Falando de Mercado: Perspectivas para as exportações de soja e milho do Brasil em 2022

Author Argus

O tempo seco na região Sul do Brasil vem reduzindo as projeções para a safra de soja 2021-22. No mercado do milho, apesar das perdas na safra de verão, a expectativa segue otimista para o ciclo de inverno.

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Alessandra Mello, editora-assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre as expectativas para as exportações de soja e milho em 2022.

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Transcript

Camila Dias: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, chefe de redação da Argus Media no Brasil. No episódio de hoje eu converso com Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes sobre as perspectivas para as exportações de soja e de milho em 2022. Alessandra, bem-vinda.

Alessandra Mello: Obrigada, Camila, bom estar de novo no Falando de Mercado.

CD: Alessandra, as exportações brasileiras de soja em 2021 mais uma vez bateram recorde... já é possível dizer que este crescimento deve continuar este ano?

AM: Olha Camila, até o momento, tudo indica que sim. Mas sem dúvida ainda há muita incerteza no mercado, como o tamanho da produção nesta safra 2021-22, o apetite da China, que é o principal comprador mundial de soja e mesmo fatores como a nossa taxa de câmbio que sempre influenciam nos preços e diferenciais de porto. Antes de falar mais sobre 2022, vou só relembrar o cenário que nós tivemos em 2021. Foi o terceiro ano consecutivo de exportação recorde. O volume embarcado de janeiro a dezembro foi de 86,1 milhões de toneladas, alta de 3,8pc. Em receita o crescimento foi maior, um aumento de 35,3pc em relação à 2020, para $38,6 bilhões. E porque este resultado foi tão bom? Por vários motivos, primeiro foi uma safra recorde, apesar de ter sido plantada e colhida mais tarde, devido ao atraso nas chuvas, as produtividades foram boas na maioria das regiões. E segundo porque a janela de exportação de soja brasileira foi se estendendo, nós embarcamos muita soja nos últimos meses do ano, período em que geralmente prevalece a soja norte-americana no mercado mundial. Isso porque a soja do Brasil em diversos momentos ficou mais competitiva do que aquela produzida nos Estados Unidos.

CD: Interessante... e este cenário pode se repetir em 2022?

AM: Camila, se esta pergunta fosse feita em setembro do ano passado a resposta seria, claro, com certeza. Mas muita coisa vem mudando nos últimos meses. O Brasil ampliou bastante a área plantada com soja nesta safra, segundo a Conab, são 40,4 milhões de hectares, 3,8pc a mais que a safra anterior. E as chuvas chegaram cedo, animando os produtores, que esperavam altas produtividades. O problema é que a partir de novembro a chuva começou a ficar muito irregular na região sul do Brasil, com algumas áreas do Paraná e do Rio Grande do Sul ficando períodos de até 50 dias sem chuva. Com isso, quase toda a semana temos visto novas estatísticas sobre a safra brasileira. E já existe um consenso entre os analistas de que a produção de soja na safra 2021-22 não será mais recorde, pode ficar assim abaixo da safra anterior. Antes se falava em 144 milhões de toneladas, agora a previsão é no máximo 136 milhões de t, há consultorias que já falam em 131 milhões de toneladas, bem menos que as 137 milhões de toneladas da safra 2020-21. isso compromete o recorde nas exportações também? Não necessariamente, mas reduz a oferta de soja para exportar. Bom a projeção mais recente da Conab divulgada no dia 11 de janeiro, prevê a exportação de 89,3 milhões de t de soja em 2022, para o esmagamento ficariam 48,7 milhões de t, aí tem uma pequena parcela que vai para semente ou outros usos e o estoque final seria de apenas 3,8 milhões de t, quer dizer bem apertado, então essa quebra de safra que atinge a região sul, e a parte sul de Mato Grosso do Sul pode fazer muita diferença ainda. O que salva o desempenho do setor no Brasil é o Mato Grosso, maior produtor do país, disparado, que mais uma vez vai colher uma excelente safra. O estado teve problemas com excesso de chuva, prejudicando um pouco a qualidade, mas nada que prejudique de forma significativa o resultado das exportações.

CD: Alessandra, e os prêmios, como devem se comportar? Na Argus nós temos a cobertura diária do chamado paper market da soja em Paranaguá, qual o efeito deste cenário que você descreveu nos diferenciais de porto?

AM: Bom, como eu falei a exportação este ano por enquanto ainda pode sim ser recorde, ficar acima do ano passado, mas provavelmente ficará abaixo de 90 milhões de toneladas em função dos problemas climáticos com a safra. Nesse cenário, o paper market de soja de Paranaguá, que é um diferencial em relação à Bolsa de Chicago (CBOT), deve ter igual ou maior liquidez ao longo do ano. O paper market de Paranaguá é um mercado de diferencial portuário que representa uma espécie de correção entre os preços internacionais da soja e os que devem ser aplicados ao produto brasileiro. Quando a gente esperava uma super safra, eu ouvi de muitos participantes de mercado que a tendência para os preços da soja em Chicago era de queda e que por isso os prêmios subiriam. Mas o que se viu agora em janeiro é que a preocupação com o clima era tão grande que a soja subiu de patamar, passou de 14 dolares o bushel e os prêmios também chegaram a subir até 15 cents por bushel pra diversos vencimentos na mesma semana. Então está bem difícil prever o que vai ocorrer com os prêmios daqui para frente. O certo é que de novo veremos muita volatilidade no mercado. Há perdas significativas na Argentina, por exemplo, que colhe bem depois do Brasil, até lá cada notícia sobre clima bom ou ruim para as lavouras, vai influenciar nos preços e nos prêmios. Além disso, no Brasil é ano eleitoral, época em que a taxa de câmbio também costuma ter muita volatidade, e a cotação do real em relação ao dólar é outro item fundamental pra definir se os diferenciais de porto ficam mais positivos ou até negativos, como se viu no primeiro semestre de 2021.

CD:

Alessandra, e o mercado do milho, quais são as perspectivas na exportação este ano?

AM: No milho a questão climática também preocupa, mas a expectativa ainda é de uma safra total maior que no ano passado e de exportações mais altas também. E é fácil explicar o motivo. A principal safra de milho no Brasil é a chamada segunda safra, que antes era conhecida como safrinha, que ocorre de janeiro a junho, principalmente e amplamente cultivada no Centro-Oeste e no Paraná. No ano passado a produção desta segunda safra foi uma tragédia porque o milho havia sido plantado mais tarde, quando as lavouras precisavam de chuva já havia iniciado o período de seca nas regiões produtoras e ainda teve dois episódios de geada que prejudicaram demais a produtividade. Por isso sobrou pouco milho para exportar. As exportações de milho em 2021 fecharam em 20,4 milhões de t, o menor volume dos últimos nove anos. No ano anterior o Brasil tinha exportado 34,9 milhões de t.

Agora em 2022, a segunda safra começou a ser plantada dentro da janela ideal e não há previsão de problemas climáticos severos para os próximos meses que possam causar um prejuízo semelhante ao que ocorreu no ano passado. Por isso a Conab está mantendo a previsão de colher 86,3 milhões de t milho na segunda safra, sendo que ano passado foram colhidas menos de 61 milhões de t. Com isso, é possível que o Brasil exporte em 2022 36,7 milhões de t, patamar bem mais próximo ao que vinha sendo registrado nos anos anteriores a esta quebra de safra.

CD: E como devem se comportar os preços e os prêmios?

AM: Bom, nós vamos ter situações bem distintas no primeiro e no segundo semestre. É que a safra de milho de verão ou primeira safra, como é chamada, foi bastante prejudicada pelo clima. Embora a Conab tenha previsto 24,8 milhões de t para o milho verão, os participantes de mercado já reduziram as projeções para 21,6 milhões por causa do tempo seco. Com isso, no primeiro semestre, enquanto a segunda safra ainda estará se desenvolvendo no campo, a tendência é de preços internos mais altos para o milho, o que acaba prejudicando os negócios na exportação. Já no segundo semestre, pode chegar ao mercado uma excelente safra de inverno, e aí as exportações são favorecidas e os preços podem ficar em patamares um pouco mais baixos, o mesmo ocorrendo com os prêmios como por exemplo, o cargo market de Santos Tubarão que a Argus acompanha. De qualquer forma, precisamos ficar muito atentos com o que vai ocorrer na Argentina, saber se o La Nina também vai comprometer fortemente a produção por lá. Isso porque no início da safra, se esperava uma produção recorde, e os participantes de mercado esperavam uma forte competição entre Brasil e Argentina nas exportações de milho ao longo de 2022, outro fator que poderia colocar uma pressão de queda sobre os prêmios.

CD: Alessandra, pra finalizar, uma última dúvida, a exportação de milho podia ter sido até pior em 2021, não? O que aconteceu no final do ano?

AM: É verdade Camila, em meados de 2021 muitos diziam que a exportação de milho no Brasil não ia passar de 15 milhões de toneladas, até porque naquele momento as industrias de proteína animal no país aumentaram muito as importações de milho porque não valia a pena pagar o preço tão elevado que estava sendo praticado no mercado brasileiro. Mas no último trimestre do ano veio o que o mercado chamou de tempestade perfeita, que aumentou muito os embarques em novembro e dezembro. Foi a combinação de um atraso na colheita no Mar Negro, problemas com a seca na Argentina e dificuldades logísticas nos Estados Unidos após a passagem do furacão Ida. Esses fatores tornaram o milho brasileiro mais competitivo para compradores do Marrocos, do Egito e do Norte da África. Esses embarques foram feitos através dos portos do norte do Brasil, que vêm ganhando espaço nas exportações brasileiras, embora os portos de Santos e Tubarão ainda respondam por quase 43pc dos embarques de milho.

CD: Tá certo, muito obrigada, Alessandra, até a próxima!

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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