Falando de Mercado: A reorganização do mercado de diesel nacionalizado

Author Argus

Desde outubro, vemos um maior interesse comprador de diesel importado nos portos do Sul e do Sudeste, mesmo com os valores bem acima do produto comercializado nas refinarias da Petrobras.

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Gabrielle Moreira, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis. Elas conversam sobre os fatores que tem estimulado essa demanda e seus desdobramentos.

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Transcript

Camila Dias: Olá. Bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou chefe de redação da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Gabrielle Moreira, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis, sobre o início do processo de reorganização do mercado de diesel nacionalizado. Bem-vinda, Gabrielle.

Gabrielle Moreira: Obrigada, Camila. É um prazer estar aqui mais uma vez.

CD: Gabrielle, de outubro para cá nós estamos vendo um maior interesse comprador por diesel importado nos portos do Sul e do Sudeste, mesmo com os valores bem acima do produto comercializado nas refinarias. O que tem estimulado essa demanda?

GM: Camila, a demanda por diesel continua aquecida no mercado doméstico e até um pouco acima do inicialmente esperado, segundo a Petrobras. Mas isso acontece em um momento de menor quantidade de produto disponível nas refinarias e de diminuição do fluxo de importação.

Ouvimos de muitas fontes e, inclusive confirmamos a informação com a Petrobras, de que compradores não tiveram opção de ampliar os volumes contratados junto às refinarias em outubro e novembro. Por isso, essas distribuidoras tiveram de recorrer ao produto nacionalizado. E, para dezembro, a situação não deve ser muito diferente, pois soubemos que essas restrições continuarão no próximo mês.

CD: Considerando que as ofertas de venda estão acima dos preços das refinarias há algum tempo, compradores já incluíram os novos níveis nos planos de negócios? Isso não era considerado até pouco tempo atrás.

GM: Não era considerado mesmo. Muitos vendedores nem apresentavam ofertas quando o preço do produto importado estocado nos portos estava premiado em relação ao valor vigente nas refianrias.Mas a situação atual é bastante diferente. Até o fim de setembro, o pagamento de prêmios era algo praticamente descartado. Isso porque, para que haja uma arbitragem favorável, participantes de mercado consideram um desconto mínimo de R$80/m³ para aquisições em Santos e R$35/m³ em Paranaguá em relação a suas bases. E ver oferta de venda a desconto tem sido cada vez mais difícil.

Essa arbitragem fechada nos últimos meses trouxe uma pressão de alta nos diferenciais de diesel S10 nacionalizado nos portos de São Paulo e do Paraná. E as aquisições de diesel ganharam tração desde então, com negócios sendo fechados a prêmios entre R$200-R$300/m³, a partir do início de outubro. E, respondendo à sua pergunta, sim. Esses níveis de preço já foram incorporados às decisões estratégicas das distribuidoras.

É importante destacar, Camila, que essa dinâmica que está se desenhando é o início de uma nova fase de reorganização do mercado de S10 nacionalizado.

CD: Uma fase na qual o preço da Petrobras começa a deixar de ser referência?

GM: Acredito que sim. Vemos o interesse comprador fortalecido e, com essa readequação dos atuais níveis de preços dos planos de negócios, o incômodo do mercado em relação à Petrobras e a política de preços da empresa começa a diminuir.

É claro que essa nova organização requer um tempo de adaptação. Recentemente, inclusive, consultamos nossas fontes sobre uma possível mudança no comentário de diesel S10 fca, que publicamos diariamente, para tirar as referências de Araucária e Paulínia, no intuíto de desatrelar o ‘fator Petrobras’ da lógica de precificação. A resposta que tivemos foi para manter essas referências, ao menos por enquanto. Mas importadores e distribuidores já começam a visualizar uma dinâmica de mercado na qual os valores praticados pela estatal tenham um menor peso na tomada de decisão.

CD: Apesar da arbitragem fechada, a menor quantidade de produto no mercado doméstico está contribuindo para a procura de diesel importado?

GM: Sim. Depois de a Petrobras informar a varejistas de combustíveis que não poderia atender totalmente a demanda de novembro, importadores correram mais atrás de diesel fora do país, para tentar evitar problemas de abastecimento.

E a expectativa é de que essa corrida por importações sustente os volumes de diesel previstos para desembarcar no Brasil em novembro, inclusive com aquisições de cargas prontas para o transporte, de produto boiando, o que não costuma ser muito comum.

Para este mês, a estimativa é de um pouco mais de 1 milhão de m³ desembarcando no país, de acordo com levantamento da Vortexa, empresa especializada em dados e análises do setor de energia. Se confirmado, o volume representa queda de aproximadamente 45pc em relação aos 1,8 milhão de m³ registrados em outubro, segundo dados divulgados pelo Ministério da Economia.

A maior parte desse produto vem dos Estados Unidos, mas nas últimas semanas já vimos ofertas da Europa ganhando mais espaço para o diesel e para a gasolina. Mas isso é assunto para outro podcast.

CD: Obrigada, Gabrielle. Vamos continuar acompanhando os desdobramentos do mercado de diesel no Brasil.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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