Falando de Mercado: PLD, um problema que o setor elétrico precisa enfrentar

Author Argus

Vimos o Brasil novamente submetido ao risco de racionamento. E, como resultado, os altos custos da geração termelétrica emergencial.

Possivelmente, parte dos problemas do setor elétrico brasileiro poderiam ser resolvidos se o país parasse para debater e atualizar o PLD, ou o Preço de Liquidação das Diferenças, o preço da eletricidade no mercado de curto prazo.

Junte-se a Camila Dias, chefe de Redação da Argus no Brasil, e Flávia Pierry, Editora de Gás Natural e Energia. Elas conversam sobre as pecualiaridades do PLD.

Quer ficar por dentro de tudo que acontece no mercado de gás natural e energia?



Transcript

[Camila] Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou chefe de redação da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Flávia Pierry, editora de Gas Natural e Energia, abordando um dos temas centrais para o setor elétrico no Brasil, o PLD, o preço de liquidação de diferenças, ou o preço spot da eletricidade. Muitos dos problemas do setor elétrico na atualidade surgem a partir de peculiaridades do nosso PLD e vamos abordar tais questões no bate-papo de hoje. Bem-vinda, Flavia.

[Flávia] Obrigada, Camila.

[Camila] Flávia, apesar de ainda estarmos gerando energia das usinas mais caras neste mês de Novembro e termos reservatórios das hidrelétricas a 18 porcento de sua capacidade, vimos ao longo do mês de Outubro o PLD cair para níveis abaixo de R$100. Explica pra gente por que isso está acontecendo e quais os reflexos disso?

[Flávia] Camila, estamos vendo o famoso “barato que sai caro”. Vamos explicar primeiramente o que é o PLD.

No mercado de eletricidade, tanto o físico como o financeiro, acertos entre os agentes são feitos a todo momento. Como nosso sistema é interligado, quem gera injeta energia na rede, que será consumida por qualquer um que demandar naquela hora. Afinal, Elétrom é tudo igual. E isso torna necessário que ajustes sejam feitos no financeiro, e é preciso que se saiba a que preço esse ajuste será feito.

No Brasil, como não temos um mercado dinâmico de eletricidade (o que seria parecido ao mercado financeiro, na Bolsa de Valores, com oferta e demanda se encontrando em operações e definindo os preços nessas transações), o setor elétrico brasileiro criou o PLD, um preço que é CALCULADO POR SISTEMAS COMPUTACIONAIS.

E aqui está a raiz, ou ao menos uma das raízes, de diversos problemas que vivenciamos hoje, como preços altos de energia e reservatórios hídricos mais vazios do que o esperado.

[Camila] Termos um preço que não acompanha o mercado já causa muitos problemas, como vemos em diversos mercados de commodities acompanhados mundialmente pela Argus... Conte pra gente como funcionam os sistemas que calculam o PLD e por que há tanta controvérsia?

[Flávia] Camila, os programas que calculam o PLD basicamente olham para o histórico e a expectativa de chuvas nos reservatórios das hidrelétricas. E como são modelos que foram criados quando a matriz energética do Brasil ainda era preponderantemente hidrelétrica, o sistema é parametrizado para priorizar sempre que possível o despacho das hidrelétricas.

Daí o que acontece é o que nós estamos vendo agora, ao vivo e a cores: o PLD vai subindo durante os meses de seca, sem chuva. Mas quando as primeiras chuvas, ainda esparsas, começam a ocorrer, o sistema fica otimista e projeta que mais chuvas virão... e o preço começa a cair.

Foi o que aconteceu depois de 30 de setembro: algumas primeiras chuvas no Sudeste fizeram o PLD cair de R$ 585 no final de setembro para R$95 ao final de outubro, em menos de um mês!

Porém, com reservatórios ainda muito deplecionados, as autoridades do setor reunidas no Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), presidido pelo Ministério de Minas e Energia, continuam adotando medidas para incluir mais usinas termelétricas na lista de usinas que estão sendo chamadas a gerar energia. Estamos com o PLD baixinho, mas temos térmicas ligadas com preços de até R$2.553 por MW! Como o sistema do PLD não avalia que é a hora de ligar as térmicas, com antecedência, acaba que o CMSE toma essa decisão em suas reuniões, instituindo que poderá despachar as térmicas independentemente do preço, fazendo algo oposto ao que o programa de computador está indicando.

E ainda temos de lidar com as jaboticabas do setor elétrico, criadas para resolver problemas de forma artificial, evitando aumentos de preços e que acabam se tornando novos problemas: Nosso PLD tem um preço teto. Ele foi instituido para evitar o repasse imediato de custos decorrentes da geração mais cara, foi instituído esse limite de valor do PDL, que este ano é de R$ 583,88. Parece uma coisa um tanto bizarra você limitar um preço com base em portaria do ministério ou decreto, não? Isso resulta que valores devidos aos geradores que superem o teto do PLD não são pagos na liquidação de curto prazo, mas considerados Encargos e repartidos entre todos os consumidores.

Te pergunto, Camila: Se temos sistemas computacionais dando o sinal de preço para definir como deve ser o despacho elétrico, se com mais ou menos usinas hidrelétricas, por que ele falha em avisar quando é preciso despachar mais térmicas? Isso mostra que os sistemas – ou seus dados de entrada e parâmetros – estão inacurados.

[Camila] ...e quando culpamos a pior seca em 91 anos pelo preço da energia, deveríamos também questionar o planejamento e a operação elétrica. Mas o que precisa ser feito?

[Flávia] Obviamente que há diferentes vertentes sobre o que precisa ser feito para corrigir o problema. A percepção de que o sistema não é o mais adequado é generalizada, mas há desde aqueles que sugerem apenas alterar os parâmetros do sistema, outros sugerem criar novos “curativos, esparadrapos” para remendar o PLD, ou ainda há quem defenda que realmente troquemos o sistema computacional e adotemos outro.

O sistema atual, o Dessem, é desenvolvido pelo Centro de Pesquisas de energia elétrica, o Cepel, uma entidade mantida com recursos das empresas do grupo Eletrobras. E está definido em ato público que o governo deve usar esse sistema. Porém, há outros sistemas mais modernos e com mais parâmetros, que atualizam essa forma de calcular o “preço da água nos reservatórios” incluindo a geração térmica na base, constante, com menores custos, e considerando ainda as novas energias renováveis, como eólica e solar.

[Camila] Se há consenso de que temos um problema, por que ainda demoramos em tomar atitudes, principalmente reconhecendo que pode estar no PLD uma boa parte dos problemas que o setor elétrico vive hoje, inclusive os altos custos da energia e os riscos de falta de eletricidade?

[Flávia] A resposta dessa pergunta está flutuando com o vento, como diria Bob Dylan, Camila. Vamos listar algumas possibilidades? Primeiramente, há o receio de trocar o conhecido pelo desconhecido. Há também a tradição, e o fato de que muitas regras e operações são feitas com o que temos atualmente e precisaríamos de um período de transição, que poderia levar vários anos. Temos ainda as pressões políticas e setoriais: ao trazermos realidade para o setor elétrico e para a geração, estaríamos repartindo os riscos que hoje estão concentrados em um ou outro ou poucos elos da cadeia. E daí quem está ou estaria mais exposto a esse risco tente a gritar quando se começa a debater o tema.

Há ainda receios sobre essa alteração no PLD ou o seu abandono demandar ainda outras alterações (como quando começamos a reformar uma casa e acabamos descobrindo problemas mais profundos que agora não podem mais ficar daquele jeito).

Um deles é a garantia física das usinas hidrelétricas, ou quanta energia uma usina hidrelétrica pode vender. Esse assunto é polêmico, pois a garantia física é determinada na concessão da usina e significa, na prática, qual receita o empreendedor pode receber. Se ele pode vender 2 mil MW médios, significa que terá receita proporcional a isso ao longo dos 30 anos de concessão. Mas e se descobrirmos que de fato essa usina não consegue gerar essa quantidade de energia? Que a mudança climática, por exemplo, reduziu a vazão média de água naquela usina? Ou que com os anos, o assoreamento de um rio pode ter reduzido sua capacidade de vazão? Se falarmos para esse empreendedor que agora ele só tem na verdade 1.500 MW médios para vender, o que pode acontecer? E se isso ocorrer com muitas usinas? Será que temos muita “energia de papel” no setor, ou seja, energia que só existe no contrato de concessão, mas não na realidade?

O setor elétrico precisa de realismo. Senão nunca vamos parar para debater e propor aprimoramentos a um problema central como o PLD, e seguiremos vagando de crise em crise, tendo de debater como evitarmos um racionamento elétrico na base de energia térmica caríssima, ou depois tendo de debater como o consumidor, representado pela sua distribuidora, vai pegar empréstimos bilionários para pagar essa conta, o que estamos novamente debatendo...

[Camila] É Flávia, como você costuma dizer, é preciso sempre fazer um debate realista e sem posições emocionadas quando o assunto é setor energético. Muito obrigada.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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