Falando de Mercado: Preços de NPK devem desestimular compras brasileiras no início de 2022

Author Argus

Os preços de fertilizantes em níveis historicamente altos, a oferta restrita e relação de troca desfavorável para os agricultores devem levar os importadores brasileiros a comprar volumes menores no início de 2022 e com mais regularidade ao longo do ano, para atender ao mercado doméstico, ao mesmo tempo em que gerenciam os riscos financeiros.

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Renata Cardarelli, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre os destaques do mercado brasileiro de fertilizantes em 2021 e as perspectivas para 2022.

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Transcript

CD: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil. No episódio de hoje, converso com Renata Cardarelli, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre os destaques do mercado brasileiro de fertilizantes em 2021 e as perspectivas para 2022.

RC: Olá, Camila. É um prazer estar aqui.

CD: Renata, quais são as perspectivas para os preços dos fertilizantes no Brasil no início de 2022?

RC: As perspectivas para nitrogenados, fosfatados e cloreto de potássio são praticamente as mesmas para o início de 2022 em relação ao mercado brasileiro, Camila. Os preços em níveis historicamente altos, a oferta restrita e relação de troca desfavorável provavelmente aumentarão os preços dos fertilizantes em todo o mundo, levando os importadores brasileiros a comprar volumes menores no início de 2022. Os importadores devem comprar em lotes menores e com mais regularidade ao longo de 2022 para atender ao mercado doméstico, ao mesmo tempo em que gerenciam os riscos financeiros. Os agricultores tendem a reduzir as compras de fertilizantes para o próximo ciclo e devem realizar avaliações agronômicas para garantir os níveis de nutrientes necessários para o plantio.

CD: Os agricultores brasileiros geralmente compram fertilizantes por meio de relação de troca. Você pode explicar o que isso significa, Renata, e qual é o efeito do aumento do preço dos fertilizantes nas relações de troca?

RC: A relação de troca é a relação entre o preço de uma saca de grão e uma tonelada de insumos - ou seja, sementes, agrotóxicos e fertilizantes - usados para o cultivo da safra. As relações de troca ficaram menos atraentes para os agricultores, que agora precisam de mais sacas de grãos para comprar uma tonelada de fertilizantes nas cidades mato-grossenses de Sorriso e Rondonópolis. As relações de troca para os agricultores brasileiros provavelmente serão desfavoráveis durante o primeiro trimestre de 2022. Citando os Beatles: Yesterday, all Brazilian fertilizer importers’ troubles seemed so far away, now it looks as though they are here to stay. Ou seja, ontem, todos os problemas dos importadores brasileiros de fertilizantes pareciam distantes, mas agora parece que esses problemas vieram para ficar, pelo menos a curto prazo, Camila. Para os produtores, isso significa: relações de troca desfavoráveis e altos preços de fertilizantes.

CD: Agora, vamos falar mais sobre a ureia granulada, Renata. Os preços de ureia subiram nos portos brasileiros em 2021. Há algum sinal de alívio no início de 2022?

RC: É verdade, Camila, a ureia granulada subiu $546/t em 2021 nos portos brasileiros, saindo de $284/t cfr no fim de dezembro de 2020, para $830/t cfr no fim de dezembro de 2021. É fato que a maioria da produção de ureia prevista para janeiro de 2022 ainda não foi vendida, mas os fundamentos não indicam que os preços devam cair a curto prazo.

CD: Interessante, Renata. Quais fundamentos você diria que são determinantes para manter os preços da ureia granulada em níveis elevados?

RC: Definitivamente, preços de matéria-prima, Camila. O aumento dos preços de energia elevou os custos do carvão e do gás natural, matérias-primas usadas para sintetizar a ureia, levando ao fechamento de algumas unidades de produção na Europa. Os preços elevados da ureia foram impulsionados ainda mais pela oferta restrita da China, que impôs restrições às exportações de nitrogenados.

CD: Os fundamentos também são essenciais para manter os preços do MAP 11-52 em níveis historicamente altos?

RC: Com certeza, Camila. Os preços de MAP 11-52 avaliados pela Argus subiram $450/t nos portos brasileiros desde o início de 2021 para $858/t cfr, no fim de dezembro. Existem dois países essenciais nesse mercado que estão influenciando os preços globais: Rússia e China. E, claro, o Brasil importa muito MAP 11-52 de ambos. O Marrocos foi responsável por 39pc de todas as importações de fertilizantes do Brasil em 2021, seguido justamente pela Rússia, com 30pc, Arábia Saudita, com 14pc, e, finalmente, a China, com 11pc. Mas vamos voltar um pouquinho, Camila. China e Rússia têm imposto restrições às exportações. As exportações russas de fertilizantes à base de fosfatados ficarão restritas a 5,35 milhões de toneladas até o fim de maio de 2022. As restrições chinesas devem durar até junho de 2022. Mas, é importante dizer, as restrições podem ser suspensas para alguns fertilizantes mais cedo.

CD: Isso significa que haverá menos oferta global. Como isso afetaria o Brasil?

RC: Pois é, Camila, com isso, o Brasil é obrigado a competir com importadores dos Estados Unidos, especialmente por cargas provenientes da Arábia Saudita, Marrocos e México. A Arábia Saudita e o México foram os dois maiores fornecedores de MAP 11-52 dos EUA em 2021. A Arábia Saudita respondeu por 24pc das importações norte-americanas e o México, por 22pc. Os preços praticados nos portos brasileiros e norte-americanos serão cruciais para os produtores de fertilizantes que atuam nesses mercados. Resumindo, Camila, a oferta restrita e a competição global entre os importadores levantam questões sobre quanto os agricultores estarão dispostos a pagar por fertilizantes.

CD: Agora vamos falar sobre o cloreto de potássio. Os preços de MOP também subiram em 2021 nos portos brasileiros e agora estão em um nível historicamente alto. Qual é a tendência agora?

RC: Os fundamentos globais apontam para um aumento de preços nos portos brasileiros a curto prazo devido à oferta restrita, já que o terceiro maior fornecedor global de potássio, a Bielorrússia, enfrenta sanções dos EUA. As últimas sanções anunciadas pelo Departamento do Tesouro dos EUA definem 1º de abril de 2022 como limite para as empresas norte-americanas encerrarem seus negócios com a bielorrussa BPC, sua subsidiária Agrorozkvit e qualquer empresa em que ambas detenham uma participação de mais de 50pc.

CD: Mas o Brasil também anunciou sanções à Bielorrússia?

RC: Não, Camila, o Brasil não anunciou nenhuma sanção à Bielorrússia, mas as sanções impostas pelo governo dos Estados Unidos podem ter um efeito extraterritorial. Isso porque as sanções excluem as empresas bielorrussas de negociar no sistema financeiro dos EUA. Os importadores brasileiros com sede nos EUA e com políticas de conformidade rígidas, as famosas políticas de compliance, também podem ser obrigados a interromper as compras de empresas bielorrussas.

CD: Além dos fundamentos e questões específicas do cenário brasileiro, existem outros fatores que poderiam influenciar a demanda por fertilizantes?

RC: Na verdade, existem. Vale ressaltar que existem projetos em andamento que podem aumentar a oferta de fertilizantes. Por exemplo, existem minas de potássio na Bielorrússia e no Laos que concluíram o comissionamento e podem adicionar 1,25 milhão/t no fornecimento global. Além disso, duas novas fábricas de produção de ureia na Índia devem iniciar as operações nos próximos meses. Mas a questão é se isso será suficiente para aliviar a oferta global. Restrições à exportação, sanções políticas, taxas de vacinação variadas entre os países e o ritmo distinto de recuperação da Covid-19 em diferentes países ditam o quanto o Brasil terá que competir com outros compradores globais de fertilizantes. Outra onda de Covid-19 também pode ter um impacto negativo no setor agrícola do país afetado, seguido por uma redução no consumo de fertilizantes. Citando Yesterday, dos Beatles, mais uma vez, Camila: there is a pandemic hanging over the world. Ou seja, há uma pandemia que paira sobre o mundo, e o ritmo de recuperação também ditará o ritmo de desenvolvimento global, que afeta diretamente as indústrias de alimentos e fertilizantes. Vamos lembrar que cerca de 80pc da produção mundial de soja é destinada à pecuária, setor altamente dependente da solidez econômica, medida pela taxa de desemprego, consumo e desenvolvimento dos países.

CD: Muito obrigada, Renata.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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