Falando de Mercado: Brasil lança plano para reduzir a dependência de importação de fertilizantes até 2050

Author Argus

O governo brasileiro lançou no início de março o plano nacional de fertilizantes, que busca reduzir a dependência da importação de fertilizantes, em meio a apreensões sobre a alta de preços no mercado global e a restrições de exportações de importantes produtores globais.

O plano trabalha com distintos cenários para a redução da dependência da importação de nitrogenados, fosfatados e cloreto de potássio até 2050.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Renata Cardarelli, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre os principais pontos do plano brasileiro de fertilizantes.

Fique por dentro de tudo o que acontece no mercado de fertilizantes

Transcript

Camia Dias: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, sou diretora da Argus no Brasil. No episódio de hoje, converso com Renata Cardarelli, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre a intenção do governo brasileiro de reduzir a dependência nacional da importação de fertilizantes. Bem-vinda, Renata.

Renata Cardarelli: Olá, Camila. É um prazer estar aqui.

CD: Renata, o governo brasileiro lançou o plano nacional de fertilizantes. Qual o principal objetivo desse plano?

RC: O Brasil lançou no começo de março o plano nacional de fertilizantes, que busca reduzir a dependência da importação de fertilizantes dos cerca de 85pc para perto de 45pc até 2050. O plano trabalha com distintos cenários para a redução da dependência da importação de nitrogenados, fosfatados e cloreto de potássio. No melhor dos cenários, a redução da dependência de fosfatados passará de em torno de 70pc para ao redor de 25pc, mas o plano também trabalha com um cenário mais conservador em que a dependência pode cair para cerca de 35pc. Para nitrogenados, a dependência externa deve cair para entre 61-71pc até 2050, a depender do cenário, segundo o plano. Já para o cloreto de potássio, a dependência deve cair dos atuais cerca de 98pc para em torno de 40pc no período.

CD: Para termos uma idea, Renata, qual volume de fertilizante foi entregue em 2021 ao mercado brasileiro?

RC: Dados oficiais sobre entregas realizadas em 2021 ainda serão divulgados, mas a estimativa de participantes de mercado é que entre 45,5 e 46 milhões de toneladas terão sido entregues a revendas e consumidores finais. A estimativa para 2022 é que as entregas finais cheguem a 46,5-47,5 milhões de toneladas. O mercado segue apreensivo sobre as importações de fertilizantes para este ano, em meio à alta de preços no mercado global e a restrições de exportações de importantes produtores globais. Segundo a Associação Nacional para a Difusão de Adubos, a Anda, o Brasil tem estoques de fertilizantes até o fim de maio. Em Mato Grosso, os agricultores garantiram em torno de 50pc dos fertilizantes necessários para o plantio da safra 2022-23 de soja, contra mais de 60pc um ano antes.

CD: O plano deve ter um efeito imediato na redução das importações brasileiras de fertilizantes, Renata?

RC: Olha, Camila, o plano inclui ações de curto e longo prazos. Entre as ações de curto prazo, está a criação da chamada “Caravana Embrapa FertBrasil”, que busca compartilhar informações e tecnologia aos agricultores brasileiros para aumentar a eficiência na aplicação dos fertilizantes. O objetivo é reduzir o uso de fertilizantes na safra 2022-23 em 20pc, o que pode gerar uma economia de até $1 bilhão, segundo o ministério da agricultura. Neste momento, o Brasil pretende manter o que a ministra Tereza Cristina tem chamado de “diplomacia dos fertilizantes”. A ministra tem viajado e se reunido com países produtores de fertilizantes para estreitar as relações comerciais. Representantes de empresas brasileiras e iranianas assinaram um acordo no início deste mês para a troca de 400.000t de ureia iraniana pelo mesmo volume de soja e milho brasileiros. A ministra também visitou o Canadá para discutir o fornecimento de fertilizantes com o governo e empresas do setor.

CD: Pensando a longo prazo, quais os principais pilares para a redução da dependência externa de nitrogenados, Renata?

RC: Pensando em nitrogenados, Camila, o pilar para a expansão da produção brasileira é a matéria-prima. A expansão de produção acompanha o aumento da oferta de gás natural, usado para sintetizar ureia. O Brasil ainda está nos estágios iniciais de abertura do mercado de gás natural, e o desenvolvimento desse mercado é essencial para a indústria local de fertilizantes. Espera-se que novos agentes no segmento de gás natural agreguem competitividade e liquidez aos novos contratos. O Brasil também pretende viabilizar acordos bilaterais com seus vizinhos, Bolívia e Argentina, até 2025 para acesso ao gás natural desses países.

CD: E quais os principais pontos para a redução da dependência externa de fosfatados e de cloreto de potássio, Renata?

RC: Para os fosfatados, o ministério conta com depósitos que o Brasil vem mapeando com potencial exploratório para reduzir a dependência das importações. Durante o evento de lançamento do plano nacional de fertilizantes, representantes do poder executivo ressaltaram que a Câmara dos Deputados analisa um projeto de lei que legaliza a mineração em terras indígenas. O projeto é criticado por defensores ambientais e sociais, que levantam discussões sobre o respeito aos direitos indígenas. As principais preocupações em termos de demanda e oferta são com relação ao cloreto de potássio, já que o Brasil importa cerca de 96pc do cloreto utilizado. Quanto à disponibilidade desse nutriente, a ministra informou que “as perspectivas são boas a longo prazo”.

CD: Como o governo pretende viabilizar o plano nacional de fertilizantes, em termos de investimentos?

RC: Para aumentar a produção e a capacidade instalada, o governo brasileiro pretende estimular os investimentos internacionais, viabilizando incentivos financeiros e reduzindo a burocracia. Entre os investimentos privados, por exemplo, o governo busca atrair pelo menos $10 bilhões para aumentar a produção de nitrogenados – e a produção de matérias-primas – até 2030 e a mesma quantia a cada década até 2050. O Brasil pretende discutir na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) formas de atrair investidores internacionais e nacionais para o mercado de fertilizantes. Todos os projetos de desenvolvimento e aumento da produção de fertilizantes exigem planejamento de longo prazo e investimentos em infraestrutura.

CD: Muito obrigada, Renata.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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