Falando de mercado: Brasil terá menor custo de produção de hidrogênio verde do mundo

Author Argus

O Brasil pode se tornar um grande exportador de hidrogênio verde nos próximos anos, com os menores custos de produção do mundo.

Rebecca Gompertz, repórter da publicação Argus Brazil Gas & Power, conversa com Armando Juliani, diretor executivo de Serviços e Soluções na Siemens Energy Brasil, sobre o potencial do país nesse novo mercado que está se desenvolvendo.

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Transcript

Rebecca Gompertz: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Rebecca Gompertz, eu sou repórter do relatório Argus Brazil Gas & Power.

No episódio de hoje eu converso com Armando Juliani, diretor executivo de Serviços e Soluções na Siemens Energy Brasil, que é uma subsidiária da Siemens focada no desenvolvimento de tecnologias para o setor de energia. A empresa estuda, entre outras inovações, projetos de hidrogênio no Brasil.

Boa tarde. Seja muito bem-vindo, Armando. Queria começar te perguntando quão perto nós estamos de ter plantas de hidrogênio no país?

Armando Juliani: Boa tarde, Rebecca. Respondendo diretamente a sua pergunta, eu diria que muito em breve. Talvez em um ou dois pares de anos a gente já tenha plantas produzindo hidrogênio verde no Brasil.

O nosso país tem um potencial muito grande de geração de energia com hidrogênio verde. Nós estamos falando da ordem de 200 a 300GW, que é três vezes mais do que o país produz hoje em termos de energia renovável. Mas a gente tem que definir melhor a operação logística dessa commodity para que possamos ter um número ideal.

A gente vê a produção de hidrogênio no Brasil vindo em duas ondas. A primeira delas diz respeito ao aproveitamento dos assets industriais existentes. E, quando a gente fala nisso, a gente já vê projetos. Já há parceiros e já há clientes fazendo estudos de eficiência energética, buscando slots para fabricação dos hidrolisadores e alguns projetos que estão começando a ser gerados. Então, eu diria que dentro dessa onda, em talvez três ou quatro anos, nós já vamos ter a produção de hidrogênio verde no Brasil.

Numa segunda onda, que são grandes blocos de geração de energia verde para produzir o hidrogênio verde para exportação, a gente imagina que isso vai começar por volta de 2030. Só que aí a gente precisa, nos dois casos e especialmente nesse de uma segunda onda, de uma melhor regulamentação e de definições quanto às políticas para o hidrogênio verde, de precificação dele. Como nós vamos classificar esse hidrogênio verde ou qualificá-lo? E quais são os incentivos que ele vai ter? Isso ainda vai levar um pouquinho de tempo, mas nós já estamos caminhando rapidamente, como eu disse, na primeira onda para ter essa produção no Brasil relativamente logo.

RG: E se espera que o Brasil seja um player importante desse mercado?

AJ: Sim, por vários motivos. O Brasil, todo mundo diz, é um país abençoado por Deus. E é particularmente abençoado por Deus em energia. Nós temos todas as fontes de energia no Brasil. E, diferentemente de outros países, 80pc da energia produzida no Brasil é renovável. Portanto, a gente está numa posição vantajosa para a promoção e adoção do hidrogênio verde. A gente deve ser um produtor, ou o produtor de menor custo nos próximos anos, por vários motivos. Primeiro, justamente por essa grande facilidade que temos de produzir energia renovável. E, segundo, pela proximidade com alguns mercados que estão dando muito valor para o hidrogênio, como a Europa.

A gente tem que destacar que o Brasil é um player de peso nesse mercado. A gente tem a enorme crise climática que está afetando o mundo inteiro. Temos os impactos do excesso de carbono, que estão gerando essa crise climática e são sentidos em todos os lugares. E a demanda por hidrogênio verde, como fonte de energia, vai crescer muito rápido e vai ser muito grande. Hoje, a humanidade não vê outra maneira de você reduzir a emissão de carbono em larga escala que não seja o hidrogênio verde. Ele é, assim, um grande elemento descarbonizador.

A gente tem também a guerra na Ucrânia, que tem renovado uma percepção de aceleração na transição energética. Primeiro com relação à descarbonização e depois com relação à diversificação de fontes de fornecedores. A gente não pode esquecer que o hidrogênio verde também ajuda muito na produção de amônia, que é um importante insumo agrícola e de outras commodities. A gente tem uma vocação muito grande para que o Brasil seja um grande produtor de hidrogênio verde e participante desse mercado no mundo inteiro.

RG: E o desenvolvimento das eólicas offshore, pode impulsionar a produção desse hidrogênio verde no Brasil também?

AJ: Sim, como eu disse, numa segunda onda, entre as alternativas de produção de hidrogênio verde rápido e em grande quantidade estão as eólicas offshore. Até pouco tempo ninguém falava das eólicas offshore aqui no Brasil porque nós temos muita terra. Então, para que construir uma eólica ou por que ter uma fazenda eólica no mar, como nós temos no mar do norte? Mas agora quando a gente vê a produção de energia visando a separação do hidrogênio da água, conseguimos vislumbrar que em um prazo relativamente curto essas eólicas offshore vão surgir.

Como fabricante de equipamentos, a nossa Siemens Gamesa tem colaborado com isso. A gente já tem, por exemplo, um produto que é uma turbina eólica acoplada em um eletrolisador. Ela produz o hidrogênio diretamente da turbina. A gente tem uma meta de investir €40 milhões nesse projeto. Um outro destaque no qual a Siemens Energy está trabalhando, em parceria com outras empresas, é uma produção em grande escala de hidrogênio verde para produzir combustível ecológico, ou e-combustível. No Chile, nós temos um projeto chamado Haru Oni que aproveita os ventos fortes e constantes da região da Patagônia chilena, na região do Estreito de Magalhães, bem ao sul do Chile. Você produz o hidrogênio verde e com essa energia também capta o CO2 da atmosfera. E, captando CO2 da atmosfera com o hidrogênio que você produz, gera um hidrocarboneto verde. Isso já existe, já foi inaugurado. Essa planta ainda está em escala reduzida, mas a ideia é aumentá-la.

RG: Muito interessante, Armando. E ter hidrogênio produzido no Brasil pode ajudar a aumentar infraestrutura de gás natural? Como a indústria do hidrogênio pode casar com a de gás?

AJ: Nós entendemos que sim. Eu acho que, em um momento no qual a gente está trabalhando com a transição energética, o hidrogênio ajuda no acoplamento dos vários setores de energia que temos, dentro de uma visão de longo prazo. Nós não vamos conseguir nos livrar do gás ou dos hidrocarbonetos no curto prazo.

Hoje, nós estamos discutindo aqui, que em um ambiente de offshore, ao invés de usar esse gás que você está extraindo para gerar a energia elétrica para as plataformas de petróleo, você pode ter eólicas acopladas a ele que produzem essa energia, sem queimar o gás ali. E, ao mesmo tempo, gerar hidrogênio, que pode enriquecer o gás que você está extraindo, de uma certa maneira.

As usinas de gás natural também vão ser importantes na captura do CO2 em razão da separação dos dois gases e do CO2 capturado com isso, né? Com isso, você consegue colocar a o hidrogênio produzido no Brasil acoplado a infraestrutura de gás natural.

São ideias que a gente está tendo, que a gente está vendo serem implementadas ainda em escala de protótipo. Mas que tem tudo para funcionar e para trazer um benefício muito grande para o Brasil, em particular, e para o mundo no sentido da descarbonização.

RG: Você falou mais cedo, Armando, sobre a questão da competitividade do preço do hidrogênio. Eu queria entender um pouco do porquê os preços de hidrogênio vão ser competitivos no mercado nacional de energia.

AJ: Bom, a gente não tem uma projeção de preço porque nós somos provedores e equipamentos e soluções. Então, a gente não consegue prever como esse preço vai reagir. A gente sabe que no Brasil, pela grande quantidade de energia verde que nós temos, o custo marginal da produção de hidrogênio vai ser um dos mais baixos do planeta.

Não tem país, como o Brasil, que possa produzir, em termos de custo, o hidrogênio verde como nós. Não existe. Agora, se esse preço vai ser competitivo? Eu diria que vai, por dois motivos. Primeiro, pela necessidade de descarbonização que eu mencionei antes. Segundo, em termos dos incentivos que os países vão conceder para a produção desse hidrogênio verde.

Agora, uma previsão de como vai ficar esse preço, ou quantos anos vai levar para que esse preço seja competitivo, nós não temos.

RG: Mas a gente pode esperar que ele seja competitivo dentro do nosso mercado nacional também?

AJ: Olha, é difícil dizer isso, porque já temos também soluções locais verdes. Hoje, comparando com uma outra energia verde que nós temos, o hidrogênio é mais caro, por exemplo, do que o álcool. E o álcool é uma fonte de energia equilibrada em termos de carbono.

Mas de novo, quando você pensa em uma commodity que é exportada, eu não tenho dúvida de que um dia o hidrogênio vai ser um fator extremamente importante para o mundo inteiro.

RG: E a criação de um certificado de hidrogênio seria importante para o desenvolvimento desse mercado?

AJ: Isso é fundamental. Enquanto você não tiver esse certificado que defina o que é efetivamente o hidrogênio verde e como ele pode ser produzido a partir de um elétron verde, nós vamos ter discussões difíceis a respeito de como seguir nisso. Para que o Brasil seja um líder na transição energética para uma economia de baixo carbono, é essencial que a gente saiba que tipo de energia verde podemos utilizar para a exportação do hidrogênio.

Então, em tese um elétron produzido a partir de uma usina hidrelétrica é verde. É uma fonte renovável de energia, mas como os compradores, como os offtakers, vão definir essa energia renovável a ser utilizada no hidrogênio verde pode afetar a produção.

Por exemplo, hoje o grande foco é em considerar energia verde. Uma das filosofias, que dizem que estar diante das outras, é que não basta ser uma energia verde, ela tem que entrar substituindo uma energia não-verde. Então, em tese, uma usina hidrelétrica que já existe não poderia produzir um hidrogênio dentro das certificações que se vislumbram hoje. Porque ela já existe, você não vai tornar a matriz energética mais verde com ela. Então, se consideram apenas novos investimentos.

Isso pode mudar. Em particular, para países como o Brasil, que tem uma matriz energética muito mais verde do que todos os outros. Se você considera a América Latina e as emissões que existem no Brasil e na Cidade do México, por exemplo. O Brasil, ou São Paulo, compensa muito mais essas emissões do que a Cidade do México. Pela própria natureza da nossa geração de energia, que é essencialmente verde.

Além de uma rede global de cooperação, é fundamental a gente efetivar o financiamento dos projetos. E como você vai ter esse financiamento se você não define um certificado de hidrogênio? Esses certificados têm que ser definidos antes e emitidos a partir de uma clara especificação do que vai ser o hidrogênio verde, em função do seu uso para o mundo.

RG: Armando, acho que era isso que eu tinha preparado, tem alguma coisa que eu não perguntei e que você acha importante de falar sobre o hidrogênio?

AJ: Eu acho que o hidrogênio é uma matéria longa. Tem muita coisa que não foi perguntada, que não foi falado aqui. Se eu posso enfatizar um ponto disso é: hoje, o hidrogênio verde é a melhor aposta que existe para o mundo se descarbonizar, mas ainda estamos em um vislumbre dessa tecnologia. A humanidade tem que se sentar, identificar como ela pode ser usada. Porque a tecnologia existe já há bastante tempo, não é nova. Hoje, se produz hidrogênio no mundo inteiro. Só 4pc do hidrogênio produzido hoje no mundo é verde. Nós temos que definir como melhor utilizar essa tecnologia que está disponível, visando a descarbonização. As possibilidades são imensas.

Nós temos que definir alguns parâmetros para que a gente possa ter uma visão de longo prazo dos investidores. Não é só produzir o hidrogênio verde, mas ter políticas claras para que ele se torne realmente uma commodity muito ativa na descarbonização do planeta.

RG: Tem alguma questão de regulamentação que você acha que é muito urgente em relação ao hidrogênio?

AJ: Eu acho que toda a regulamentação é urgente. Eu vou dar um exemplo, que talvez não caiba.

A Europa estava há pouco tempo discutindo e alguns países aceitaram a energia nuclear como sendo verde porque ela não gera carbono. Alguns países da Europa consideram a energia nuclear como sendo verde, outros não. Então, como você vai produzir hidrogênio visando exportação e visando a descarbonização para um determinado mercado, para um offtaker, se você não sabe exatamente qual energia pode ser considerada verde? Essa discussão de energia nuclear é algo que vem de anos. Não vou entrar no mérito se está correto ou não. O uso de fontes de energia verdes que já foram construídas ou que já estão construídas, sem substituir nada das demais energias, pode ser utilizada? Nós estamos falando uma energia verde. Vamos dar um certificado de hidrogênio verde para o hidrogênio produzido com essa energia se ela não está substituindo nenhuma usina a carvão, por exemplo?

Como você vai investir nisso se você ainda não sabe a regulamentação? Porque a gente sabe que quem compra hidrogênio visando a descarbonização precisa de um certificado. Precisa de um hidrogênio efetivamente certificado de acordo com as agências internacionais. E isso ainda não está unificado. Cada país tem a sua certificação e isso interfere na cadeia de investimentos, no uso do hidrogênio. Isso dificulta o andamento dos projetos. Por isso, a gente aposta em duas ondas. Uma em que você utilizar os assets industriais que você tem hoje e que não são necessariamente verdes, de modo a neutralizar ou reduzir o carbono que eles emitem. Usando energia sabidamente verde que tem disponível e você compensa o CO2 que está sendo gerado. Em uma segunda onda, que vai vir depois, talvez lá para 2030. Talvez até antes, porque esse mercado tem se desenvolvido muito rapidamente. Quando você tiver uma regulamentação mais desenvolvida, você consegue desenvolver grandes massas de geração de energia para a produção de hidrogênio verde.

RG: Muito obrigada pela conversa, Armando. O tema do desenvolvimento de projetos de hidrogênio no Brasil tende a continuar em pauta e devemos ver vários avanços nos próximos anos. E a Argus vai continuar a acompanhar todas essas movimentações bem de perto.

Este e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para acompanhar os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do Falando de Mercado. Até logo!

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