Falando de Mercado: A reinjeção de gás natural no Brasil e o que a ANP está preparando sobre o tema

Author Argus

O Brasil aproveita pouco mais da metade do gás natural que produz. Isso devido à reinjeção desse gás. O assunto divide produtores e consumidores e agora se tornou um tema de atenção da ANP, agência reguladora do setor.

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Flávia Pierry, Editora de Gás Natural e Energia, que conversam sobre o que a ANP planeja fazer para tentar equalizar o assunto, aumentando a oferta de gás aos consumidores sem comprometer os compromissos das petroleiras.

Quer ficar por dentro de tudo que acontece no mercado de gás natural e eletricidade?


Transcript

[Camila] Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou chefe de redação da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Flávia Pierry, editora de Gás Natural e Energia, falando sobre a oferta de gás natural produzido no Brasil e por que ela não tem aumentado para atender a demanda, a questão da reinjeção do gás e possíveis medidas em análise pelo órgão regulador de óleo e gás no Brasil para reduzir a reinjeção. Seja bem-vinda, Flávia.

[Flávia] Obrigada, Camila.

[Camila] Flávia, temos visto o mercado brasileiro de gás natural demandando mais gás, e a indústria petroleira sem conseguir expandir sua oferta. Por que isso ocorre e quais são as justificativas do setor petroleiro?

[Flávia] Camila, os elos da cadeia de gás natural no Brasil têm visões uníssonas em diversos aspectos, trazendo consumidor e produtor juntos em diversas demandas. Exemplo disso são os esforços para a abertura do mercado, trazendo mais competição, a necessidade de atualizações das regulações.... apenas para citar alguns pontos. Mas quando o assunto é a oferta de gás natural ao consumidor brasileiro, do gás retirado de campos petrolíferos em solo brasileiro, os produtores de óleo e gás e os consumidores ficam em lados opostos. Vou explicar melhor:

Nossa produção de gás natural em terra e em mar no Brasil tem um volume de mais ou menos 130 milhões de metros cúbicos ao dia. Parece bastante, e a demanda interna chega perto dos 100 milhões de metros cúbicos em agosto, porque a seca no Brasil demandou mais geração térmica, e portanto mais gás natural.

Parece ótimo, não? Nossa oferta interna de gás seria superavitária em cerca de 30mn m³/d!

Porém, porém, não aproveitamos todo esse gás produzido no Brasil. Na verdade, mais de 40 porcento desse gás não chega aos consumidores, sendo REINJETADO nos poços de petróleo e gás!

[Camila] E por que essa reinjeção acontece, Flávia?

[Flávia] Essa é uma pergunta fundamental, Camila, onde começam a se separar os consumidores de gás e a indústria petroleira, para responde-la.

Sim, de fato a produção de gás realmente necessita desse processo de reinjeção. Primeiramente, porque junto com o gás e com o petróleo extraído dos campos, também são retirados CO2 e outros gases. Água também é processada na extração do petroleo e do gás e é reinjetada. E ainda, a reinjeção desses supostos rejeitos é necessária para evitar a queima do gás, o que causaria mais poluição.

Esses são chamados “aspectos técnicos” da reinjeção. São esperados sim, normais, e acontecem no mundo todo. Mas há uma cota da reinjeção que se dá por decisões empresarias das petroleiras e por compromissos que elas tem em atingir metas de produção de petróleo.

Um aspecto muito importante desse debate é o fato de que no Brasil, praticamente não há campo de produção apenas de gás. Mais de 90 porcento da produção de gás ocorre junto com a produção do petróleo.

[Camila] E como isso influencia a decisão das petroleiras sobre a reinjeção de gás?

[Flávia] Como o petróleo ainda é muito mais valioso no mercado internacional de commodities, encontrando compradores ao redor do globo, e o gás ainda é um mercado mais localizado e altamente dependente de estruturas de escoamento – como gasodutos, a produção de petróleo é a queridinha das petroleiras, enquanto o gás natural costumava ser o “patinho feio”, principalmente em países como o Brasil, onde não precisamos de calefação e o consumo do gás é mais concentrado às necessidades industriais.

E acontece, Camila, é que a injeção do gás de volta ao poço ajuda a fazer pressão para empurrar mais óleo para fora, aumentando a produção de petróleo.

E em momentos como o atual, quando o petróleo está com preços em alta nos mercados mundiais, a possibilidade de produzir e vender mais petróleo faz os olhos dos petroleiros brilharem mais intensamente.

Outros aspectos que influenciam nessa decisão, Camila, é a restrição de infraestrutura para escoamento do gás. E esse ponto é levantado pelos produtores de gás para justificar parte dos grandes volumes reinjetados. A atual capacidade instalada de gasodutos de escoamento do gás do pré-sal para a terra está em consumida e os investimentos para a expansão são vultuosos.

E aí, de novo: chegamos ao dilema do ovo e da galinha, que já comentamos em outro podcast, o que tratávamos sobre a necessidade dos consumidores âncora, Camila. Os produtores de gás não escoam o gás porque não tem infraestrutura, mas não se constrói a infraestrutura pois há dúvida se a injeção de mais gás no mercado consumidor encontraria demanda – ou se os preços iriam desabar com excesso de oferta.

[Camila] Flávia, ficou claro o que é a reinjeção e por que ela ocorre. Mas fato é que sem a expansão da oferta de gás natural, o Brasil não está conseguindo ser autossuficiente nesse combustível. Depois da reinjeção, consumo nas plataformas e perdas, a indústria petroleira brasileira entregou ao mercado consumidor cerca de 60 milhões de metros cúbicos ao dia – que são insuficientes para atender à demanda de 100 milhões de metros cúbicos ao dia. Estamos importando gás, com altos custos...

[Flávia] Exatamente, Camila. Estamos dependendo de GNL, gás natural liquefeito, que chega de navio nos terminais na costa brasileira. E os preços desse gás estão altos no mercado mundial, como já falamos em outro podcast, quando comentamos atrasos na expansão da oferta mundial de gás, questões climáticas, pressão por redução do consumo do carvão na Ásia – que demandou mais uso de gás para térmicas...

O mercado brasileiro consumidor de gás natural está preocupado em depender de GNL, que chega com preços até quatro vezes maior do que o gás que era vendido pela Petrobras antes da abertura do mercado.

Por tudo isso, a reinjeção de mais de 40 porcento do gás natural vem recebendo fortes críticas.

A ponto de o assunto ter chegado aos altos escalões do governo federal e de ter chamado atenção da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a ANP.

A diretoria da Agência está estudando como pode incentivar as petroleiras a reduzir os níveis de reinjeção.

Obviamente, a ANP tem limites em como pode atacar o assunto sem ferir os compromissos e estratégias das empresas, que, como concessionárias, têm suas expectativas de receitas aprovadas por seus acionistas.

Porém, temos a informação de que a ANP pretende criar mais controles para avaliar se as petroleiras estão mantendo os atuais níveis de reinjeção dentro de motivos técnicos, ou se a estratégia comercial para conseguir aumentar a produtividade do petróleo é o que está pesando mais.

A ANP também quer averiguar se as condições de mercado alegadas pelos petroleiros como empecilhos para escoar mais gás ao mercado ainda se mantêm, mesmo com as novas regras para o mercado de gás natural, a partir da nova lei do gás.

Por exemplo: as petroleiras que não a Petrobras poderiam alegar até 2021 que não tinham como tratar seu gás em unidades de processamento, já que elas pertenciam a Petrobras e a estatal não concedia acesso a terceiros. Mas agora, com a nova lei, o acesso é garantido por lei, mediante cobrança pelo serviço, e as petroleiras podem sim processar gás. O mesmo vale para o uso de gasotudos, por exemplo.

Por fim: a ANP também já avisou que as regras de estocagem de gás natural podem ser alteradas. Ainda é preciso acertar muitas coisas na regulação para que a estocagem de gás seja uma realidade no Brasil. Mas de fato: se a estocagem foi um elo existente da indústria do gás no Brasil, assim como é em outros países, ao invés de injetar podemos passar a ver as petroleiras interessadas em estocar seu gás para poder vender ao mercado livre de curto prazo, aproveitando variações do preço da energia elétrica, como o que vimos em 2021.

[Camila] Em momentos de escassez de gás natural, quem tiver esse combustível para ofertar ao mercado terá oportunidades de negócios. E assim, podemos reduzir nossa dependência de gás natural liquefeito, que compete com mercados internacionais e que chega ao Brasil com preços altos.

[Flávia] Como dizem no mercado de gás, Camila: Para termos um novo mercado de gás, é preciso ter gás novo. Ou seja, precisamos expandir nossa oferta doméstica para além dos cerca de 60 mn m³/d de oferta interna já consolidada. Mais gás pode criar novos mercados, novos consumidores, e criar novas oportunidades de negócios.

E é por isso que a Argus está posicionada para ajudar todos esses elos da cadeia em suas decisões de negócios, com nossa publicação Argus Brazil Gas and Power, com seus preços calculados de gás e combustíveis equivalentes, informações sobre a regulação do setor, análises, dados estatísticos do setor e comentários sobre a relação com o setor de energia elétrica.

[Camila] Obrigada, Flávia. Estaremos acompanhando os desdobramentos desse tema e as próximas decisões da ANP sobre o tema. Aguardamos novidades.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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