Falando de Mercado: Dependência brasileira de fertilizantes importados deve continuar

Author Argus

O Brasil recentemente lançou discussões de alternativas para aumentar a produção nacional de fertilizantes e insumos para o setor agrícola doméstico, mas o progresso continua lento, com forte dependência de importações. A dificuldade de negociação do gás natural necessário para a produção de nitrogenados é um dos motivos da baixa produção brasileira de fertilizantes.

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Kauanna Navarro, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre a dependência brasileira dos fertilizantes importados.

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Transcript

CD: Olá e bem-vindo ao ‘Falando de Mercado’, uma série de podcasts produzidos semanalmente pela Argus sobre os principais eventos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil. No episódio de hoje, converso com Kauanna Navarro, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre a dependência brasileira dos fertilizantes importados. Bem-vinda, Kauanna.

KN: Obrigada, Camila. É um prazer estar aqui.

CD: Kauanna, recentemente o Brasil abriu alguns grupos de discussões para aumentar a produção de fertilizantes e insumos para o setor agrícola nacional. Por que? Quão dependente é o Brasil de outros países nesse tópico?

KN: O Brasil é um dos quatro maiores consumidores de fertilizantes do mundo. A demanda do país por fertilizantes NPK em 2020 atingiu 41 milhões de toneladas, com as importações atendendo 80pc disso. No mesmo período, a produção nacional registrou o menor volume em anos, caindo 11pc em relação a 2019.

CD: Uau. Então, precisamos importar 80pc de tudo o que usamos? Como isso afeta a competitividade brasileira?

KN: Isso nos afeta de muitas maneiras. Em anos em que a demanda global está lenta, não temos muitas preocupações em obter fertilizantes. Mas, em um ano como o atual, ficamos muito vulneráveis às oscilações do mercado. China e Rússia, dois importantes fornecedores brasileiros, principalmente de fosfatados, estão restringindo as exportações e pode ser difícil obter o volume total que precisamos para a próxima safra de soja.

CD: Mas a China também é nosso principal consumidor de soja. É interessante para a China abastecer o Brasil com fertilizantes, não?

KN: Sim, mas o Brasil não é o único fornecedor. E agora que a guerra comercial entre a China e os EUA está ficando mais fraca, a China vai precisar de menos soja do Brasil do que nas duas últimas safras. E não podemos desconsiderar a competição de mercado nos dias de hoje. O país que paga mais leva o produto. E nosso cenário de fosfatado não é o pior em toda a produção de NPK.

Na verdade, fosfatado é o principal componente da atual produção de NPK no Brasil. Em 2020, o Brasil produziu cerca de 6 milhões de t de fosfatados, quase 90pc do fertilizante total produzido no país. É possível aplicar tecnologia para aumentar a produção de fosfatados, mas a quantidade restante de jazidas limita o potencial de crescimento.

CD: Você mencionou que a produção nacional diminuiu em 2019. O que aconteceu?

KN: A diminuição na produção de fertilizantes é principalmente resultado de mais períodos de hibernação nas unidades de produção e também consequência de fechamentos de plantas.

A estatal brasileira Petrobras aprovou o fechamento da unidade de amônia e ureia em Araucária, no Paraná, no início de 2020 devido a prejuízos financeiros na unidade.

Em 2019, a Petrobras fechou outras duas fábricas de produção de ureia, em Laranjeiras, no estado de Sergipe, e em Camaçari, na Bahia. Em agosto de 2020, essas unidades foram arrendadas para a Unigel com um contrato de 10 anos. Em setembro de 2020, a empresa afirmou a intenção de vender sua unidade de fertilizantes de Araucaria.

CD: Se o Brasil é um consumidor tão grande, por que a produção nacional está diminuindo?

KN: Todas essas unidades da Petrobras produzem nitrogênio. Para produzir ureia no Brasil, usamos gás natural. E a obtenção do gás sempre foi um grande problema para a produção nacional. A Petrobras busca comprador para suas instalações de fertilizantes, que incluem as unidades da Bahia e Sergipe e também uma unidade inacabada no estado de Mato Grosso do Sul, desde 2018. Até agora, a estatal era a única opção de fornecedora de gás natural para potenciais compradores.

CD: Mas o cenário pode mudar já que o Brasil está prestes a abrir o mercado de gás natural.

KN: Sim e não. O momento é um dos piores possíveis. O mercado brasileiro de gás natural está prestes a se abrir, com a redução da atuação da Petrobras e uma nova lei aprovada em abril, o que pode ser uma boa notícia para os produtores de fertilizantes. Esse processo inclui a possibilidade de contratos de fornecimento de gás no mercado aberto feitos diretamente com os produtores de gás, marcando uma mudança no fornecimento de gás vindo exclusivamente de empresas distribuidoras de gás locais.

Mas as dificuldades no mercado de gás natural aumentaram consideravelmente nas últimas semanas. Os custos de produção de amônia na Europa chegaram a $1000/t e em outras regiões onde um suprimento marginal de gás é fornecido pelo GNL os preços dos fertilizantes não estão acompanhando o ritmo de alta. A situação atual impulsionou os preços da ureia granulada cfr em mais de $200/t nos portos brasileiros no mês passado.

CD: Em relação ao que você está nos contando, é difícil imaginar que a dependência brasileira diminuir num futuro próximo.

É complicado. O governo está estudando maneiras de reduzir nossa dependência. Mas, até agora, não temos nenhum plano concreto. O fato é que uma menor dependência exigirá altos investimentos em infraestrutura. Nossas unidades de nitrogenados atuais estão obsoletas. E existem os problemas de obtenção do gás natural.

CD: Muito obrigada, Kauanna.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!