Falando de Mercado: Perspectivas para um novo modelo de comercialização de biodiesel no Brasil

Author Argus

O modelo brasileiro de comercialização de biodiesel por meio de leilões públicos começa a apresentar sinais de desgaste e, apesar da redução no percentual de mescla obrigatória, incertezas acerca do abastecimento colocam este mecanismo em cheque.

Qual a visão dos atores deste mercado e quais as perspectivas para mudança deste modelo?

No episódio desta semana da série Falando de Mercado, Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, conversa com Gabrielle Moreira, repórter de combustíveis, sobre as perspectivas para um novo modelo de comercialização de biodiesel no Brasil.

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Falando de mercado: Os impasses nos leilões de biodiesel e perspectiva de um novo modelo de comercialização

Camila Dias - Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, e eu sou chefe de redação da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com Gabrielle Moreira, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis, sobre o imbróglio do último leilão de biodiesel e as possíveis revisões no modelo de venda do biocombustível no país. Bem-vinda, Gabrielle.

Gabrielle Moreira – Obrigada, Camila.

CD – Gabrielle, o septuagésimo quinto leilão de biodiesel começou na primeira semana de agosto e se estendeu por mais de 20 dias, em um processo marcado por muitas controvérsias que teriam sido geradas, em princípio, por uma demanda acima da capacidade de oferta. Qual foi o principal problema do último leilão?

GM – Camila, normalmente, o leilão acontece dentro de uma semana. Mas em agosto ele foi supenso duas vezes em um cenário de oferta limitada de produto no mercado doméstico. Na primeira vez, no dia 6 de agosto, a ANP informou que a suspensão ocorreu por problemas técnicos no sistema de operação, o que levou ao cancelamento de parte do leilão e dos cerca de 1 milhão e 200 mil metros cúbicos já tinham sido comercializados.

A retomada desse leilão foi programada para o dia 18, mas também foi suspensa. A Aprobio, que é a Associação dos Produtores de Biocombustíveis, entrou com uma ação na justiça pedindo que o cancelamento anterior fosse anulado. A Justiça Federal primeiro acatou o pedido, mas dias depois reverteu essa decisão e acabou liberando a ANP para a retomada do leilão. Nesse meio tempo, o Ministério de Minas e Energia reduziu o percentual mínimo de mistura obrigatória, que estava em 12pc, para 10pc nos meses de setembro e outubro, decisão que pegou os produtores de surpresa.

As negociações foram então retomadas no dia 24. E, além da menor oferta de produto neste leilão, eu tenho escutado distribuidores reclamando dos altos preços do biodiesel. Alguns distribuidores me disseram que estão se mobilizando para garantir volumes até maiores do que o inicialmente previsto, mesmo com a redução do percentual mínimo obrigatório, por causa das incertezas geradas nos últimos leilões.

CD - Mas o volume de biodiesel disponível no mercado é mesmo menor que a demanda para cumprir a mistura obrigatória?

GM – Difícil dizer, Camila. Conversei com associações de produtores algumas vezes nos últimos meses e o que ouvi repetidamente foi que havia produto suficiente para atender à demanda, considerando a mescla de 12pc e até percentuais mais elevados.

Mas é importante lembrar que desde abril o preço do óleo de soja, que é a principal matéria-prima para a produção de biodiesel no Brasil, subiu 85pc, o que torna o biocombustível mais caro. Lá atrás, no início das medidas de isolamento por causa da Covid-19, também ficou definido que os volumes obrigatórios de retiradas de biodiesel pelas distribuidoras entre maio e junho poderiam ser reduzidos de 95pc para 80pc. De alguma forma, isso prejudicou os produtores.

CD – Esse leilão de agosto não foi o primeiro com problemas de abastecimento então, certo?

GM – Não. Em abril tivemos um problema parecido, causado por essa diminuição nos volumes de retirada que comentei, mas um pouco menos problemático que o de agosto. Em junho, foi necessária a realização de um leilão suplementar.

A verdade é que o anúncio da saída da Petrobras do segmento de biocombustíveis e, consequentemente, da organização dos leilões, foi o gatilho para mudanças no setor de biodiesel no Brasil. A pandemia e os problemas recentes nos últimos leilões só anteciparam uma discussão que teria que acontecer mais cedo ou mais tarde.

CD – O como o setor tem encarado essa possível mudança no modelo de comercialização de biodiesel?

GM – Depende do ponto de vista.... é natural que produtores e distribuidores pensem de forma diferente sobre esse assunto. Entendo que no lado da produção, os leilões trazem previsibilidade. E é verdade que esse modelo funcionou durante muito tempo. Já no lado dos compradores, e inclusive da Abicom, que é a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis, tenho ouvido muito sobre a maturidade do mercado brasileiro para evoluir para um sistema de livre comércio. Para eles, o mercado de combustíveis no Brasil já é maduro suficiente para que haja essa mudança.

A revisão desse tipo de prática, uma mudança no sistema de leilão, já foi declaradamente apoiada pelo Ministério de Minas e Energia, com o próprio ministro Bento Albuquerque endossando a ideia em um evento de produtores. É um sinal muito forte e possivelmente o mercado caminhe para essa abertura.

CD – Mas mesmo sem o modelo de leilão, Gabrielle, será que hoje teríamos produto suficiente para abastecer o mercado? O câmbio impulsionou muito as exportações de soja e do óleo de soja neste ano, e isso acabou limitando também a oferta dessa matéria-prima para a produção de biodiesel. E o óleo de soja é a principal matéria-prima para a produção de biodiesel no Brasil.

GM – Possivelmente, sim. Dados recentes da Aprobio mostram uma capacidade produtiva de quase 1milhão e 600 mil metros cúbicos, enquanto a demanda média nos leilões foi entre 1 milhão e 300 mil, 1 milhão 350 mil metros cúbicos. Mas não podemos desconsiderar as variáveis de câmbio, oportunidades no mercado de exportação, safras aquém do esperado, etc. Tudo isso entra na conta do produtor e pode, sim, afetar a oferta de biodiesel.

E nesse ponto, sei que a Abicom já está trabalhando para a liberação das importações de biodiesel, algo que atualmente é proibido por lei. Em uma conversa recente que tive com o presidente da Abicom, Sergio Araujo, soube que o pedido já foi protocolado no Ministério de Minas e Energia. Eles pedem a liberação para importações de B100 e do diesel já mesclado com o percentual mínimo obrigatório. É um assunto delicado, mexe com uma ampla cadeia produtiva e trata-se de uma grande mudança para este mercado. Mas com os sinais que temos observado do governo, pela pressão dos distribuidores e depois desses imbróglios nos últimos leilões, há espaço para mudanças. Mas esse processo de transição deve ser feito com muita cautela.

CD – Muito obrigada, Gabrielle.

Este e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do Falando de Mercado. Até logo!

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