Falando de Mercado: Prêmios de exportação da soja atingem máximas históricas

Author Argus

Os diferenciais portuários no paper market de Paranaguá atingiram valores recordes no mês de março e seguem pressionados no mês de abril.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre o que vem influenciando este mercado e quais as tendências para 2022.

Fique por dentro de tudo o que acontece no mercado de agricultura


Transcript

Camila Dias: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, diretora da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre a alta recente nos prêmios de exportação da soja e os principais fatores que vêm influenciando o chamado paper market de Paranaguá. Alessandra, bem-vinda.

Alessandra Mello: Obrigada, Camila, sempre um prazer participar do Falando de Mercado.

CD: Alessandra, a Argus acompanha diariamente os diferenciais em Paranaguá desde 2020. Nós sabemos que a volatilidade é algo comum nesse mercado da soja, mas este ano tivemos níveis recordes nos diferenciais de porto. Explica pra gente, o que está acontecendo?

AM: Camila, realmente, ao longo do mês de março nós tivemos os valores mais altos para os prêmios de exportação da soja em Paranaguá, não apenas dentro da série histórica da Argus, que começou em 2020, mas há pelo menos 15 anos, conforme nós checamos com participantes de mercado. Muitos corretores fazem um acompanhamento próprio dos prêmios e costumam registrar médias mensais, e nos afirmaram que estes prêmios do início de março são muito provavelmente os mais altos da história da exportação de soja do Brasil. Não há como saber isso ao certo, mas nós vimos relatórios até 2005, sempre com valores mais baixos, então, pode-se dizer que são pelo menos 17 anos sem prêmios em Paranaguá tão elevados.

CD: E o que provocou essa alta nos prêmios?

AM: O fator principal foi o clima adverso nesta safra. Mas antes de falar sobre os motivos dessa alta, acho que vale sempre lembrar o que é o paper market, este mercado de papel, ou seja, transações meramente financeiras, mas que depois junto com o negócio de exportação de soja do cargo propriamente dito, vão definir o preço final que vai custar ao importador, que vai remunerar o exportador e também o preço final que será pago ao produtor rural que vendeu aquela soja para a trading. O paper de Paranaguá é um mercado de diferencial portuário, que representa uma espécie de correção entre os preços internacionais da soja e os que devem ser aplicados ao produto brasileiro. É por isso que o desempenho deste mercado depende também das tendências internacionais dos preços e do que acontece com a taxa de câmbio no Brasil, além dos custos logísticos.

Então vamos lá, o que aconteceu este ano foi uma quebra de safra histórica na produção de soja brasileira. Quando a safra 2021-22 estava sendo plantada se projetava entre 145 e 150 milhões de toneladas. Mas o clima arrasou a produtividade da soja do Paraná, que está intimamente ligada com essa exportação pelo porto de Paranaguá, e também causou perdas enormes nas lavouras do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e parte de Mato Grosso do Sul. Resultado: hoje em dia, diversas consultorias privadas apostam em uma safra de 120 milhões de toneladas, a própria Conab, Companhia Nacional de Abastecimento, está projetando a colheita em 122,4 milhões de toneladas. Quer dizer, a quebra entre o que se esperava de produção e o que realmente está sendo colhido é de mais de 20 milhões de toneladas, algo que nunca tinha sido visto por aqui.

Dessa forma nós tivemos um movimento inédito. Em fevereiro, por exemplo, a soja na Bolsa de Chicago estava em patamar quase recorde, muito próxima de 18 dólares por bushel, e os prêmios tiveram uma escalada, subiram junto com a CBOT, como a gente chama a Bolsa de Chicago. Os prêmios para maio estavam num patamar de 70 centavos de dólar por bushel no final de janeiro e subiram para cerca de 120 centavos no inicio de fevereiro. Pra completar, o real estava bem desvalorizado em relação ao dólar, o que levou a um recorde para o preço pago ao produtor, que ultrapassou 200 reais a saca de 60kg. Um outro fator que contou muito é que as indústrias esmagadoras no mercado doméstico brasileiro passaram a disputar a soja com a exportação, pagando valores cada vez mais altos aos produtores.

CD: Alessandra, e nos prêmios de Paranaguá, qual foi esse valor recorde de março?

AM: Olha Camila, analisando a série histórica da Argus, nós escolhemos o vencimento maio, que costuma ser um mês de altos volumes exportados de soja pelo Brasil. A gente observou que o pico foi no dia 9 de março deste ano, quando o midpoint que a gente chama, a média entre a melhor oferta de venda e a melhor oferta de compra, estava em 188 centavos de dólar por bushel sobre o contrato da CBOT. Foi o máximo que vimos este ano para este vencimento. E todos os participantes de mercado que conversamos afirmam que deve ser certamente o maior valor da história do paper.

Só pra se ter uma ideia, no primeiro semestre de 2021 nós chegamos a ter por muito tempo valores negativos nos diferenciais de porto, ou seja, descontos em relação à bolsa de Chicago pra definir o preço da soja brasileira. Pegando este mesmo dia do recorde este ano, 9 de março, em 2021 o midpoint para maio estava em menos oito centavos de dólar por bushel, quer dizer, foi de desconto de oito para prêmio de 188, de um ano para outro.

CD: E além do clima, algum outro fator provocou essa alta recorde de março?

AM: Tem um outro elemento sim. Os papeis negociados no paper market funcionam como uma espécie de hedge, a palavra que se usa para operações onde agentes de mercado buscam se proteger contra oscilações nos preços, o que pode ser feito tanto por uma trading quanto por um produtor rural. Normalmente se fala em hedge em contratos futuros negociados em bolsa, mas aqui no Brasil temos esta peculiaridade do mercado de prêmios, que ocorre fora da bolsa, mas também tem liquidação financeira.

As tradings enfrentam muita variação nos custos com logística e às vezes precisam se posicionar no paper para evitar perdas nos negócios já assumidos da exportação de soja. O que vimos em março foi o que os participantes de mercado mais experientes chamam de “short cover”, uma espécie de venda a descoberto. As tradings contavam com uma grande safra no Paraná para exportar por Paranaguá, o que não se concretizou, foram quase 10 milhões de toneladas a menos. E estavam posicionadas no paper desta forma, por isso precisaram negociar mais o papel para viabilizar financeiramente a originação, a compra de soja, de outros estados, que é mais cara pelo custo logístico.

CD: Muito interessante mesmo... e no período que tivemos descontos no paper market qual foi a mínima que o indicador da Argus chegou, Alessandra? Queria que você explicasse pra gente também porque os valores ficaram negativos.

AM: Também olhando só para o contrato maio tivemos a média de menos 21 centavos de dólar por bushel no dia 23 de março de 2021. Se for comparar com este ano, na mesma data em 2022, o prêmio para maio estava em média em 165 centavos de dólar por bushel.

Os descontos, valores negativos para os diferenciais de porto de Paranaguá, no caso do vencimento maio que é onde focamos a nossa análise ficaram mais concentrados entre os meses de março e abril de 2021.

Qual a razão pra ter ficado negativo? A principal delas é o fato de que a safra passada foi recorde, havia uma grande oferta de soja do Brasil naquele período entre março e maio, quando os descontos em relação a Chicago foram mais significativos. A safra de soja 2020-21 foi de mais de 138 milhões de toneladas, um recorde.

CD: Alessandra, e a demanda pela soja, é outro fator que influenciou estes dois cenários?

AM: Sem dúvida, Camila, neste período de valores negativos no paper de Paranaguá a China fazia aquilo que o mercado chama de “barrigada”, quando as compras ficam represadas e depois acabam se concentrando num período mais adiante, que no caso, foram os meses de junho e julho do ano passado. A China é a maior compradora de soja do mundo e muitas vezes, estrategicamente, ela se retira do mercado para comprar mais à frente, em período em que espera maior oferta de soja do Brasil, da Argentina e dos Estados Unidos, com isso esperando obter preços mais baixos.

CD: Alessandra, e neste período mais recente, neste ano, como você avalia o comportamento dos prêmios da soja em Paranaguá, devem continuar elevados?

AM: Este ano os prêmios devem continuar pressionados, até caíram um pouco neste início de abril, mas dificilmente devem voltar para a casa dos 60/70 centavos de dólar por bushel para os vencimentos de 2022, isso só deverá ser visto para 2023.

O que ocorre é que além da safra menor, a demanda chinesa também vem sendo muito pontual, em função do lockdown em diversas regiões por lá, suspensão de atividades de algumas esmagadoras, vendas de reservas próprias por parte dos chineses.... o que se espera é que em junho-julho haja uma retomada das compras da China, o que poderia pressionar prêmios para cima.

Mas uma alta muito expressiva também não é o cenário mais provável. Tem um fator recente que é o aumento da taxação na Argentina, as chamadas retenciones, que antes eram de 33pc para a soja em grão e de 31pc para o farelo e o óleo. Agora a taxa mais alta está sendo aplicada a todo o complexo, portanto, pode viabilizar mais exportações de soja em grão por parte da Argentina, que entra como mais um competidor do Brasil neste mercado da soja. Enfim, são vários fatores, tem a safra norte-americana que está começando a ser plantada agora, tem eleição no Brasil influenciado o câmbio, então podemos esperar muita emoção nestes prêmios da soja do Brasil, sem dúvida.

CD: Alessandra, queria abordar um outro tema com você, que é a questão logística na agricultura. Você mencionou o custo logístico para o mercado agrícola brasileiro, tanto para exportação quanto para o mercado doméstico... E aí o frete rodoviário é um ponto muito importante, não é mesmo?

AM: Sim, Camila, o custo do frete é um ponto acompanhado sempre de perto em toda a cadeia agrícola. É muito importante, por exemplo, para somar ao custo das commodities na origem e comparar ao diferencial de porto para avaliar se com esse custo total há paridade de exportação para aquele produto naquele momento.

Por isso as rotas voltadas para exportação são cruciais. No relatório Argus Brasil Grãos e Fertilizantes nós acompanhamos nove rotas importantes para exportação a partir de algumas cidades de Mato Grosso. Por exemplo, saindo de Sorriso temos três rotas, uma para Santos e duas para pontos de transbordo, sendo uma rumo ao Arco Norte, até a hidrovia em Miritituba, e outra até a ferrovia em Rondonópolis.

A partir de Rondonóplis, temos os preços semanais dos fretes até os portos de Santos e de Paranaguá.

CD: E como estão os valores do frete rodoviário de grãos?

AM: Vimos alguns aumentos recentemente, impulsionados principalmente pela alta nos combustíveis. Mas já começamos a ver algum arrefecimento, com a redução da demanda por transporte após o fim da colheita de soja. Por exemplo, na semana passada, as rotas partindo de Sorriso e de Sinop, em Mato Grosso, com destino ao Arco Norte, até o ponto de transbordo para a hidrovia em Miritituba, no Pará, caíram em média R$5 por tonelada e R$10 por tonelada, cada uma.

É importante citar também a relação entre o frete de grãos e o frete de fertilizantes. Num cenário de funcionamento normal do mercado, quando o frete de grãos está mais alto e no auge da demanda, é possível ver queda no valor de frete de fertilizantes, já que os caminhoneiros vão voltar para o campo para transportar mais grãos de qualquer forma.

Mas nem sempre o mercado funciona de forma tão simples assim e outras variáveis entram na equação. Por isso também é importante ver o que acontece no frete rodoviário de fertilizantes. Além das nove rotas de fretes de grãos, a Argus acompanha também 18 rotas de frete de fertilizantes.

No momento, estamos vendo o fim da colheita de soja, o que diminui a demanda pelo transporte e acaba reduzindo o preço do frete para as rotas de exportação. Mas essa queda poderia ser ainda maior se a demanda por transporte de fertilizantes estivesse mais aquecida, o que não está acontecendo.

Nas últimas semanas temos visto preços estáveis ou em queda no frete de fertilizantes, com demanda mais baixa em alguns lugares e menos volumes disponíveis para carregamento nos prinipcias portos do país.

CD: Alessandra, muito obrigada pelas informações, vamos seguir acompanhando de perto tudo o que acontece nesse mercado.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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