Falando de Mercado: Perspectivas para o mercado brasileiro de milho em 2021

Author Argus

O Brasil registrou nova safra recorde de milho em 2020, período em que os preços internos do grão também atingiram máximas históricas. O que esperar deste mercado em 2021 e qual a perspectiva para os agricultores que atuam nas principais regiões produtoras do país?

No episódio desta semana da série Falando de Mercado, Camila Dias, Chefe de Redação da Argus no Brasil, e José Roberto Gomes, repórter de agricultura e fertilizantes, conversam sobre o mercado brasileiro de milho e as perspectivas para a próxima safra doméstica do grão.


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Transcript

CD: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com José Roberto Gomes, repórter de Agricultura e Fertilizantes da Argus. Nós vamos falar sobre o mercado de milho e as perspectivas para próxima safra. Bem-vindo, José.

JR: Olá novamente, Camila, obrigado!

CD: José, antes de falarmos de 2021, seria importante darmos um panorama de como foi 2020 para o mercado de milho brasileiro.

JR: Sem dúvida, Camila. Bom, o Brasil produziu um recorde de mais de 100 milhões de toneladas de milho em 2020 – pouco mais de 102 milhões de toneladas, para ser mais exato. E isso mesmo após problemas com a safra do Rio Grande do Sul, que foi prejudicada pela seca entre o fim de 2019 e início de 2020.

Em todo o país, a área plantada alcançou mais de 18 milhões de hectares, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab. E só lembrando que os principais estados produtores são Mato Grosso e Paraná, que cultivam o milho sobretudo na segunda safra, após a colheita de soja. É a chamada safrinha, que responde por cerca de três quartos de toda a produção nacional.

Mas, olha, toda essa safra não foi capaz de segurar os preços internos do milho. As cotações atingiram níveis recordes em 2020. Mais de 60 reais por saca em Mato Grosso, mais de 80 reais por saca no estado de São Paulo. Enfim, valores históricos.

O que contribuiu para essa alta, Camila, só para a gente resumir, foi a disparada do dólar ante o real. Isso estimula exportações e puxa os preços em toda a cadeia, né? Vale destacar também que muitos agricultores seguraram as ofertas à espera de valores ainda mais altos pois estavam capitalizados após venderem a soja a preços também atrativos.

Em setembro, o governo até zerou a tarifa de importação de milho de países de fora do Mercosul para tentar calibrar a oferta interna e segurar os preços.

CD: Obrigado pelo resumo, José. E as perspectivas para 2021 são positivas em termos de produção?

JR: Olha, Camila, nos números o cenário é positivo. A Conab prevê que o Brasil vai colher cerca de 105 milhões de toneladas de milho. Isso representa um crescimento de pouco mais de 2 por cento na comparação anual. Desse total, quase 77 milhões de toneladas deverão ser colhidas na segunda safra.

E a Conab também projeta que a área total a ser plantada com milho no ciclo 2020-2021 fique novamente acima dos 18 milhões de hectares.

CD: Você disse que nos números o cenário é positivo. Mas e na prática? Como o mercado está avaliando esta temporada?

JR: Pois é, Camila. Na prática há alguns receios, algumas preocupações. E em praticamente todas as regiões produtoras do país.

Em Mato Grosso e no Paraná o temor é de que parte da janela ideal de plantio do milho safrinha seja perdida porque houve atraso na semeadura da soja entre setembro e outubro em razão da falta de chuvas. Essa janela de plantio do milho safrinha vai até fim de fevereiro, meados de março, mais ou menos, mas como a soja pode demorar um pouco mais para ser colhida, a preocupação é de que o milho acabe sendo plantado depois desse período ideal. Daí o risco é maior, pois começa o outono no Brasil, marcado por menos chuvas e até mesmo geadas.

O Departamento de Economia Rural do Paraná, o Deral, já informou que a safrinha de milho poderá ter problemas de calendário principalmente na parte oeste do estado.

Também no Sul do Brasil, outro estado que preocupa é o Rio Grande do Sul, que é um grande produtor de milho de primeira safra, o milho verão. O problema por lá já é visível, Camila, por causa das chuvas muito abaixo da média, padrão típico de anos de La Niña.

Alguns participantes do mercado com quem conversei avaliam que a quebra de safra no Rio Grande do Sul poderá ser de quase 2 milhões de toneladas em relação à atual projeção, de cerca 6 milhões de toneladas. De fato, uma situação bem complicada por lá.

CD: Bem complicada mesmo. Bom, se os produtores podem perder a janela ideal de plantio da safrinha, a tendência é eles reduzirem a área de cultivo, né?

JR: Olha, Camila, apesar de tudo, a tendência é que os agricultores plantem aquilo que estão planejando. E a razão é uma só: preço.

As negociações para a safrinha do próximo ano em Mato Grosso, por exemplo, estão com preços de quase 50 reais por saca para entrega em julho, bem acima dos cerca de 30 reais por saca em julho de 2020.

Portanto, para o produtor rural, fará sentido plantar o milho mesmo que fora da janela ideal e correr o risco de ter uma colheita menor já que o preço vai compensar tudo isso. Pelo menos é avaliação do mercado, né?

CD: Certamente vamos acompanhar. José, para concluirmos, quais as perspectivas de exportação de milho pelo Brasil em 2021?

JR: Devemos exportar um volume estável na comparação com 2020. Serão 35 milhões de toneladas em 2021, ante 34 milhões e 500 mil toneladas em 2020, segundo a Conab. O destaque em 2021 vai ser a maior demanda da China no mercado internacional, já que o país precisa de ração para o seu plantel de suínos, em plena recuperação após aquele surto de peste suína africana em 2018, 2019, Camila.

Muito obrigado, José. Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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