Falando de Mercado: Queda na demanda eleva estoques brasileiros de MOP

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Os altos preços dos fertilizantes em 2022 tem reduzido a demanda brasileira por cloreto de potássio, com agricultores aguardando para concretizarem compras, elevando o volume de MOP estocado nos armazéns brasileiros.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Gisele Augusto, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre como esse atraso nas compras tem afetado nos preços e o movimento do mercado brasileiro.

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Transcript

CD: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, diretora da Argus no Brasil. No episódio de hoje, converso com Gisele Augusto, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre os altos estoques de cloreto de potássio no Brasil. Bem-vinda, Gisele.

GA: Olá, Camila, obrigada. É um prazer estar aqui.

CD: Gisele, desde março deste ano temos acompanhado um maior interesse do mercado global em relação à disponibilidade de cloreto de potássio para importação. Por que vemos esse movimento?

GA: Camila, no primeiro trimestre deste ano, especialmente a partir de fevereiro, quando teve início o conflito entre Rússia e Ucrânia, o mercado global de fertilizantes ficou preocupado com a disponibilidadde para o fornecimento de cloreto para as safras 2022-23, considerando que a Rússia é um grande produtor e exportador do fertilizante.. Com o conflito, houve receio devido às sanções e questões logísticas que dificultam o escoamento do produto para diversos mercados compradores. Além disso, a demanda por produto de origens como Rússia, Canada e Israel já vinha alta desde os últimos meses de 2021, com países da União Europeia e Estados Unidos emitindo sanções contra produtos da Bielorrússia, outra grande exportadora do cloreto. Então houve uma preocupação quanto ao que aconteceria quando os estoques dos demais fornecedores, que são responsáveis por menores parcelas do mercado, fosse insuficiente para atender à demanda.

CD: Agora, falando especificamente sobre o Brasil, no início do ano os importadores e agricultores brasileiros estavam preocupadas com a possível falta de oferta de cloreto de potássio neste ano. Porém hoje estamos vendo estoques lotados e um excesso de MOP no mercado doméstico, o que mudou nos últimos meses?

GA: Primeiramente, o Brasil aproveitou o último trimestre de 2021 para fechar grandes volumes de cloreto com a produtora de fertilizantes bielorrussa BPC. Na época, a empresa já estava sob sanções de outros países, mas que não atingiam o comprador brasileiro, que pode aproveitar não só a alta disponibilidade como preços mais baixos para iniciar as compras de volumes para a safra seguinte. Muitos desses produtos estavam programados para chegar no primeiro trimestre, mas tiveram o fluxo de escoamento interrompido pelo início do conflito na Ucrânia. Então muitos volumes chegaram com atraso em março e, principalmente, em abril. Além disso, em março, muitos importadores brasileiros tomaram posição no mercado de cloreto, buscando garantir volumes para os meses seguintes. Porém, o aumento nos preços e a perspectiva de redução na aplicação fez com que os agricultores brasileiros recuassem e saíssem do mercado, esperando níveis mais baixos de preço e avaliando o volume necessário, o que fez com que as entregas ficassem acumuladas nos armazéns.

CD: Você citou um aumento nas entregas e uma busca de outros países por fornecedores alternativos à Rússia e Bielorrússia. Qual foi o aumento da importação brasileira e houve uma diversificação ou aumento no volume de outros fornecedores?

GA: Só em abril, o Brasil recebeu 1,26 milhão de tonelada de MOP, ou seja, 84pc acima da importação do ano passado para o mês. Desse total, o Canadá foi responsável por 30pc, elevando as exportações em cerca de 50pc. Logo após o início do conflito, o Brasil estabeleceu conversas diplomáticas com o Canadá para aumentar as importações do país, que já era o principal fornecedor individual.. O segundo maior exportador em abril foi a Rússia, também dobrando as suas entregas em relação ao ano passado. Por último, as entregas da Alemanha mais que triplicaram na comparação anual, respondendo por 12pc do mercado.

CD: No Brasil, por que a preocupação foi tão grande com a possibilidade de diminuição na disponibilidade de MOP?

GA: Camila, o Brasil depende muito de importação de fertilizantes, isso não é novidade. E o MOP é um nutriente usado em praticamente todas as culturas, ou seja, não afeta apenas um plantio. Além disso, Rússia e Bieolorrúsia juntos respondiam por metade das nossas importações de MOP no ano passado. Ou seja, qualquer problema para envio de produtos desses países poderia ter um impacto mais forte nas nossas importações.

CD: Nos meses anteriores ouvimos muito sobre maiores e melhores estudos de solo visando reduzir as aplicações na safra 2022-23. Esse movimento ainda está forte entre os agricultores com a aproximação do fim da janela de importação e plantio?

GA: Houve uma redução nos relatos de diminuição no volume de fertilizantes. Muitos agricultores perceberam que não sofreriam com uma falta de fertilizantes na dimensão que imaginavam em março. Produtores de milho em Mato Grosso ainda buscam reduzir a adubação da safra 2022-23. Enquanto isso, participantes de mercado da região do Matopiba esperam no mínimo uma estabilidade na aplicação, mas não descartam um aumento no volume, considerando que a expectativa é de aumento na área plantada.

CD: E quanto ao aumento dos estoques no país? Essa é uma questão específica do cloreto ou vemos o mesmo acontecer com outros macro fertilizantes? Como o mercado tem se posicionando diante disso?

GA: A alta nos níveis dos estoques tem sido reportada para todos os fertilizantes. A questão é que o maior volume é de cloreto de potássio e isso tem travado novas negociações. Por um lado, o agricultor vê armazéns lotados e está postergando as compras de volumes remanescentes para a safra 2022-23, esperando uma queda nos preços para fechar negócios. Já os importadores estão se mantendo fora do mercado por não terem onde armazenar novos carregamentos. Tem navios aguardando no porto pela liberação de espaço nos armazéns para atracar e descarregar, enquanto empresas com armazéns próprios estão passando seus navios na frente. Com isso, o mercado se mantém sem demanda e com preços estáveis. O que realmente tem preocupado os importadores é como será a retomada da demanda por esses volumes faltantes e quando ela vai ocorrer. A preocupação é se terá produto disponível para atender toda a demanda em um curto período, já que a capacidade de armazenagem brasileira não é grande, o que sugere que mesmo com estoques lotados, a tonelagem de produto disponível é baixa, e considerando que a janela de importação está fechando e como isso vai afetar os preços. A expectativa é que grande parte dos volumes seja importado da Rússia, já que a bielorrussa BCP declarou força maior nas exportações e o volume adicional disponibilizado pelo Canadá é pouco comparado ao uso brasileiro.

CD: Muito obrigada, Gisele.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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