Falando de Mercado: Brasil deve cortar uso de MOP em maior proporção do que N e P

Author Argus

Produtores brasileiros devem reduzir o uso de cloreto potássio na safra 2022-23 em maior proporção do que fosfatados e nitrogenados, em um cenário de aumento dos preços globais de fertilizantes e de oferta global mais restrita.

Consenso do mercado aponta para redução de 10-15pc ante as 45,8 milhões de t entregues em 2021.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Renata Cardarelli, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre as discussões quanto à redução no uso de fertilizantes para a safra brasileira 2022-23.

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Transcript

Camila Dias: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, diretora da Argus no Brasil. No episódio de hoje, converso com Renata Cardarelli, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre as discussões quanto à redução no uso de fertilizantes para a safra brasileira 2022-23. Bem-vinda, Renata.

Renata Cardarelli: Olá, Camila, obrigada. É um prazer estar aqui.

CD: Renata, o Brasil é um país altamente dependente da importação de fertilizantes. Com a situação na Ucrânia e a alta dos preços dos fertilizantes, qual a perspectiva para o consumo de fertilizantes na safra brasileira 2022-23?

RC: As entregas realizadas em 2021 somaram 45,8 milhões de t, alta de 13pc ante as 40,5 milhões de t entregues em 2020, segundo a Associação Nacional para a Difusão de Adubos, a Anda. As importações de fertilizantes no ano passado subiram em 19,3pc para 39,2 milhões de t, respondendo por 85,5pc do total de entregas. A produção doméstica de fertilizantes aumentou 7,3pc em 2021, mas continua sendo uma parcela pequena das entregas, totalizando 6,9 milhões de t. Antes do conflito na Ucrânia, a estimativa para 2022 é que as entregas finais deveriam ficar entre 46,5 e 47,5 milhões de toneladas. Mas, desde então, participantes do mercado acreditam que as entregas recuarão na comparação com 2021. Algumas perspectivas mais pessimistas falam em recuo de 20-25pc nas entregas. Mas o consenso do mercado é de que as entregas devem cair em torno de 10-15pc para cerca de 40 milhões de t.

CD: Você mencionou que antes da situação na Rússia-Ucrânia, a perspectiva era de aumento das entregas de fertilizantes em 2022. Qual a importância dos fertilizantes de origem russa para o mercado brasileiro?

RC: A Rússia é importante fornecedora de fertilizantes para o Brasil. Cerca de 30pc das 5,1 milhões de t de MAP 11-52 importadas pelo Brasil em 2021 foram entregues pela Rússia. Em relação à ureia granulada, a Rússia respondeu por quase 18pc das importações brasileiras em 2021. Para o MOP, as origens russa e bielorrussa somaram quase 50pc das importações brasileiras em 2021. Mas com a Rússia excluída do sistema global de pagamentos Swift e a logística a partir do Báltico cada vez mais cara e incerta, agricultores brasileiros têm repensado suas estratégias – e cortar o uso de cloreto de potássio está entre elas.

CD: Pensando nessa perspectiva de queda de 10-15pc, algum nutriente deve ser reduzido em maior proporção?

RC: Sim, Camila, uso de cloreto potássio deve ser reduzido em maior proporção do que fosfatados e nitrogenados na safra 2022-23, devido à sua capacidade de permanecer no solo por um período prolongado. Produtores de soja em Mato Grosso podem reduzir em cerca de 30pc a aplicação de MOP na safra de soja 2022-23. O segundo nutriente que os agricultores brasileiros devem considerar reduzir são os fosfatados. Em Mato Grosso, agricultores devem reduzir a aplicação de fosfatados em cerca de 25pc. Participantes de mercado informam que seria possível cultivar até duas safras com menos fosfatados do que o normal, com pouco efeito sobre a produtividade.

CD: Interessante, Renata, essa redução de cloreto de potássio pode ser feita em todas as áreas agricultáveis?

RC: Na verdade, não, Camila. A expectativa é que os agricultores realizem análises agronômicas para calcular a quantidade de cloreto de potássio disponível no solo antes de tomar a decisão sobre quanto do nutriente será usado em cada área. A alternância de culturas é uma forma de otimizar a retenção de cloreto de potássio no solo. Para cultivar soja, os agricultores brasileiros geralmente precisam de, em média, 100kg/hectare de MOP. Ao plantar milho e gramíneas na mesma área, o solo produz cerca de 200 kg/ha de cloreto de potássio. Isso significa que após uma boa safra de milho, os agricultores podem aproveitar as condições favoráveis do solo e usar menos MOP, enquanto os agricultores que não alternam as culturas terão menos margem para reduzir a aplicação.

CD: Muito interessante falarmos em redução de fertilizantes para o Brasil, considerando que o solo brasileiro é pobre em nutrientes, Renata. Esse tipo de discussão também está em pauta na Argentina, por exemplo, que é o segundo maior produtor agrícola da América do Sul?

RC: Verdade, Camila, você tem razão, essa é uma questão interessante. A experiência brasileira de redução do uso de fertilizantes é diferente da vizinha Argentina. O solo brasileiro é historicamente pobre, enquanto o solo argentino é historicamente rico em nutrientes. Mas, já que estamos falando de Argentina, vou aproveitar para citar uma das maiores referências culturais do país, Mercedes Sosa, que cantava: Todo cambia, ou seja, tudo muda. Ao longo dos anos, agricultores brasileiros usaram uma grande quantidade de fertilizantes, enquanto os agricultores argentinos geralmente usam cerca de 50pc menos fertilizante do que o solo realmente precisa. Isso significa que seus solos acumulam menos reservas de nutrientes, sugerindo que a Argentina tem menos margem para cortar suas importações de fertilizantes do que o Brasil.

CD: Nós falamos de redução de fosfatados e de cloreto de potássio para a soja. E com relação aos nitrogenados?

RC: O nitrogênio não é necessário para o cultivo da soja, mas geralmente os agricultores usam cerca de 20kg/ha. Uma adubação sem nitrogênio seria feita com TSP e SSP, que carecem do nutriente. Mas decisões de compra dos agricultores são feitas de acordo com as condições de mercado e normalmente os agricultores optam por usar MAP 11-52, NPs 12-46 ou 11-40. O Brasil ainda está em período de entressafra em relação às compras de nitrogenados para a safra de milho. Participantes de mercado afirmam que não será possível reduzir a quantidade de nitrogenados utilizada no cultivo do milho, pois a ureia granulada volatiliza e, portanto, o solo não possui nenhuma reserva desse nutriente.

CD: Muito obrigada, Renata.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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