Falando de Mercado: Os altos e baixos na safra de cana-de-açúcar 20-21

Author Argus

O mercado de etanol do Centro-Sul brasileiro viveu sua própria montanha-russa em 2020, oscilando entre bruscas quedas e crescente otimismo.

Como isso se traduziu nos preços do biocombustível ao longo da temporada e quais as perspectivas para o período de entressafra?

No episódio desta semana da série Falando de Mercado, Camila Dias, Chefe de Redação da Argus no Brasil, e Pedro Cirne, Subeditor do relatório Argus Brasil Combustíveis fazem um balanço da safra de etanol do Centro-Sul.

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Transcript

Camila Dias: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, e eu sou chefe de redação da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com Pedro Cirne, subeditor da publicação Argus Brasil Combustíveis, sobre o período de entressafra de cana-de-açúcar no Centro-Sul do país. Bem-vindo, Pedro.

Pedro Cirne: Obrigado, Camila.

CD: Pedro, você conversou com diversos participantes do mercado de etanol para fazer um balanço sobre o setor de cana-de-açúcar neste conturbado ano de 2020. Em um ano de pandemia de Covid-19, tenho certeza de que eles tiveram muitas coisas para colocar na balança.

PC: Camila, é isso mesmo. Não dá para fazermos qualquer balanço de 2020 sem falarmos de Covid, não é? E é curioso porque, no mercado da cana-de-açúcar, há dois momentos bem distintos.

O primeiro momento foi o início do isolamento social, lá entre março e abril. Tentar prever qualquer coisa era muito arriscado. Quando sai a vacina? Até quando fica o isolamento social? Imagine então para quem tinha de prever os próximos meses para seus negócios.

O que aconteceu, então, foram perspectivas bem pessimistas, claro. Porque, usando uma ––metáfora futebolística, era preferível jogar na defesa. Ia ser difícil marcar gol, então o preferível era recuar o time para evitar que se tomassem gols. Aí as previsões foram todas conservadoras, para dizer o mínimo.

CD: E essas previsões pessimistas se confirmaram?

PC: Uma pessoa que eu entrevistei me disse algo bem interessante: “A cana é trágica: se você já tinha plantado, não tinha outra alternativa a não ser colher e processar, mesmo diante da incerteza.” Ou seja, não se tinha muita opção. E, de fato, vendeu-se menos. Nas primeiras semanas após as medidas de isolamento, as vendas de etanol caíram mais de 65pc. Mas se você pegar o período todo desde o início da safra, em 1º de abril, até hoje, as vendas domésticas de etanol hidratado no Centro-Sul diminuíram 15pc, de acordo com dados divulgados pela Unica no final de outubro.

Ou seja, as vendas caíram, mas não tanto quanto se temia e iniciaram um processo de recuperação antes do esperado também. Por outro lado, os preços subiram. E ajudaram a compensar as perdas. As previsões, feitas em um cenário tão compreensivelmente pessimista, não se confirmaram. Parecia que ia ser muito ruim, mas foi só ruim e já está em recuperação. É curioso dizer isso, mas todos que eu entrevistei usaram a palavra “otimismo”.

Uma outra frase que ouvi resume bem esse cenário: “O planejamento foi feito sobre premissas pessimistas, e hoje o setor sucroacroleiro está nadando de braçadas. E isso é bom porque agora estamos podendo vislumbrar resultados melhores.”

CD: E a segunda onda de Covid – caso ela aconteça aqui como estamos vendo em países da Europa e em algumas regiões nos Estados Unidos - não tende a frear um pouco esse otimismo?

PC: A segunda onda de Covid tende a frear qualquer otimismo! Sabe a expressão “confiar desconfiando”? Os produtores são otimistas com um pé no pessimismo. Muita coisa pode acontecer. Por exemplo, caso a intensidade do contágio aumente, pode ser que sejam implementadas novas restrições à circulação, o que teria impacto direto sobre a demanda por combustíveis.

E há os fatores extra-Covid. Um clima muito seco no início da plantação pode resultar em menos cana na hora da colheita. E há até o risco de haver tanto otimismo que ele atrapalhe. Ou seja, os preços podem subir demais, a ponto de atrapalharem os negócios. Isso, claro, interromperia a recuperação.

CD: Pedro, e esse otimismo se reflete nas previsões para a entressafra?

PC: Sem dúvida, Camila. Os produtores estão fixando valores ainda mais altos para o açúcar do que os da última safra coletada. Eles não apresentaram valores para o preço do açúcar, ainda, mas a tendência é essa.

CD: Esses preços mais altos já fizeram com que o açúcar tivesse uma participação maior no mix de produção da safra atual no Centro-Sul do que em temporadas anteriores, né, Pedro?

PC: Exatamente, Camila. Segundo os dados mais recentes da Unica, que é a União da Indústria de Cana-de-Açúcar, as usinas do Centro-Sul destinaram quase 47% da cana para a produção de açúcar na safra atual. Na safra anterior, foram 35% apenas.

CD: E o que eles estimam para os estoques de etanol da entressafra, Pedro?

PC: A entressafra da cana-de-açúcar terá estoque menor que a anterior, Camila. Estima-se que os estoques de passagem de etanol hidratado fiquem entre 750.000m³ e 1 milhão de m³ para a próxima entressafra. Isso é menos do que na entressafra anterior, que ficou em 1,1 milhão de m³, segundo o Ministério da Agricultura.

As previsões para os estoques de álcool anidro também apontam números menores. Os estoques devem ficar entre 400.000 e 750.000m³ para a próxima entressafra. No início de abril deste ano, o estoque estava em 892.000m³.

Lembrando, Camila, que a entressafra no Centro-Sul não tem um período bem delimitado, ela pode variar de usina para usina, mas, em geral, estamos falando do primeiro trimestre de cada ano.

CD: Muito obrigada, Pedro.

Este e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do Falando de Mercado. Até logo!

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