Falando de Mercado: Quais as tendências para a produção de café do Brasil?

Author Argus

Os preços do café atingiram níveis recordes em 2021 sob a influência da quebra de safra o Brasil, que foi bastante afetada pelo clima. Será que existe alguma chance de recuperar a produção na safra 2022-23?

E a alta no preço dos fertilizantes também pode afetar a cafeicultura? A resposta para estas e outras perguntas você confere em mais um episódio do podcast Falando de Mercado. A editora de agricultura e fertilizantes da Argus no Brasil, Flavia Bohone, e a editora assistente de agricultura e fertilizantes, Alessandra Mello, conversam sobre as previsões mais recentes para o setor do café.

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Transcript

FB: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Flavia Bohone, editora de agricultura e fertilizantes da Argus Media no Brasil. No episódio de hoje eu converso com a jornalista Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes sobre as previsões para o setor do café no Brasil, cultura que vem sendo bastante afetada pelo clima. Alessandra, bem-vinda.

AM: Obrigada, Flavia, sempre um prazer participar do Falando de Mercado.

FB: Alessandra, ao longo de 2021 nós vimos que o clima prejudicou bastante a cultura do café. No próximo ano a situação também pode ser grave?

AM: Infelizmente sim, Flavia. A produção de café do Brasil pode ter o ciclo positivo mais baixo dos últimos cinco anos na safra 2022-23, em função dos problemas climáticos. Vou explicar esta questão do ciclo positivo. O café é uma cultura caracterizada pela bienalidade, quer dizer, alterna ciclos de alta e baixa produtividade. Em um ano, a safra produz um grande número de frutos, e acaba demandando mais nutrientes das plantas. No ano seguinte, a planta precisa recompor as suas reservas, por isso acaba reduzindo a produtividade.

FB: Certo, e a safra atual é de ciclo positivo ou negativo?

AM: Bom, neste momento nós estamos em plena safra 2021-22, que é um ciclo negativo. E já tivemos perdas com o clima como você mencionou no inicio da nossa conversa. As regiões produtoras de café do Brasil enfrentaram dois períodos de seca nos últimos doze meses e duas geadas consideradas as piores já vistas nas plantações de café desde a década de 1990. Por este motivo, a safra total de café 2021-22, que inclui tanto o café arábica quanto o café robusta, deve alcançar aproximadamente 46,9 milhões de sacas. A última safra de bienalidade negativa foi em 2019, quando a produção foi de 49,3 milhões de sacas, volume maior que o registrado neste ano. Quer dizer, houve uma quebra de mais de dois milhões e meio de sacas de café.

FB: E para o próximo ciclo, pode haver quebra de novo?

AM: Tudo indica que sim, infelizmente. O café é uma safra perene, por isso o estresse hídrico nas plantas que ocorreu este ano costuma limitar a produtividade do ciclo seguinte também. E as previsões não estão nada otimistas. Vamos falar do café arábica, que é o mais plantado no mundo inteiro, usado na produção de cafés de melhor qualidade, e representa 75pc da produção brasileira. A safra do café arábica em 2022-23 tem uma produção esperada de 42 milhões de sacas, a mesma quantidade colhida em 2016, de acordo com a estimativa mais recente feita pelo banco de investimentos Rabobank. Quer dizer, é possível que haja um retrocesso de cinco anos na produção brasileira de café. A temporada 2022-23 é uma safra positiva, sendo, portanto, comparada ao último ciclo de alta produção, que foi em 2020-21, quando o Brasil produziu 53 milhões de sacas de café arábica. Resultado, 11 milhões de sacas a menos de um ciclo positivo pra outro.

FB: E esta situação já deve estar influenciando fortemente os preços, sem dúvida...

AM: Com certeza, Flavia. As incertezas sobre a produção brasileira estão entre os fatores que têm contribuído e muito para o aumento nos preços do café, que atingiram, em reais, os maiores valores da história ao longo deste ano. A média para o mês de novembro de 2021, por exemplo, foi de R$1344 por saca de 60kg, enquanto o valor um ano antes era de R$565, um aumento de 138pc. Neste mesmo período, o preço do café na Bolsa de Nova York (NYBOT), que é cotado dólares, aumentou 98pc.

FB: E os órgãos oficiais, como a Conab, também estão prevendo esta quebra de safra em 2022-23?

AM: Por enquanto ainda não temos a previsão oficial da Conab, que faz um levantamento trimestral, mas até dezembro costuma focar no ano em vigor, no caso a safra 2021-22 e seus prejuízos com o clima. Mas é muito provável que no primeiro levantamento que for divulgado no inicio do ano que vem a Conab também traga este alerta em relação ao café. Isso porque eu conversei por exemplo com o Lucio Dias, um dos diretores da Cooxupé, que é a maior cooperativa de café do Brasil, ele disse que há previsões de uma safra de arábica até abaixo de 40 milhões de toneladas, lembrando que há pouco eu citei que 42 milhões seria o nível de 2016. É que as perdas podem ser ainda mais significativa caso o La Niña volte a provocar períodos de estiagem nas regiões produtoras de café, que estão na zona de transição entre o sul e o norte do país, onde é ainda mais difícil prever o comportamento desses fenômenos climáticos.

Outro fator que pode influenciar a produção é a decisão por parte dos agricultores de podar os cafezais. Quando as plantas são fortemente afetadas pelo clima, muitos optam por fazer esta poda, interrompendo a produção no curto prazo, porém garantindo uma melhor colheita no próximo ano. No entanto, ainda não há informações sobre quantos produtores optaram por adotar esta prática. Dados relativos ao que está acontecendo nas plantações neste aspecto, também só devem ser divulgados pela Conab na primeira metade de 2022.

Por último, só queria comentar, Flavia, que eu perguntei ao Lucio da Cooxupé sobre a alta nos preços dos fertilizantes e um possível impacto na produção de café. Ele acredita que por agora não é um problema, pois a maioria dos insumos já foi comprada. Porém, ressaltou que a rentabilidade tem caído muito para os produtores. Por isso no ciclo 2022-23, além do clima, o menor uso de tecnologia provocado pelo alto custo dos insumos também pode contribuir sim para uma queda na produção. Vamos ver como se comporta o mercado nos próximos meses.

FB: Muito obrigada, Alessandra.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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