Falando de Mercado: Nova porta de entrada de fertilizantes no Brasil

Author Argus

O Porto do Açu recebeu seus dois primeiros carregamentos de fertilizantes nos últimos meses e novos desembarques estão previstos em 2021, colocando o Rio de Janeiro na rota de importação destes produtos. Como o porto está se preparando para atender este mercado?

No episódio desta semana da série Falando de Mercado, Camila Dias, Chefe de Redação da Argus no Brasil, e João Petrini, repórter de grãos e fertilizantes, conversam sobre o início das movimentações de nutrientes no Porto do Açu, no Rio de Janeiro.



Links relacionados


Transcript

CD: Olá e bem-vindos ao "Falando de Mercado" – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com João Petrini, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre o Porto do Açu, no Rio de Janeiro, que iniciou recentemente a movimentação de fertilizantes.

JP: Obrigado, Camila. É um prazer estar aqui.

CD: João, nós publicamos recentemente no nosso relatório Argus Brasil Grãos e Fertilizantes uma análise muito interessante que você fez sobre o Porto do Açu e a movimentação de fertilizantes pelo porto, que aconteceu recentemente pela primeira vez. Conte pra gente quando isso aconteceu e qual a importância disso?

JP: A primeira vez que o porto movimentou este tipo de carga foi no final de setembro, quando recebeu cerca de 25 mil toneladas de cloreto de potássio vindas da Rússia. Logo depois, em novembro, foram mais 11 mil toneladas de sulfato de amônio. E esse acontecimento é importante pois coloca o estado do Rio de Janeiro na rota de nutrientes que o Brasil importa. O estado era um dos poucos da costa brasileira que ainda não movimentava fertilizantes.

CD: Quais são os principais portos para a movimentação de fertilizantes atualmente no Brasil, João? Existe uma concentração desse movimento em poucos portos?

JP: Podemos dizer que a movimentação de fertilizantes no Brasil se concentra nos portos da região Sul e Sudeste, principalmente em Paranaguá, no Paraná, e Santos, em São Paulo, que são os principais portos do país. Os dois juntos movimentam entre 60-70% de todo o volume de fertilizantes que chega ao Brasil. Além disso, outros portos da região, como o de Rio Grande, no Rio Grande do Sul; São Francisco do Sul, em Santa Catarina; e Vitória, no Espírito Santo, também possuem bons números de movimentação de nutrientes.

CD: E qual foi a recepção do mercado em relação a este anúncio do Porto do Açu?

JP: Foi bem positiva, Camila. Inicialmente, o porto do Açu deve atender a demanda de Minas Gerais por fertilizantes, ganhando relevância nos próximos anos. E mesmo no curto prazo, o porto pode ser mais utilizado para movimentação de fertilizantes. No mês de novembro do ano passado, participantes do mercado relataram a necessidade de desviar navios para o porto carioca por causa de alguns problemas no porto de Vitória, no Espírito Santo.

Na ocasião, os berços 201, 202 e 207 do porto capixaba apresentaram problemas de profundidade de navegação por causa de altos níveis de sedimento. A Codesa, Companhia de Docas do Espírito Santo, que administra o porto de Vitória, disse que a situação iria se normalizar dentro de 60 dias, mas participantes do mercado optaram por desviar seus navios. Então o Porto do Açu passa a ser fundamental para receber também esse fluxo de outros portos.

CD: E qual a infraestrutura do porto do Açu para passar a receber nutrientes vindos do exterior?

JP: Tudo acontece por meio do Terminal Multicargas, o T-MULT, que recentemente foi ampliado, passando a contar com um novo armazém coberto. Desde a inauguração do terminal, realizada em 2016, o T-MULT já movimentou 2,7 milhões de toneladas de carga, tendo um crescimento anual de 64% entre 2016 e 2019.

Agora, a meta do Porto do Açu é movimentar cerca de 150 mil toneladas de fertilizantes durante o primeiro ano de operação, se consolidando no segmento de adubo ao mesmo tempo que busca ampliar a infraestrutura de armazenamento para atender à demanda do mercado.

Só para você ter uma ideia, Camila, o Porto de Paranaguá, que é o principal ponto de entrada de fertilizantes no país, movimentou 9,8 milhões de toneladas de fertilizantes em 2020. Ou seja, ainda tem um bom espaço para crescimento do Porto de Açu.

CD: E além do início da movimentação de fertilizantes, que outros tipos de carga passam pelo porto?

JP: O porto do Açu também movimenta outras commodities como minério de ferro, petróleo, coque, carvão e bauxita, entre outras, além de contêineres e bens industriais, como automóveis. Destaque para o Terminal de Minério, que já movimentou 86 milhões de toneladas de carga em seus seis anos de operação. E para o Terminal de Petróleo, que, com cinco anos de operação, totaliza 220 milhões de barris movimentados.

CD: Você mencionou a inauguração do T-MULT em 2016. Parece ser um complexo bem recente. Quando o Porto do Açu foi inaugurado e qual a história do projeto?

JP: Exato, Camila, é um projeto bem “jovem”, vamos dizer. O Porto do Açu foi idealizado pelo Grupo EBX, do empresário Eike Batista, no ano de 2007. Posteriormente, a Prumo, empresa do grupo EIG Global Energy Partners, assumiu o controle do projeto em 2013. A inauguração ocorreu em 2014, sendo o único porto totalmente privado do Brasil. De acordo com a administração do porto, essa condição ajuda a realizar operações portuárias mais eficientes e com menores custos, já que não há filas para atracação dos navios e as operações podem ser customizadas de acordo com cada cliente. Soma-se a isso a localização do porto, no norte do Rio de Janeiro, próximo às principais bacias produtoras de petróleo do Brasil.

CD: E quais outros elementos podem ajudar o Porto do Açu a entrar de vez no mapa de fertilizantes do Brasil?

JP: Sobretudo projetos de infraestrutura, que podem não somente ajudar o porto, mas também a logística da região como um todo. Podemos destacar dois deles. Um é o trecho EF-118 da Ferrovia Vitória-Rio. O projeto fornecerá ligação ferroviária entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo e conta com investimento estimado de R$ 2,5 bilhões. A construção está prevista para começar em 2022, com conclusão prevista para 2028. Então tem um tempinho ainda até isso acontecer, mas é um projeto importante.

O outro projeto é a RJ-244, estimado em R$ 595 milhões. A estrada ligará o Porto do Açu à rodovia BR-101, uma das principais do Brasil, com 4.658 quilômetros e que vai do estado do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte. A rodovia RJ-244 deve ser licitada em 2021 e as obras concluídas em 2023.

CD: Muito obrigada, João.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

Comments

Deixe uma resposta

Required
Insira o seu nome
O nome não está correto (apenas letras são permitidas)