Falando de Mercado: Por que o trigo transgênico na Argentina pode afetar o mercado global?

Author Argus

O plantio de trigo transgênico na Argentina, principal fornecedor do cereal para o Brasil, está causando muita polêmica. Será que o Brasil vai aprovar a entrada de trigo geneticamente modificado no país? E caso não aprove, qual seria o efeito para outros países produtores e consumidores de trigo?

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre o que está em jogo neste debate sobre o trigo transgênico.

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Transcript

Camila Dias: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, chefe de redação da Argus Media no Brasil. No episódio de hoje eu converso com Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre a polêmica que envolve a possível liberação da entrada de trigo transgênico no Brasil, uma variedade que está sendo cultivada na Argentina e que poderá ter impactos no cenário mundial. Alessandra, bem-vinda.

Alessandra Mello: Obrigada, Camila, sempre bom estar aqui no Falando de Mercado.

CD: Alessandra, de que forma o cultivo de trigo transgênico na Argentina pode afetar outros países?

AM: Olha Camila, o que é ocorre é que 46pc do trigo exportado pela Argentina tem como destino o Brasil. Atualmente o Brasil importa entre 6-7 milhões toneladas de trigo por ano e tem um consumo total de 12 milhões de toneladas. O assunto está causando muita polêmica e a maior parte das indústrias importadoras de trigo vem se manifestando contra a liberação da entrada do trigo geneticamente modificado no Brasil. As lideranças do setor ponderam que o trigo transgênico ainda não é autorizado para consumo humano em nenhum país do mundo e temem uma reação negativa por parte dos consumidores brasileiros. Sendo assim, a Abitrigo, por exemplo, Associação Brasileira da Indústria do Trigo, já se disse disposta a barrar a entrada do cereal argentino e passar a comprar de outros países, possivelmente dos Estados Unidos, do Canadá e da Ucrânia. É por isso que este cultivo por lá poderia mexer com o mercado internacional, criando oportunidades para os países do hemisfério norte.

CD: E qual é o tamanho desta produção de trigo transgênico na Argentina?

AM: Bom, a estimativa é de que a Argentina tenha plantado entre 55 mil e 60 mil hectares com a variedade geneticamente modificada e, considerando a produtividade média do país, acredita-se que a produção do trigo transgênico chegue a 200 mil toneladas já nesta safra que está sendo colhida. Claro que é uma quantidade ainda pequena se a gente analisar a produção total de trigo dos argentinos, que chega a 20 milhões de toneladas.

E por que ainda não é maior? Porque as autoridades argentinas também estão liberando aos poucos o avanço desta tecnologia. O governo argentino autorizou o comércio das sementes transgênicas no mercado interno, mas manteve suspensa a possibilidade de exportação. Para exportar o trigo transgênico, a Argentina aguarda pela aprovação do Brasil, que é o principal destino da produção de trigo do país.

CD: E já há uma tendência sobre qual deve ser a decisão do Brasil sobre este assunto?

AM: Está difícil saber porque desta vez realmente se trata de um tema muito polêmico. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança do Brasil (CTNBio) órgão responsável por este assunto já adiou diversas vezes uma decisão final. Agora o tema está previsto para ser definido na reunião que ocorre neste mês de novembro, nos dias 10 e 11, mas nada impede que seja adiado novamente. A CTNBio vai analisar um pedido de permissão para a comercialização do trigo GM da variedade HB4, produzido pela empresa argentina Bioceres e representado no Brasil pela TMG, grupo que também atua em melhoramento genético e produção de sementes. Nas últimas décadas a gente vem observando um avanço das lavouras transgênicas pelo mundo e esta tendência não é diferente no Brasil, hoje a soja e o milho transgênico representam a maioria expressiva da área plantada no país, assim como também já ocorria nos Estados Unidos. Mas o que os analistas destacam é que desta vez é diferente. O ponto crucial aí é que nenhum outro país está consumindo trigo transgênico, há poucas pesquisas sobre o impacto que este cultivo poderia causar à saúde humana ou ao meio ambiente, por isso os empresários não querem que o Brasil seja uma espécie de cobaia, como eles dizem, porque desta forma, claro, estariam perdendo mercado. Quem é contrário à liberação também tem usado outro argumento – afirmam que a soja e o milho transgênico são destinados principalmente para ração, já o trigo é diferente, a maioria da produção vira farinha e é consumida pela população na forma de pão, massas, biscoitos, principalmente. Por isso o cuidado e os estudos deveriam ser mais amplos, é o que dizem os empresários e principalmente as Ongs ligadas ao meio ambiente.

CD: E qual seria a vantagem de usar este trigo transgênico?

AM: O argumento mais comum quando se fala em semente transgênica é ganho de produtividade e redução de custos, já que normalmente é possível usar menos defensivos na lavoura. No pedido feito à CTNBio, a TMG apresentou dados que indicam que o trigo transgênico poderia oferecer 40pc de aumento de produtividade em situação de stress hídrico. Sabe-se que a Argentina e o sul do Brasil, que tem o clima propício para o plantio do trigo, sofrem com muita frequência períodos de seca severa e chuvas irregulares. Por isso a tecnologia poderia ajudar a minimizar o problema. Este trigo é resistente ao glufosinato de amônio, um herbicida que também é bastante polêmico, já que seria altamente tóxico, segundo os críticos. Há quem diga que o trigo transgênico poderia trazer um salto de produtividade até mesmo no Brasil, quando futuramente fosse aprovado por aqui também. O setor acredita que o trigo tem potencial para ser o novo milho. Explicando melhor: é que há 15/20 anos a produção brasileira de milho era totalmente focada no mercado interno, mas depois o Brasil avançou em produtividade e assumiu um papel importante também na exportação de milho. Hoje o Brasil é um grande importador de trigo, quem sabe no futuro, poderia avançar também na exportação, caso consiga aumentar a produção.

CD: Quais são os próximos passos então?

AM: O foco agora é esta decisão da CTNBio, a pressão dos empresários está grande para que seja rejeitado o pedido. Enquanto isso, para ter certeza de que não entre trigo transgênico no país ilegalmente, a Abitrigo informou que pediu ao Ministério da Agricultura que estabeleça regras e fiscalize a entrada do cereal no país. Na Argentina o tema também está enfrentando questionamentos, uma série de decisões da justiça argentina já chegou a proibir inclusive a comercialização do trigo transgênico internamente. E quem atua neste mercado acha que a Argentina não deve seguir adiante caso o Brasil não aprove. Isso porque é um mercado grande demais para abrir mão e abrir espaço para os concorrentes do hemisfério norte. Por isso temos que aguardar também o que vão decidir as autoridades argentinas.

Recentemente ficamos sabendo que está sendo exigido na Argentina uma espécie de rótulo na exportação de trigo, que comprove que não se trata de uma variedade transgênica. Eles ficaram bastante preocupados porque sabem que é difícil separar totalmente a produção, acaba havendo contaminação nas máquinas ou no transporte. Portanto, vem muita polemica pela frente ainda.

CD: Existe risco de faltar trigo no Brasil?

AM: Eu conversei com o presidente da Abitrigo e ele garante que não, que os moinhos não estão preocupados com isso. Ele aponta os Estados Unidos, o Canadá e a Ucrânia como potenciais substitutos da Argentina no fornecimento de trigo para o Brasil. Lembrou inclusive que em 2010 o Brasil chegou a importar 4 milhões de toneladas do cereal norte-americano em função dos problemas climáticos na Argentina. Agora, conversando com outros participantes de mercado, a situação não seria tão simples assim, porque o custo de trazer este trigo do hemisfério norte é bem mais alto. Eles consideram preocupante esta ameaça do Brasil de barrar o produto argentino. O Marcelo De Baco, de uma das principais corretoras de trigo do sul do país, disse que a importação de trigo do hemisfério norte é viável para a região nordeste do Brasil, que está mais próxima e consegue comprar com fretes mais acessíveis e preços competitivos. Ele pondera que, caso haja esta restrição das compras de trigo da Argentina, poderá haver um aumento nos preços, o que também vai ter reflexo negativo junto ao consumidor final. Além disso, De Baco lembrou que o trigo está em momento de alta expressiva nos preços mundialmente devido a baixos estoques e queda na produção em diferentes países. Quer dizer, uma hora não muito adequada para restrições no comércio.

Mas, eu gostaria de acrescentar outra informação. Recentemente nosso editor adjunto de agricultura na Europa, Bilal Muttoulu, conversou com alguns participantes do mercado na Colômbia. Eles disseram que os compradores brasileiros estão fazendo um grande negócio com isso para pressionar os preços do trigo argentino. Os preços do trigo argentino já estão com desconto para a maioria das outras origens, mas os brasileiros podem estar procurando um negócio melhor, já que os preços globais do trigo em geral são muito mais altos este ano.

A segunda coisa é que o trigo argentino pode encontrar compradores na América Latina, especialmente na Colômbia, Equador e Peru. Eles estão procurando alternativas à safra norte-americana este ano devido aos preços mais altos e à redução da oferta. Portanto, se esta situação se tornar bastante grave e afetar os fluxos Argentina-Brasil, ainda há um escoamento para os vendedores argentinos, isso é o que Bilal destacou.

CD: Agora, Alessandra, pra finalizar, você acredita que assim como ocorreu com a soja e o milho no passado, o cultivo de trigo transgênico pode acabar avançando ao longo dos anos?

AM: Eu acredito que sim, é muito difícil frear o desenvolvimento e o uso desta biotecnologia. Quando foi iniciado o plantio de soja transgênica na Argentina, no final da década de 90, produtores do sul do Brasil acabaram buscando sementes no país vizinho e ampliaram o cultivo mesmo antes de uma autorização das autoridades brasileiras, quer dizer, houve um contrabando de sementes. O setor teme que esta história possa se repetir com o trigo caso o cultivo na Argentina se expanda. De qualquer forma, como ainda não há trigo transgênico amplamente cultivado no mundo e nem mesmo autorização para consumo, pode ser que neste caso o processo seja realmente mais demorado, na comparação com a soja e o milho, que eram amplamente cultivados nos Estados Unidos. É aguardar para ver os próximos passos nos países produtores e consumidores de trigo.

CD: Sem dúvida, a Argus vai seguir muito atenta a este assunto! Muito obrigada, Alessandra.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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