Falando de Mercado: A atual crise elétrica brasileira

Author Argus

O Brasil passa por uma crise elétrica, com os órgãos de governo e entidades do setor buscando formas de evitar um apagão, com custos altos para o consumidor e para o país.

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Flávia Pierry, editora de Gás Natural e Energia. Elas conversam sobre as causas dessa crise e suas consequencias, como reflexos nos custos da energia, e o que esperar para 2022.

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Transcript

[Camila Dias] Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou chefe de redação da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Flávia Pierry, editora de Gas Natural e Energia, sobre a crise elétrica brasileira no segundo semestre de 2021 e as expectativas para 2022. Bem-vinda, Flavia.

[Flávia Pierry] Obrigada, Camila.

[Camila] Flávia, acompanhamos desde o primeiro trimestre do ano notícias de que o Brasil enfrenta novamente riscos de um apagão. O que está acontecendo no setor elétrico?

[Flávia] Camila, se avolumam as informações de que realmente o governo está preocupado se teremos eletricidade suficiente para atender toda a demanda do país no segundo semestre deste ano.

E para entender o porquê, temos de olhar para o nosso parque gerador de energia, no qual 60% da capacidade instalada é composta por usinas hidrelétricas. Esse percentual é grande se comparado com outros países. Durante décadas o potencial hídrico do Brasil foi aproveitado, permitindo gerar energia limpa e barata, que independe de combustíveis fósseis ou nuclear.

Outra característica do nosso setor elétrico é seu despacho centralizado, no qual praticamente todo o Brasil é interligado. O Operador Nacional do Sistema Elétrico, o ONS, observa diariamente a oferta e a demanda de energia e define qual usina vai gerar energia, recrutando as usinas da mais barata para a mais cara até atingir a quantidade demandada, em todas as regiões do Brasil, inclusive promovendo intercâmbios de energia entre as regiões.

Nas últimas décadas, decisões tomadas pela sociedade brasileira acrescentaram algumas dificuldades à gestão do setor: Optamos por aproveitar mais nosso potencial eólico e solar, gerando energia a partir dos ventos e do sol, e também em construir as novas hidrelétricas sem reservatório, já que para se construir reservatórios é necessário aumentar a área desmatada nas áreas do entorno do curso dos rios. Um exemplo disso é a hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, feita à fio d’água, sem reservatório.

[Camila] E por que esse seria necessariamente um problema, Flávia?

Camila, há dois pontos importantes para começarmos a entender onde estamos hoje: os reservatórios das hidroelétricas nos ajudavam a estocar água nos períodos de chuva, que na maior parte do Brasil ocorrem durante o verão, de outubro a março. Isso permitia ao ONS guardar parte da água nesse período para gerar energia no período seco, de abril a setembro.

Com maior fatia de energia eólica e solar – que hoje representam 15% do nosso parque elétrico – também ficou mais difícil controlar a geração quando precisamos. Afinal, não podemos “estocar vento” e nem gerar energia solar de noite ou quando está muito nublado.

[Camila] Mas se essa nova estrutura do setor energético brasileiro já vem se desenvolvendo por alguns anos, porque agora estamos de novo às voltas com o fantasma do risco de apagão, Flávia?

[Flávia] Para responder essa pergunta, vou dividir a resposta em duas partes: entre aquilo que podemos controlar e aquilo que ainda não sabemos muito bem como.

É crescente a preocupação com a mudança climática e o aquecimento global. Percebemos as mudanças e ouvimos cientistas falando sobre eventos similares de secas ou eventos extremos que ocorrem em diferentes pontos do planeta. Este ano, de fato o Brasil e outros países estão enfrentando uma forte seca – que o Ministério de Minas e Energia informa ser a pior da série histórica, que acompanha o nível de chuvas nos últimos 91 anos.

Também há evidências de que temos menos chuvas a cada ano, ao menos nos últimos 15 anos, com o período chuvoso atrasando em começar e indo embora mais cedo, segundo nosso serviço metereológico nacional, o Inpe. Tudo isso influencia demais a capacidade brasileira de estocar água no verão para gerar energia no inverno.

[Camila] Okay, isso responde ao que não podemos controlar em curto prazo ou o que é um reflexo das nossas ações do passado. E quais são os fatores que os gestores do nosso sistema elétrico brasileiro poderiam fazer diferente?

[Flávia] É claro que nenhuma crise é fruto apenas de uma variável, não é, Camila?

É indiscutível que o maior aproveitamento do nosso potencial eólico e solar é algo positivo para todos. Essas fontes de geração são o caminho para contribuirmos pela redução de emissões no planeta, algo que todas as nações devem contribuir.

Porém, é preciso também como sociedade refletirmos sobre como planejarmos nosso sistema de forma a darmos segurança para essa nova matriz, com mais fontes intermitentes, menos controláveis. Devemos discutir se é interessante modernizarmos nosso parque gerador térmico para retirarmos usinas que ainda operam com combustíveis mais poluentes - como o carvão mineral - ou mais caros, como o óleo combustível. Mais de 7% do nosso parque é hoje alimentado por esses insumos.

Também podemos pensar se podemos expandir esse parque com mais térmicas a gás natural, que, apesar de ser um combustível fóssil, é o menos poluente.

[Camila] Além dessas definições mais básicas e de longo prazo, sobre como queremos pensar nosso sistema, o que precisa ser considerado para evitarmos passar novamente por esses problemas?

[Flávia] Camila, nosso setor elétrico precisa urgentemente passar por uma modernização. Uma proposta de atualização dos nossos processos foi redigida pelo Ministério de Minas e Energia em 2017, na época chamada de Consulta Pública 33, a CP 33. Essas propostas viraram um projeto de lei, que está no Congresso, ainda sem previsão de seguir em frente.

Vou te dar um exemplo de uma coisa particularmente brasileira do nosso sistema elétrico que dificulta a gestão setorial e, se alterada, poderia ajudar a evitar situações como a atual: nos mercados internacionais de energia que são livres, com compradores e vendedores de energia, o preço de cada MegaWatt é definido pela regra básica da economia, da oferta e demanda. Com escassez, o preço do produto sobe, com excesso, o preço cai.

No Brasil, o preço da energia é calculado e definido por um sistema de computador, que observa o histórico das chuvas e da expectativa de água nos reservatórios das hidrelétricas, e define o preço. Como o sistema utiliza um histórico de 91 anos de chuvas, talvez ele não esteja caputurando em suas contas os efeitos da crise climática mundial, e o preço da energia no mercado a vista pode estar deixando de subir na hora certa.

[Camila] Isso tira o sinal de preço que poderia informar ao Operador do Sistema Elétrico a hora de determinar que mais usinas térmicas começassem a gerar energia, para guardar água no reservatório...

[Flávia] Exatamente, Camila. E esse é apenas um pequeno exemplo de algo que precisa ser repensado no nosso setor elétrico. Sabemos que quando geramos energia térmica, a conta de luz fica mais cara, mas isso também diz aos consumidores que adequem seu consumo, dentro do possível.

Porém, ao se protelar o acionamento de usinas térmicas mais caras, sem um sinal de preço real, o que fazemos é postergar o problema, fazendo os consumidores de energia gastarem mais energia sem saber que ela está cara. Dai o que acontece: chegamos a momentos como o atual, quando o Custo Marginal de Operação, o MegaWatt mais caro que estamos consumindo a cada dia para atender o total demandado, chegou a mais de três mil reais por MegaWatt! Um custo até dez vezes maior que o custo de uma térmica a gás acionada quando não se tem pressão da oferta!

[Camila] Nossa... Tudo isso nos traz ao momento atual... E o que as autoridades estão fazendo para evitar um apagão este ano?

[Flávia] Camila, o risco de apagão existe, e não é por falta de usinas no país. A situação atual tem mais a ver com termos reduzimos nosso controle sobre a estocagem de energia (como água nos reservatórios) e termos mais geração interruptível, como sol e vento. Vamos comparar com um carro: ele está com o tanque cheio de combustível, está andando bem. Mas quando vamos pegar uma subida, precisamos de potência extra. Vamos engatar a primeira e pisar mais fundo, para o motor queimar mais gasolina e aumentar sua geração.... no caso do setor elétrico, podemos chegar numa tarde quente no final de outubro ou novembro, com muito ar condicionado ligado pelo Brasil afora, e o sistema precisar pisar no acelerador, gerar mais energia para atender toda aquela demanda... só que dai o vento cessa, o sol se esconde, e os reservatórios das hidrelétricas estão zerados...

[Camila] ... e daí podermos ter um apagão, o país pedindo energia e o sistema sem conseguir dar.

[Flávia] Exatamente. Esperamos que isso não ocorra, pois os danos para a economia são sempre desastrosos.

[Camila] E o que o governo está fazendo para evitar esse momento, Flávia?

[Flávia] Este ano já foram lançadas algumas iniciativas: Foi criado um comitê ministerial, que já solicitou a realização de leilões de potencia elétrica e de energia separando a expansão do parque gerador e a energia em si (como se fosse apenas o “tanque de combustível extra” para dar aquela força na hora que for preciso); o governo está tentando dispor do máximo de gás natural possível, liberando mais capacidade em terminais de resageificação de GNL na nossa costa. Também estão abrindo exceções para a gestão hídrica de rios com reservatório, permitindo guardar mais água para o próximo período úmido ou ajustar as vazões. Os técnicos também estão pensando em leilões de pequenos geradores a gás. Além disso, o governo lançou um programa para recompra de energia de grandes indústrias e agora anunciou também para os consumidores regulados, como nós em nossas casas, que possam ter sobras de energia contratada e ainda estamos aumentando a importação dos nossos vizinhos Argentina e Uruguai... Mas o tempo e reação dos órgãos públicos incluem os processos legais e jurídicos, e para manter a lisura de todas essas ações, há um certo tempo de ação, tudo isso demora.

[Camila] Esperamos que não precisemos passar de novo em 2022 pelas mesmas incertezas que estamos vivenciando hoje, não é Flávia?

[Flávia] É, Camila. É isso que todos desejamos. Energia a custos justos, sem faltar para ninguém. E uma coisa que já podemos esperar para o ano que vem é que os custos seguirão altos, com baixo níveis nos reservatórios, legados deste ano, e ainda que algumas contas caras que postergamos em 2020 devido à pandemia da Covid-19 e mais o que contratamos neste ano comprando energia cara, serão cobradas em 2022.

Tudo isso torna ainda mais fundamental que governo e sociedade travem um debate limpo sobre o tema, sem ideias preconcebidas e adotando as melhores práticas mundiais.

[Camila] Muito obrigada, Flavia. Vamos seguir acompanhando tudo isso de perto.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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