Falando de Mercado: A oferta e a demanda de gás natural no Brasil em 2023

Author Argus

Os altos preços de gás natural no mundo, em decorrência, principalmente, do conflito entre Rússia e Ucrânia, preocupam os consumidores no Brasil.

Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Flávia Pierry, editora de Gás Natural e Energia, conversam sobre os fatores que vão influenciar a oferta e a demanda de gás natural no Brasil em 2023, além do impacto sobre preços e negociações.

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Transcript

[Camila] Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou diretora da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Flávia Pierry, editora de Gas Natural e Energia, sobre o que podemos esperar para a oferta e a demanda de gás natural no Brasil para 2023.

Bem-vinda, Flavia.

[Flávia] Obrigada, Camila.

[Camila] Flávia, os altos preços do gás natural do mundo, em decorrência do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, preocupam consumidores de gás importado liquefeito. O que podemos esperar para o Brasil nesse cenário?

[Flávia] Camila, o Brasil é um país importador de gás natural, e portanto olhar para o mundo é importante para os consumidores de gás se prepararem. Vamos analisar então a nossa oferta de gás – interna e importada -, e nossa demanda estimada, com as informações que temos agora, faltando ainda um trimestre para 2023.

Primeiramente, nossa oferta nacional. Em 2022 até junho, o Brasil ofertou em média 46mn m³/d, segundo o Ministério de Minas e Energia. Nossa produção é bem superior a isso, chegando a 134mn m³/d, mas como sabemos grande parte desses volumes são reinjetados nos poços de petróleo e gás, por necessidades técnicas das petroleiras, por decisões comerciais das empresas ou por falta de infraestrutura de escoamento.

Do lado da demanda, este ano estamos com uma necessidade de gás média de 70mn m³/d, também com dados até junho. Ou seja, no cenário atual, dependemos de importações para suprir cerca de 30mn m³/d. É uma quantidade importante, apesar de ser um volume pequeno se pensarmos no contexto mundial ou de países de hemisfério norte, onde há consumo de gás para calefação. Mas cerca de 40 porcento do gás consumido no Brasil vem de fora. Não é pouca coisa.

[Camila] Não é pouco mesmo, principalmente em um momento em que o mercado internacional de gás está apertado e demandando gás de novas origens para suprir o gás que deixou de vir da Rússia para a Europa.

[Flávia] Exatamente, Camila.

[Camila] E o que podemos esperar da nossa demanda de gás para 2023? Devemos nos manter nos patamares de 2022?

[Flávia] Camila, 2022 foi um ano típico para a demanda de gás no Brasil, já que não precisamos acionar as usinas geradoras de eletricidade por fontes térmicas, diferentemente do que ocorreu em 2021. Este ano, a geração térmica a gás consumiu em média 18mn m³/d, contra 42mn m³/d em 2021, quando uma seca reduziu a geração hidrelétrica e levou o Operador Nacional do Sistema Elétrico, o ONS, a recrutar as térmicas. Se este ano a demanda de gás para geração de eletricidade foi 26% da demanda total, no ano passado as térmicas demandaram 45% da demanda total.

Para 2023, podemos considerar um cenário de menor geração térmica por restrições hidrelétricas. O fenômeno La Niña ajudou demais a recompor os reservatórios das usinas hidrelétricas este ano, o que fez com que chegássemos ao início do período chuvoso 2022-2023 com mais de 50% dos reservatórios do sistema interligado nacional cheios. No ano passado, entramos no período chuvoso com reservatórios a 16%.

Então, podemos dizer que a demanda por gás em 2023 não estará muito pressionada pela geração elétrica. Isso deixa o país menos exposto às importações de gás liquefeito, que estão ocorrendo com preços altos.

Quanto à demanda industrial, ainda é um pouco cedo para dizer, mas podemos colocar alguns fatores na nossa análise. A demanda industrial de gás veio se recuperando no ano passado, após os primeiros períodos da pandemia de Covid. Esse movimento deve se manter.

Por outro lado, o próximo ano é o primeiro da nova administração pública federal, com a eleição do novo presidente. Mesmo que o resultado das urnas seja de continuidade do atual presidente da República, é esperado que os empresários façam ajustes em seus investimentos ou na produção em um primeiro ano de governo, até ajustar as expectativas aos novos rumos de governo.

[Camila] E pelo lado da oferta de gás, Flávia? O que já é possível vislumbrarmos?

[Flávia] Camila, esse cenário está um pouco melhor desenhado. Isso porque tivemos alguns anúncios recentes de investimentos postergados em infraestrutura de gás natural, o que pode impactar nossa oferta.

O primeiro deles é o anúncio da Petrobras de que mais uma vez foi postergada a possível data de entrada em operação do complexo GasLub, no Rio de Janeiro, que agora só deve começar a receber e processar gás natural em 2024. Esse complexo irá receber gás da terceira rota de escoamento de gás oriundo do pré-sal, a chamada Rota 3, que pode trazer cerca de 18mn m³/d de gás e ajudará a suprir parte da demanda.

Sem a entrada em operação da Rota 3 em 2023, como estava previsto anteriormente, apertamos ainda mais nossa demanda e ficamos dependentes de importação.

Também importante pensarmos na oferta de gás da Bolívia. Essa fonte de gás, que é tradicionalmente muito importante para o Brasil atingir sua demanda, tem declinado os volumes produzidos, devido à falta de investimentos em revitalização dos campos e em tecnologias para aumentar recuperação. Mas além disso, temos questões políticas, com a Bolívia privilegiando a remessa de gás para a Argentina e cortando os volumes ao Brasil. Se os volumes recebidos da Bolívia já chegaram a ser 24mn m³/d, em Setembro eles chegaram a um nível bem mais baixo, de 13 mn m³/d.

[Camila] E como está nossa oferta de gás natural liquefeito?

[Flávia] Esse é outro tema interessante e que precisamos seguir acompanhando de lupa, pois pode ser uma alternativa interessante aos compradores de gás no Brasil no mercado livre nos próximos anos, com uma resolução do atual conflito geopolítico na Europa e na Ásia e com o reposicionamento do mercado de gás mundial.

Atualmente temos cinco terminais de GNL em operação no País. Dois estão sendo operados pela Petrobras. A companhia Excelerate é a operadora de um terceiro terminal, que pertence à Petrobras e está arrendado até o final do ano que vem. Além disso, as empresas Eneva e Gás Natural Açu são operadoras de outros dois terminais, que ainda estão desconectados da malha de gasodutos e por enquanto ofertam gás apenas a usinas termelétricas conectadas aos terminais de regaseificação, que por sua vez mandam eletricidade ao sistema.

Há outros projetos de terminais de GNL que estão em construção ou planejados com proposta firme de saírem do papel. Mas veja: tais terminais não devem contribuir muito para a oferta de gás em 2023. São eles o terminal de São Paulo, que pertence à empresa comercializadora de gás Compass, e o terminal de São Francisco do Sul, em Santa Catarina, da empresa New Fortress Energia. Ambos os operadores informam ao mercado que a entrada em operação ocorrerá em 2023, mas com a crise mundial no GNL isso vai se tornando mais questionado pelo mercado, que tem dúvidas se a data será mantida.

Ainda há outro plano de instalação de terminal de GNL no porto de Pecém, no Ceará. A Petrobras perde a exclusividade de operação de um terminal de GNL nesse porto privado no final de 2023, e outros agentes poderão construir novos berços de atracação de navios de regaseificação. A Shell aparece como uma das principais interessadas no projeto, assim como a BP. Mas nem o porto, nem as empresas confirmam as negociações, apesar de não negarem e de sustentarem que têm interesse no mercado de GNL no Brasil.

Ou seja: A partir de 2024 podemos ter uma oferta menos apertada de gas natural no país, com mais terminais de regasificação conectados à malha, outros começando operação, com a entrada da Rota 3 trazendo mais gás do pré-sal... Mas tudo isso só em 2024, no mínimo. Antes disso, teremos um 2023 ainda com pressão da demanda internacional, que eleva preços, Bolívia com volumes incertos e Rota 3 parada. Há desafios à frente, e é por isso que a Argus está aqui, fornecendo preços calculados de gás natural no brasil, benchmarks de gás, gnl e petróleo no mercado internacional, e análises sobre o setor no brasil e no mundo, ajudando demandantes e ofertantes de gás a navegar.

[Camila] Muito obrigada, Flavia.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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