Falando de Mercado: O mercado de SAF na América Latina

Author Argus

O mercado de combustível de aviação sustentável, também conhecido pelo acrônimo em inglês SAF, ainda é muito novo na America Latina.

Mas já existem projetos anunciados de produção na região. Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Josh Vence, gerente de desenvolvimento de negócios para América Latina na Argus. Eles falam sobre as perspectivas para esse mercado e os desafios da transição energética na região.

Fique por dentro de tudo o que acontece no mercado de SAF, acesse: https://www.argusmedia.com/pt/hubs/sustainable-aviation-fuels 

Transcript

Camila Dias: Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, eu sou diretora da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Josh Vence, gerente de desenvolvimento de negócios para a América Latina na Argus, sobre o mercado de combustível de aviação sustentável, tambem conhecido pelo seu acrônimo em inglês, SAF (sustainable aviation fuel). Bem-vindo, Josh.

Josh Vence: Obrigado, Camila, é um prazer estar aqui.

Camila: Josh, você acompanha, já há alguns anos, o desenvolvimento desse mercado de combustível de aviação sustentável na América Latina. Mas acho importante a gente começar explicando o que é o combustível de aviação sustentável e como esse mercado se desenvolveu nos últimos anos.

Josh: Sim, Camila, o combustível de aviação sustentável é isso mesmo, um combustível de aviação ou querosene feito a partir de matérias-primas sustentáveis, que quando misturado com o combustivel convencional ajuda na diminuição da emissão de gases de efeito estufa. Agora, existem várias tecnologias para produzir combustível de aviação sustentável, como por exemplo, o uso do etanol como matéria-prima, refinado para produzir o SAF e outros derivados, como a chamada nafta verde. A maioria da capacidade mundial até agora usa uma tecnologia conhecida como HVO/HEFA, que são acrônimos em inglês que descrevem as duas matérias-primas usadas neste processo de refino. O primeiro, o HVO, é o hidrotratamento de óleos vegetais. E HEFA é o hidroprocessamento de gorduras de origem animal.

Quem acompanha o mercado de biodiesel talvez conheça esta tecnologia porque é a mesma usada para a produção de biodiesel. Só que a produção de SAF ainda requer alguns passos a mais no processo de refino, e por isso o SAF é tipicamente mais caro do que o biodiesel.

Na America Latina o mercado de SAF ainda é muito novo, e não temos produção local de SAF na região, mas já existem alguns projetos previstos para produção.

Camila: Josh, conte pra gente um pouco sobre esses projetos.

Josh: Claro, temos dois grandes projetos para ficar de olho. O primeiro é o projeto chamado Omega Green da empresa ECB Group no Paraguai, que é liderada por investidores brasileiros. Este projeto usará a tecnologia de HVO para a produção de diesel renovável e SAF, e esta planta tem início de operações previsto para 2024/2025 e, quando estiver pronta, terá uma capacidade de 20.000 b/d.

Em maio, o presidente do Panamá anunciou o que é, até agora, o maior projeto do continente. O projeto é chamado Cidade Dourada (Ciudad Dorada em espanhol) e é um projeto em conjunto do governo do Panamá e investidores privados, incluindo a empresa SGP BioEnergy. Este projeto deve começar operações em 2024, segundo o anúncio do governo do Panamá, e terá uma capacidade de produção de 180.000 b/d. Uma produção gigante para um país tão pequeno como Panamá, o que indica que a maior parte dessa produção deve seguir para exportação. O interesante deste projeto é que vão usar infraestrutura existente de armazenagem do combustível marítimo, ou bunker, tanto na Costa Atlântica quanto na Pacífica do Canal do Panamá, nos portos de Colon e Balboa, respectivamente.

Estes são os primeiros 2 projetos anunciados, mas seguramente haverá mais.

Camila: Muito interessantes esses dois projetos. E no Brasil, teremos produção também?

Josh: No Brasil, o tema é um pouco complicado porque os investidores ainda estão esperando que o governo federal publique regulação clara para a produção de biocombustíveis avançados (advanced biofuels). E é por causa dessa falta de regulação e também pela facilidade de obter matérias-primas e energia elétrica a baixo custo que ECB Group decidiu construir a planta no lado paraguaio da fronteira com o Brasil, mas espera-se que a capacidade total da planta Omega Green siga para exportação, segundo o presidente da ECB Group, Erasmo Batttistella, numa entrevista publicada pela Argus. O mercado natural para o produto da Omega Green seria o mercado brasileiro, mas a capacidade dessa planta não consegue atender a toda a demanda por SAF no Brasil.

Então ainda precisaremos de mais volumes. O que o governo federal tem feito é estabelecer um mandato de mistura de SAF para companhias aéreas domésticas a partir de 2027. Não está claro ainda se esse mandato se aplica para aéreas internacionais também. O preocupante do mandato é que já se sabe que não haverá produto suficiente para o mercado e os preços possivelmente serão elevados, fazendo o cumprimento do mandato pelas aéreas uma coisa complicada. O Brasil é o maior mercado aéreo da América Latina, então este tema do mandato de SAF no Brasil é um tema muito importante para todas as companhias, tanto domésticas quanto internacionais que voam para destinos no Brasil.

Camila: Josh, além do Brasil e do Panamá, tem algum outro país com legislação pronta ou expectativa de produção de SAF?

Josh: Existem países ao redor da América Latina que estão em estágios diferentes. No México, por exemplo, que é o segundo maior mercado aéreo na região depois do Brasil, não existe legislação específica, nem projetos anunciados. E, apesar de ter fronteira com os Estados Unidos, e acesso ao maior centro de produção de SAF no continente pela fronteira com a Califórnia, não vemos produto californiano entrando no mercado mexicano. Isso acontece por causa dos incentivos domésticos nos Estados Unidos e pela falta de regulação no México. Mas o regulador mexicano ASA já está vendo o tema para incentivar projetos domésticos, como também a importação de produto SAF. Mesmo assim, as aéreas mexicanas já estão estabelecendo contratos de compra para o SAF nos EUA.

Na República Dominicana, já temos um quadro regulatório para a produção de biocombustíveis, mas ainda não temos investidores. E na Costa Rica, regulamentação está sendo estabelecida pelo governo atualmente.

Camila: Realmente, Josh, cada país da região num estágio diferente no que diz respeito ao SAF. Para finalizar, quero te fazer uma pergunta sobre transição energética de forma mais ampla. Para os países na região, incluindo o Brasil, que estão preocupados com a transição energética, quais seriam, na sua opinião, os pontos de partida a considerar?

Josh: Boa pergunta, Camila. Eu acho que tudo começa com um ambiente regulatório claro e realista, que seja adaptado para as particularidades de cada país. Se mandatos de mistura são considerados, tem que levar em conta a oferta atual e futura para não criar cenários onde fica difícil, ou em alguns casos, impossível de cumprir de forma eficiente e com preços acessíveis. Existem vários modelos para incentivar a produção de SAF que podem ser usados como inspiração, e nosso time de consultoria na Argus pode ajudar com muitos destes temas, especialmente no que diz respeito a valorização e comercialização de SAF. A Argus também publica preços de SAF na California, nos Países Baixos, e em Singapura que podem ser usados para contratos de compra e venda.

Camila: Excelente, Josh. Esse tende a ser um tema cada vez mais presente nas discussões envolvendo transição energética. E a Argus, é claro, estará acompanhando tudo bem de perto.

Muito obrigada pela sua participação no Falando de Mercado. Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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