Falando de Mercado: Tendências para os fretes de grãos do Brasil em 2022

Author Argus

Após diversos problemas enfrentados na safra 2020-21, os fretes de grãos tiveram uma trajetória irregular ao longo deste ano. Agora, com a expectativa de uma próxima safra recorde, sobretudo de soja, qual deve ser a tendência da demanda pelo serviço de transporte de grãos em 2022?

E quais os principais projetos de infraestrutura que devem sair do papel para ferrovias, rodovias e portos? Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e João Petrini, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Eles conversam sobre as previsões para o setor de logística em 2022.

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Frete rodoviário para transporte de grãos


Transcript

CD: Olá e bem-vindos ao Falando de Mercado – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, eu sou chefe de redação da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com João Petrini, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre as perspectivas para os fretes de grãos em 2022, com a expectativa de uma safra recorde de soja.

Bem-vindo, João.

JP: Obrigado, Camila. É um prazer estar aqui.

CD: João, o que podemos esperar para o ano que vem para os fretes de grãos, sobretudo após os diversos problemas enfrentados em 2020-21?

JP: Para o ano que vem, os fretes de grãos no estado de Mato Grosso, maior estado produtor do Brasil, devem atingir o pico de demanda logo em janeiro, além de se manterem com altos valores por um maior período de tempo. Há grande otimismo com a próxima safra de soja, que deve ser recorde.

A área plantada deve totalizar 10,86 milhões de hectares em Mato Grosso, aumento de 3,7%, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea). Já a produção de soja para 2021-22 é estimada em 38 milhões de toneladas, 5,8% acima do previsto na safra anterior, um volume que seria o maior da história do estado.

CD: Você mencionou que a demanda pelo serviço de transporte deve atingir o pico já em janeiro. Qual o motivo?

JP: Então, Camila, as boas condições climáticas neste ciclo contribuíram para um plantio precoce da soja, o que consequentemente deve resultar na colheita mais adiantada da história de Mato Grosso. Normalmente, a colheita da oleaginosa em Mato Grosso acontece entre janeiro e abril, mas com a demanda atingindo seu auge em meados de fevereiro, já que no primeiro mês do ano, os volumes colhidos costumam são menores.

Porém, como o plantio para a safra de soja 2021-22 aconteceu mais cedo, a colheita também será realizada de maneira adiantada. Inclusive, participantes do mercado esperam que a colheita de janeiro seja quatro vezes maior do que a colheita de janeiro de 2021. Com isso, fretes de grãos deverão atingir níveis mais altos logo no primeiro mês de 2022.

CD: Certo, João. E além dessa particularidade da próxima safra de soja, existe algum outro elemento que pode contribuir para fretes de grãos mais caros em 2022?

JP: Existe sim, Camila. Um deles é a maior concorrência por caminhões, principalmente na região centro-oeste. Com uma produção recorde, a expectativa é que o fluxo de oleaginosa ocorra por um maior período de tempo, abrindo possibilidade de competição por veículos entre estados produtores, como Goiás e Mato Grosso do Sul, e também com o transporte de milho segunda safra, que é plantado mais tarde na mesma área da soja, na segunda metade de 2022.

Além disso, o custo de manutenção dos veículos, de insumos automotivos, como peças e pneus, e do diesel, também deve provocar tarifas mais altas de frete de grãos em comparação com os anos anteriores. Participantes do mercado também monitoram a possibilidade de greves de caminhoneiros em caso de novos aumentos nestes custos. Inclusive, ao longo de 2021, vimos várias tentativas de paralisação, mas nenhuma foi muito bem sucedida.

CD: Interessante, João. E qual o saldo final dos fretes de grãos em 2021, diante de todas as dificuldades enfrentadas?

JP: A temporada 2020-21 como um todo foi prejudicada por problemas climáticos. A safra de soja sofreu com o tempo seco, o que atrasou o plantio e causou uma colheita tardia. Isto também afetou a segunda safra de milho, que acabou se desenvolvendo em uma janela desfavorável e teve redução significativa na produção.

Dessa forma, os fretes de grãos tiveram tendência irregular neste ano, segundo monitoramento das nossas rotas. Hoje, a Argus acompanha semanalmente nove rotas de grãos com origem em Mato Grosso. Os destinos destas rotas são o ponto de transbordo para hidrovia, em Miritituba, no Arco Norte; o terminal ferroviário de Rondonópolis; o terminal ferroviário de Palmeirante, no estado do Tocantins; e diretamente para os portos de Santos e Paranaguá.

Apesar de toda essa irregularidade, os fretes de grãos chegam em dezembro de 2021 com preços médios até 50% mais altos do que no mesmo período em 2020. A rota Sorriso-Rondonópolis atingiu um preço médio de R$125 por tonelada, com um aumento de 42% na comparação anual. O trecho Sorriso-Miritituba alcançou a R$210 por tonelada, alta 50%.

O otimismo com a próxima safra de soja também contribuiu para a alta nos fretes na reta final do ano. Com a expectativa de safra recorde, houve maior necessidade pelo serviço de transporte, para escoar volumes de milho e soja remanescentes, abrindo espaço nos armazéns para a safra de soja 2021-22.

CD: E no setor de infraestrutura, João, quais os projetos mais relevantes esperados para 2022 no Brasil?

JP: Bom, Camila, vamos começar pela parte portuária. No ano que vem, quatro contratos de concessão deverão ser assinados até o quarto trimestre para terminais de movimentação e armazenagem, sendo três no porto de Paranaguá, na região sul, e um no porto de Santos, na região Sudeste.

Planos para o arrendamento do porto de Santana, no Amapá, também avançaram, com a assinatura de um contrato de 25 anos pelo grupo Caramuru. O investimento deve reduzir custos de transporte, sendo mais uma opção de exportação no norte do país.

CD: E em rodovias, o que está no radar do mercado?

JP: É esperada a assinatura do contrato de concessão para a rodovia BR-163, referente ao trecho que vai de Sinop, em Mato Grosso, até Miritituba, no Pará. A rodovia tem 1.010 quilômetros de extensão e integra o centro-oeste com o norte do Brasil.

Outro projeto de concessão é o da rodovia BR-364, que liga Comodoro, no Mato Grosso, até Porto Velho, em Rondônia. O projeto visa evitar que a área se torne um gargalo com a expansão do grande agronegócio, reduzindo os custos e o tempo de viagem entre as duas áreas.

Há também a intenção do estado de São Paulo renovar 745 quilometros de estradas ao longo do próximo ano. Os trabalhos começaram em dezembro de 2021 e devem ser concluídos em 2022, visando facilitar o transporte de produtos agrícolas regionais.

CD: Perfeito, João. E em relação às ferrovias, um modal tão desejado no país, até pelas dimensões do Brasil, e com tanto potencial de crescimento, quais os principais projetos?

JP: Um deles é a Ferrograo, com fases de licitação e contratação previstas para o primeiro semestre de 2022. Ela ligará a região centro-oeste ao porto de Miritituba, sendo uma opção para escoar uma parte do volume transportado ao longo do corredor rodoviário da BR-163.

Há também a construção da ferrovia de integração centro-oeste, a Fico, iniciada em setembro em Mato Grosso. Ela irá conectar a ferrovia Norte-Sul, que se estende até o porto do Itaqui, no Maranhão, e Santos, em São Paulo. Uma vez concluídas, estas novas rotas de transporte facilitarão o fluxo de grãos e oleaginosas aos portos de norte a sul, reduzindo os custos logísticos.

Também podemos destacar a Nova Ferroeste, que planeja conectar Mato Grosso do Sul aos portos do Paraná, e aguarda avaliação ambiental. Além disso, há também a iminente aprovação do novo marco legal das ferrovias, cujo objetivo é modernizar o setor.

A principal mudança na lei é a possibilidade de ferrovias serem repassada para a iniciativa privada em um modelo de autorização, que possui menos intervenção estatal do que a concessão e passa todo o risco de construção, planejamento e operação para as empresas interessadas.

CD: Muito obrigada, João. Vamos acompanhar se todos esses projetos conseguem ser viabilizados para melhorar a infraestrutura do país e, assim, melhorar o escoamento da nossa produção.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!