Falando de Mercado: Logística dificulta entressafra de etanol no Nordeste

Author Argus

A retomada nas vendas de etanol no Nordeste trouxe desafios para as distribuidoras de combustível locais, que precisam contornar os fretes cada vez mais caros e a escalada dos preços do diesel para garantir seus estoques. Essas empresas têm buscado novas estratégias para mitigar a alta crescente nos custos de logística.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Vinícius Damazio, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis. Eles conversam sobre as incertezas quanto ao abastecimento de etanol no Nordeste nos próximos meses, à medida em que a região avança em seu período de entressafra de cana-de-açúcar.

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Transcript

[Camila] Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu diretora da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Vinícius Damazio, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis. Vamos abordar as incertezas quanto ao abastecimento de etanol no Nordeste nos próximos meses, à medida que a região avança em seu período de entressafra de cana-de-açúcar.  Seja bem-vindo, Vinícius.

[Vinícius] Obrigado, Camila. 

[Camila] Vinícius, no dia 9 de maio a Petrobras aumentou os preços do diesel em 9pc, em meio a uma redução de oferta e estoques mais baixos nas principais regiões fornecedoras. Esse foi o primeiro reajuste desde 11 de março, quando um acréscimo de 25pc refletiu apenas parcialmente a escalada nos mercados internacionais, segundo a estatal.  Por que essa escalada do diesel chama a atenção do setor sucroalcooleiro no Nordeste?

[Vinícius] Camila, quando se fala que a Petrobras vai reajustar os preços do diesel, um ponto de exclamação aparece na frente dos agentes do setor no Nordeste, especialmente das distribuidoras. Isso porque a região tem um déficit estrutural de etanol, o que significa que, apesar da produção local, é necessário trazer biocombustível do Centro-Sul ou importar cargas para atender a demanda local.

Esse déficit tende a se aprofundar após o encerramento da moagem de cana-de-açúcar, que vai de setembro a março no Nordeste, quando a região entra no período de entressafra.

E é nesse contexto de entressafra que as distribuidoras nordestinas têm buscado estratégias diferentes para contornar a alta crescente nos custos de logística, especialmente os custos de frete cada vez mais caros para a região, que acompanham os reajustes recentes nos preços do diesel pela Petrobras.

[Camila] O que foi decidido pelas distribuidoras? Como elas têm garantido seus estoques?

[Vinícius] A maioria das distribuidoras que respondeu uma pesquisa de mercado realizada pela Argus deve optar por transferências vindas de Goiás, um fornecedor recorrente de etanol para o Nordeste durante a entressafra de cana. No entanto, os operadores de logística têm optado pelo chamado “frete retorno” para reduzir parte dos custos crescentes de transporte. Você e nosso ouvinte talvez já tenham escutado a expressão “batendo lata”, que é quando o caminhão volta vazio para a cidade de origem, sem uma carga de retorno.

Então, o objetivo do “frete retorno”, ou frete de retorno, é evitar que esse caminhão volte vazio. Ele consiste em organizar as rotas de entrega de forma que o caminhão faça as viagens de ida e de volta transportando cargas. Por exemplo, um representante de uma distribuidora independente em Pernambuco disse à Argus que, hoje, a opção mais economicamente viável é descer com diesel para Goiás e voltar com etanol para o Nordeste. 

Segundo as distribuidoras consultadas na nossa pesquisa, a oferta reduzida de diesel em Goiás e nos estados vizinhos abriu espaço para esse movimento. Além disso, também entra na equação o avanço da safra de cana-de-açúcar no Centro-Sul. Com mais moagem, consequentemente você tem mais etanol disponível no mercado e os preços caem, compensando em parte os gastos com transporte rodoviário. É um alívio para o distribuidor que precisa calcular a matemática envolvida nessa logística.

Inclusive, antes do início da safra, quando os preços do etanol estavam mais altos e os custos de transporte já caros, algumas distribuidoras chegaram a avaliar planos trazer etanol hidratado para o Nordeste via cabotagem para contornar o frete rodoviário. O que seria algo bastante incomum. Geralmente, o etanol transportado para a região via cabotagem é o anidro, aquele usado na mescla da gasolina, não o hidratado. Mas, com o início da safra no Centro-Sul, esses planos foram deixados de lado.

[Camila] E esse trajeto Goiás-Nordeste foi uma unanimidade entre as distribuidoras que responderam à pesquisa? 

[Vinícius] Exatamente, é uma estratégia que tem ganhado cada vez mais força entre participantes de mercado.

Ainda assim, uma fonte disse à Argus que o trajeto Goiás-Nordeste cria algumas dificuldades para a cadeia de suprimentos. As distribuidoras do Nordeste são muito acostumadas a comprar da "mão para a boca", ou seja, quando elas não antecipam as aquisições e adquirem apenas o necessário para evitar estoque em excesso. As transferências do Centro-Sul podem levar até cinco dias para chegar nas principais praças nordestinas, o que demanda um pouco mais de planejamento por parte dessas empresas.

Dito isso, é importante entender um pouco o pano de fundo de todo esse dilema logístico.

A princípio, você tem a entressafra no Nordeste, que reduz a oferta regional do etanol. Só que, mais importante, houve uma retomada significativa nas vendas de etanol hidratado no varejo nordestino nos últimos meses. O Nordeste é a única região do país onde os motoristas têm optado pelo hidratado em vez da gasolina, mesmo em estados onde a paridade não está em 70pc, ou favorável ao consumo do etanol.

Especialistas de mercado costumam creditar esse movimento ao efeito psicológico quando o consumidor chega ao posto e vê uma diferença grande entre os preços da gasolina e do etanol. Nesse momento, quando o motorista se depara com um abismo de quase dois reais entre os preços, o emocional ganha do cálculo de paridade.

Então, as preocupações com o abastecimento na região surgem ao passo que as vendas do etanol dão sinais de recuperação nos postos do Nordeste. Em março, o consumo de hidratado teve alta de 19pc em relação ao ano anterior, segundo a ANP, após meses de queda constante. Já em abril, essa demanda aumentou 32pc, consolidando uma recuperação do etanol no varejo local.

[Camila] E quais são as expectativas do mercado nordestino para a demanda nos próximos meses?

[Vinícius] A princípio, Camila, algumas distribuidoras informaram que já adiantaram parte considerável das aquisições para atender a demanda local durante o início de junho. Mas, elas também relutaram em comentar as perspectivas de demanda caso seja publicado o projeto de lei que prevê um teto da alíquota do ICMS, de 17pc a 18pc, sobre os combustíveis e energia elétrica

Caso essa proposta de uniformização do ICMS seja aprovada, o preço da gasolina na bomba vai cair em todos os estados do país, já que as alíquotas variam entre 25pc e 34pc. É algo que poderia dificultar a competitividade do hidratado nos postos.

Além disso, alguns acreditam que o mercado possa enfrentar uma escassez de estoques do etanol anidro, já que a maioria das usinas do Centro-Sul tem favorecido o hidratado e o açúcar no mix produtivo.

Mas, tudo isso é uma foto deste momento atual das distribuidoras no Nordeste, que estão sujeitas aos desafios de todo o setor sucroalcooleiro neste ano, em um cenário com reflexos dos preços do açúcar e do etanol, variações do petróleo, câmbio, política de preços da Petrobras, e uma safra de cana-de-açúcar no Centro-Sul que acabou de começar...

A última temporada destacou a resiliência do mercado brasileiro de etanol diante de circunstâncias econômicas e operacionais desafiadoras, superando as projeções de cenários piores, mesmo com perdas na produção. Então, o setor pode recorrer a essa resiliência no ciclo atual, caso novos desafios apareçam no caminho.

[Camila] E nesses momentos, estar melhor equipado ajuda na tomada de decisões. E esse é o papel da Argus: trazer informações que ajudem a iluminar os mercados de commodities. Obrigado, Vinícius.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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