Falando de Mercado: Cbios sobem na B3 e atraem atenção do mercado

Author Argus

O preço do Cbio, o crédito de descarbonização negociado na B3, bateu recorde na faixa de R$101 recentemente, com o apetite de distribuidoras de combustíveis para cumprirem suas metas anuais, enquanto cada vez mais usinas buscam certificação para emitir Cbios.

Saiba quais as perspectivas para a equação apertada de oferta e demanda nesse mercado.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Conrado Mazzoni, subeditor da publicação Argus Brasil Combustíveis, e fique por dentro do que está acontecendo no mercado brasileiro de créditos de carbono.

Quer ficar por dentro de tudo que acontece no mercado de combustíveis?


Transcript

Camila Dias: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, eu sou diretora da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com Conrado Mazzoni, subeditor da publicação Argus Brasil Combustíveis, sobre o mercado de Cbios, os créditos de descarbonização negociados na B3, que já subiram bastante neste ano.

Bem-vindo, Conrado.

Conrado Mazzoni: Obrigado, Camila. É um prazer enorme voltar e estar aqui com você e todos que estão nos ouvindo.

CD: Conrado, vamos começar deixando todo mundo na mesma página, contando um pouco sobre o que são os Cbios.

CM: Legal, Camila, vamos lá. O Cbio é o crédito de carbono do Brasil, 1 unidade corresponde a 1 tonelada evitada de CO2. Ele nasce a partir da Política Nacional de Biocombustíveis, o Renovabio, de 2017, que tem como motivação o Acordo de Paris de 2015, no qual o Brasil se comprometeu em reduzir suas emissões em 37% até 2025. Então a efetiva implementação do Cbio acabou resultando na organização do mercado de carbono do Brasil.

Bom, como esse mercado é organizado? Do lado da demanda, há as distribuidoras de combustíveis que são obrigadas a comprar Cbios para compensar a emissão de gases do efeito estufa. Cada distribuidora tem uma meta de aquisição baseada em sua participação no mercado de combustíveis fósseis. Essa meta é definida anualmente pelo Conselho Nacional de Política Energética, o CNPE. E do outro lado tem os produtores de biocombustíveis, que se certificam suas usinas para ingressar no Programa Renovabio, e aí passam a emitir Cbios a partir da venda de biocombustíveis.

Acho interessante comentar aqui as externalidades positivas da produção de etanol por meio da cana-de-açúcar, que tem um processo produtivo bastante favorável ao meio ambiente, uma vez que a cana sequestra carbono da atmosfera, além depois poluir menos na ponta final.

Bom, e aí a meta anual de descarbonização deste ano é de quase 36 milhões de Cbios, o que representa a uma mitigação de 19,6 milhões de toneladas de CO2, que é um valor equivalente a 137 milhões de árvores em termos de captura de carbono.

CD: Como isso tem se desenrolado, do ponto de vista de distribuidora e produtor?

CM: Percebo que todo mundo está entrando no jogo.

As distribuidoras de combustíveis, que representam a parte obrigatória na ponta compradora, estão mais antenadas nas oscilações de preços e aproveitando oportunidades de mercado para entrar comprando. No ano passado, 2021, muito dessa movimentação ficou concentrada no fim do ano, pessoal correndo para cumprir a meta, e o preço disparou muito rapidamente.

No lado dos emissores, os produtores de biocombustíveis, etanol ou biodiesel, estão cada vez mais buscando certificação para emitir Cbios. Estão dando mais atenção a isso porque, afinal, representa mais uma linha de receita, embora ainda pequena, mas com potencial de crescer.

CD: Um aspecto interessante nesse sentido é o aumento do volume negociado na B3.

CM: Sem dúvidas. O salto é bem expressivo, e reflete esse apelo cada vez maior.

Olha, pra se ter uma ideia, em abril, o giro financeiro das negociações realizadas com Cbios foi de R$485 milhões, quase 5 vezes maior do que os R$108 milhões de abril de 2021.

O preço do Cbio acumula uma alta de 70% neste ano, tendo atingido um recorde nos R$101 no início de março, depois de começar o ano beirando os R$60.

E neste momento estamos com preços relativamente estáveis, oscilando dentro da faixa entre R$90 e R$100 há várias semanas.

CD: E o que explica esse salto tão grande dos preços neste ano?

CM: Bom, esse é um reflexo direto de uma equação apertada entre oferta e demanda.

O mercado começou 2022 com 10 milhões de Cbios em estoque porque a meta de descarbonização de 2021, que foi de 25 milhões, foi atingida com certa facilidade, com as emissões de Cbios totalizando 31 milhões.

Neste ano, a meta anual estabelecida pelo Conselho Nacional de Política Energética, o CNPE, é de quase 36 milhões. Então se a gente somar 10 milhões em estoque mais uma projeção de emissões na faixa do que foi 2021, ou seja, 30-31 milhões, nós conseguimos cumprir com a meta, sobrando apenas 4 milhões em estoque para 2023. E o programa tem metas crescentes, então 2023 já é uma meta na faixa de 42 milhões, e em 2024, 50 milhões.

Então, em suma, o que vivemos hoje é um panorama mais apertado da oferta atendendo a demanda. A produção de Cbios deverá ser somente um pouco superior à demanda.

E o preço tem refletido isso.

Nas minhas conversas com participantes de mercado não escuto perspectiva de preço de Cbios cedendo deste nível atual. Na verdade, ao contrário, eu conversei com o diretor de uma distribuidora na semana passada e ele prevê Cbios subindo para R$120, R$130 no segundo semestre, se o mercado prosseguir nessas condições atuais.

CD: O início da safra da cana-de-açúcar no Centro-Sul pode aliviar do ponto de vista da oferta?

CM: Desde o início do ano até o fim de abril, nós já estamos com pouco mais de 15 milhões de Cbios disponíveis, de acordo com o monitoramento do Itaú BBA. Isso leva em conta aquele estoque de 10 milhões, mais o que foi emitido, e subtraindo o que já foi aposentado. O Cbio aposentado é quando ele é, de fato, retirado do mercado pela distribuidora que o detém, para o cumprimento da meta anual, ou seja, cumprindo, assim, seu papel de descarbonização.

Isso quer dizer que há ainda uma necessidade de emissão de 51% da meta neste ano.

Bom, a safra de cana 2022-23 pode sim elevar a oferta de emissão de Cbios, mas a estimativa da Conab, a Companhia Nacional de Abastecimento, é que a maioria das usinas deverá favorecer o açúcar em detrimento ao etanol no mix de produção, a exemplo do que aconteceu nas últimas duas temporadas. A agência prevê uma produção de etanol 5% menor em um ciclo de moagem de cana 2% menor devido aos problemas de clima que se arrastam desde 2021.

E no caso do biodiesel, ainda é uma incógnita porque as usinas estão buscando a certificação para emitir Cbios, mas muitos produtores preveem vendas menores de biodiesel neste ano por conta do mandato atual de B10, e consequemente, menos Cbios a partir do biodiesel.

Acho que vale destacar que além dos emissores e da parte obrigatória o mercado de Cbios tem também a participação de investidores, mas que hoje representam só 1% do mercado. É algo desejável que essa fatia de participantes aumente também ao longo do tempo.

CD: Esse é um tema que a Argus está agora cobrindo de perto dentro da nossa publicação Argus Brasil Combustíveis, então fique ligado e acompanhe nosso conteúdo.

Conrado, muito obrigada pela sua participação.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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