasil a ficar numa situação de superávit, o que levou a Petrobras a manter a taxa de ocupação de suas refinarias abaixo de 60pc em abril.

Clayton: Todos os derivados continuam com demanda em queda?

Amance: Não. Segundo a Petrobras e a ANP, a demanda por GLP no mercado doméstico (por conta do aumento da demanda por gás de cozinha provocada pelo confinamento) e de diesel marítimo no mercado de exportação deram sinais de recuperação. Em função disso, a Estatal está direcionando a retomada da produção para atender a melhoria da demanda para estes dois produtos.

Clayton: Isso impacta o mercado de gasolina?

Amance: Sim, principalmente no caso do GLP. Como o presidente da Petrobras Catello Branco explicou, a produção de GLP é atrelada à fabricação de gasolina no processo de refino. Mas isso vira um problema quando um desses dois produtos tem uma demanda em queda brutal, como é o caso da gasolina, enquanto no caso do outro, a demanda aumenta. Hoje a Petrobras vende gasolina no mercado interno a um preço muito baixo para conseguir escoar sua produção em um momento em que a concorrência com o etanol hidratado é a mais acirrada.

Clayton: E como isso tem impactado as distribuidoras e as tradings que importam gasolina?

Amance: A situação é muito complicada também para eles. Eles concorrem com um produto doméstico com preço muito baixo, a demanda é muito fraca. Tem um outro fator que piora o quadro, que é a mudança de especificação para a gasolina que começa a vigorar em 3 de agosto. Esta mudança de especificação, que prevê um índice de octanagem RON de 92 e uma massa específica de 725g/l a uma temperatura de 20ºC, traz incertezas para importadoras em um momento conturbado.

Clayton: Que tipo de incertezas? Não impactaria a Petrobras também?

Amance: Incertezas em termos de preços para este diferencial de qualidade. Hoje o sentimento entre importadoras é que esta mudança traga um aumento entre 2¢ e 5¢ por galão norte-americano no preço de compra com refinarias estrangeiras. Isto é uma previsão e não se sabe se vai se concretizar, então gera incertezas e insegurança, que nunca são positivas para quem atua no mercado. Do lado da Petrobras, a estatal sempre apoiou a nova especificação pois diz que a mudança não impactaria seu preço de venda porque a gasolina que ela produz já atende em grande parte a nova especificação, particularmente em termos de densidade de produto (a massa específica).

Clayton: Muito obrigado, Amance.

Se você quiser saber mais sobre os impactos da pandemia no mercado global de commodities, acesse nosso microsite dedicado ao assunto em www.argusmedia.com/coronavirus. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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