Falando de Mercado: Maior prazo de entrega de diesel e diversificação de origens

Author Argus

Desde o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, importadores lidam com a limitação de diesel disponível para embarque na costa do Golfo Americano e buscam produto em fontes como Golfo Pérsico, oeste da África e Índia, que requerem prazos de entrega mais longos.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Gabrielle Moreira, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis. Elas conversam sobre o prolongamento dos prazos de entrega e a ampliação na diversificação das origens do combustível.

Fique por dentro de tudo o que acontece no mercado de combustíveis

Transcript

Camila Dias: Olá. Bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou diretora da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Gabrielle Moreira, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis, sobre o prolongamento dos prazos de entrega de diesel importado pelo Brasil e a maior diversificação na origem do combustível. Bem-vinda, Gabrielle.

Gabrielle Moreira: Obrigada, Camila. É um prazer estar aqui mais uma vez.

CD: Gabrielle, desde o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, importadores lidam com a limitação de diesel disponível para embarque na costa do Golfo Americano, principal origem do produto destinado ao Brasil. Quais outros fornecedores estão cobrindo essa lacuna dos Estados Unidos?

GM: É isso mesmo Camila, parte do suprimento da Europa vinha da Rússia e por causa do conflito no leste europeu, que já dura pouco mais de 40 dias, a origem desse suprimento se voltou para os Estados Unidos. Como os Estados Unidos estão enviando mais volumes para a Europa, a quantidade de diesel disponível para mandar para o Brasil consequentemente diminui. Esse movimento fez com que importadores brasileiros buscassem fontes alternativas ao Golfo Americano, como o oeste da África e o Golfo Pérsico, que são duas regiões que vem ganhando destaque.

CD: Mas o oeste africano e o Golfo Pérsico não são novidades na cartela de fornecedores do Brasil. Por que só agora apresentam uma participação mais expressiva?

GM: Para evitar condições adversas de mercado quando o produto chega ao Brasil, importadores sempre priorizam prazos de entrega mais curtos. E como a costa do Golfo Americano é uma origem mais próxima que outras regiões, as negociações que partem de lá têm preferência. A questão é que os refinadores de lá agora estão recebendo muito mais demanda do mercado europeu, pela questão do conflito, como já mencionamos.

Se formos considerar o prazo do frete entre o Golfo Americano e portos da costa brasileira, temos um intervalo entre 15-20 dias. Partindo da África, do Golfo Pérsico e da Índia – que também tem enviado diesel para cá – podemos contabilizar uns 30 dias.

Para complicar ainda mais a situação no Golfo Americano, na última semana também soubemos de tenders da estatal argentina Cammesa, além de pedidos do México e da África do Sul. Pelo que apuramos com as nossas fontes, a demanda do México não fugiu muito do comum, embora seja mais um querendo uma fatia do mesmo bolo, mas esses pedidos da África do Sul não estavam no radar. Os compradores sul-africanos foram a mercado para compensar o suprimento de uma refinaria do país que teve a produção interrompida.

Essa última semana não foi nada fácil para o importador. Desde março, na verdade, refinadores do Golfo avisam que só devem ter produto disponível na segunda quinzena de abril. Enquanto isso, o mercado aqui precisa consumir diesel a conta gotas.

CD: Vimos uma quantidade bem menor de navios descarregando diesel em março, será que veremos uma melhora em abril?

GM: Sim, mas só a partir da segunda quinzena e acredito que de forma bem gradual. Essas cargas que chegarão na segunda quinzena de abril foram fechadas lá atrás, entre o meio e o fim de março. Agora a expectativa é de que os refinadores americanos tenham mais produto na segunda quinzena de abril e isso só deve ter um efeito mais consistente para nós a partir do início de maio.

CD: E até lá, o mercado doméstico continua abastecido ou será que o mercado precisa ficar em alerta para uma eventual crise?

GM: Não acho que temos uma crise por enquanto. Embora o mercado de diesel esteja lidando com uma série de entraves, não classificaria o atual cenário como uma crise de abastecimento. Mas é verdade que não tem tanto diesel disponível assim. Para você ter uma ideia, vimos aquisições de diesel nacionalizado no porto de Santos a valores próximos a mil reais acima dos preços do diesel na refinaria de Paulínia, nas nossas apurações do indicador FCA. É um valor alto e até pouco tempo nem era um nível considerado por compradores. Mas na hora que aperta, a distribuidora vai pagar o que precisa. Muitas de nossas fontes falam que ficar seco, sem produto, é sempre a última opção. Antes disso, vem o prejuízo que as distribuidoras já estão contando que terão.

CD: Você falou de compras em Santos, mas e Paranaguá e outras praças, estão com folga de suprimento?

GM: Seria menos complicado se os tanques estivessem secos só em Santos. Aliás, parte dessas compras a mil reais no porto paulista foi para escoar produto para a região Centro-Oeste, para as movimentações das safras de soja e milho. Teve volume enviado para Paranaguá também. E lá no Paraná, ficamos um tempo sem escutar oferta de venda de diesel importado. Até ouvimos uma negociação nesta semana, mas foi algo pontual. Até o fim de março, comprador estava aflito atrás de combustível. Agora com a virada de mês e a renovação dos bombeios da Petrobras, a situação fica um pouco mais tranquila, mas ainda assim a previsão é um mês de abril também apertado de produto. Teve vendedor chateado porque não tinha diesel para vender nas últimas semanas, com comprador ligando todos os dias querendo produto, mas a arbitragem fechada não ajudou fechar carga e aí... fica todo mundo SEM ver navios.

Ninguém espera que seja um ano fácil para o mercado de combustíveis, ainda mais em ano eleitoral e com a inflação corroendo o poder de compra da população. Por enquanto, o câmbio até que tem aliviado, mas ainda tem muita água para rolar e muito assunto para podcasts.

CD: Obrigada, Gabrielle. Vamos continuar acompanhando de perto os desdobramentos do mercado de diesel no Brasil.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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