Falando de Mercado: Brasil deve bater recorde na produção de algodão na safra 2022-23

Author Argus

Os altos preços internacionais motivaram os agricultores brasileiros a expandir a área plantada com algodão na temporada 2022-23, o que poderá levar o país a um novo recorde na produção da pluma. Mas os custos de produção mais altos provocaram uma redução no uso de fertilizantes na cultura.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre o crescimento do setor do algodão no país e as perspectivas para a safra 2022-23. 

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Transcript

CD: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, diretora da Argus Media no Brasil. No episódio de hoje eu converso com a jornalista Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes sobre as perspectivas para a safra de algodão 2022-23 do Brasil, que poderá ter produção recorde, apesar de uma redução no uso de fertilizantes. Alessandra, bem-vinda.

AM: Obrigada, Camila, sempre um prazer participar aqui do Falando de Mercado.

CD: Alessandra, a safra de algodão do Brasil começa a ser plantada em algumas regiões já a partir de novembro deste ano, qual é o cenário para cultura em 2023?

AM: Olha Camila, apesar do aumento nos custos de produção, os agricultores brasileiros esperam colher a maior safra de algodão da história em 2022-23, já que haverá uma expansão da área plantada.

Na safra 2022-23, os produtores pretendem plantar 1,78 milhão de hectares de algodão, aumento de 9,3pc em relação a temporada 2021-22. Com expectativa de altas produtividades, já que o clima deve ser favorável, a produção foi estimada em 3,1 milhões de toneladas, aumento de 27pc sobre as 2,5 milhões de toneladas colhidas na temporada encerrada recentemente, de acordo com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa). Vale ressaltar que a área de cultivo não é recorde. O Brasil chegou plantar uma área próxima a 4 milhões de hectares de algodão no final da década de 70, mas era uma cultura muito rudimentar, sem tecnologia, e a produtividade do algodão em pluma era de 140kg por hectares, hoje ela é quase 13 vezes maior, está próxima de 1800kg por hectare, por isso o recorde é de produção e não de área cultivada.

CD: Realmente é uma diferença muito grande... mas por que ocorre isso, é o modelo de produção que mudou?

AM: Sim, na verdade o foco da produção brasileira hoje é a exportação. O Brasil é o segundo maior exportador global de algodão e o quarto maior produtor da pluma no mundo. E esses ganhos crescentes de produtividade vem ocorrendo porque atualmente a maior parte do algodão é cultivada em grandes propriedades rurais que adotam níveis elevados de tecnologia em sementes, fertilizantes, agroquímicos e maquinários. A maior parte da produção vem de 400 agricultores e empresas associadas a Abrapa, com lavouras distribuídas em 2,2 mil fazendas, o que é pouco, considerando a relevância mundial do país no algodão. Um destes grupos empresariais, por exemplo, responde por 11pc de toda a produção brasileira de algodão é a SLC Agricola, empresa listada na bolsa de valores brasileira B3.

CD: Alessandra, e o aumento no preço dos insumos, especialmente fertilizantes, não afetou os planos para a safra de algodão 2022-23?

AM: Bom, na verdade os investimentos para ampliar a produção de algodão vêm sendo impulsionados pelos preços crescentes da commodity no mercado internacional. Mas sem dúvida o custo é um fator que vem preocupando os agricultores. Os custos de produção nesta safra de algodão estão 50pc mais altos, foi o que me disse o presidente da Abrapa, Julio Busato. Mas, segundo ele, ainda assim, o agricultor seguiu ampliando o cultivo, porque os investimentos feitos na produção de algodão as vezes demoram mais de 5 anos para gerar retorno financeiro. Ele mencionou, por exemplo, que uma maquina colhedeira de algodão, custa R$7 milhões. Agora, falando mais sobre esta questão dos fertilizantes mais caros... o presidente da Abrapa nos disse que os produtores de algodão na safra 2022-23 estão reduzindo em 15pc o consumo de fosfatados e de cloreto de potássio. O consumo médio costumava ser de 120kg/ha em fosfatados e 180kg/ha no caso do potássio. Desta forma, é possível estimar que o setor do algodão tenha adquirido 48.000t a menos de cloreto de potássio este ano, além de reduzir as compras de fosfatados em pelo menos 32.000t. Já o uso de nitrogenados está sendo mantido nos mesmos níveis, de 150kg/ha, o que aponta para uma demanda de 267.000t na safra.

Os primeiros plantios começam em novembro na Bahia. Mas o maior estado produtor, Mato Grosso, planta o algodão a partir de janeiro, assim que colhe a soja. E apesar da redução no uso de fertilizantes , são esperados bons níveis de produtividade, de 1800kg de algodão em pluma por hectare, porque há uma boa reserva de nutrientes no solo.

CD: E o cenário internacional, deve seguir positivo para o algodão em 2023?

AM: Olha, diversas consultorias de mercado vêm destacando que, apesar da alta no preço dos insumos, os níveis de rentabilidade das principais commodities agrícolas, como o algodão, continuam em patamares historicamente altos. Este cenário, aliado aos fundamentos de oferta e demanda mundiais, seguIram estimulando os produtores brasileiros a plantar algodão. A previsão para a temporada de algodão em 2022-23, de acordo com dados do International Cotton Advisory Comitee (ICAC) é de uma queda de 3,2pc no consumo, devido a recessão econômica global, ficando em 25,3 milhões de t. Mas a produção mundial também deve cair 2,8pc, para 24,71 milhões de t. Os estoques finais estão projetados em 19,78 milhões de t, abaixo das 20,37 milhões de t da safra 2021-22.

De qualquer forma, precisamos deixar aqui um sinal de alerta. Ao longo do mês de outubro vimos quedas acentuadas nos preços internacionais do algodão. É um produto que pode ser bastante impactado caso se confirme um quadro de recessão econômica em importantes países consumidores, por isso é algo que precisamos observar nos próximos meses.

CD: Com certeza.. a volatilidade deve seguir presente... mas Alessandra, para finalizar, o que dizem os produtores de algodão sobre esta tendência ESG que toma conta dos mercados e muitas vezes tem como foco a agricultura brasileira?

AM: Ótimo ponto, Camila, você sabe que nos últimos anos eu conversei muito com produtores rurais e mais uma vez foi muito interessante essa conversa que tive com o Julio Busato, presidente da Abrapa. Ele mantém até hoje o sotaque típico dos pequenos municípios das áreas rurais do sul do Brasil, em que predomina o modelo de agricultura familiar e tem uma história daqueles que muitas vezes são ouvidas quando se percorre as fronteiras agrícolas do Brasil. Na década de 80 ele deixou o estado do Rio Grande do Sul e percorreu mais de 2.300km até o oeste da Bahia para comprar terras na região do Cerrado, que mostrava boa aptidão para a agricultura tropical. Longe dos filhos e da esposa, ele conta que viveu tempos por lá sem energia elétrica, sem estradas e sem saneamento básico. “ Mas valeu a pena”, nos disse ele, todo orgulhoso. Dá pra perceber que a consciência ambiental e a certeza de que sustentabilidade é uma condição para continuar acessando os mercados, sao questões muito claras para produtores como o Julio Busato. Ele faz questão de dizer que práticas como o plantio direto, onde a palhada, da rotação de culturas, ajuda a preservar o solo, tem sido fundamentais no crescimento sustentável das culturas da soja e do algodão no oeste da Bahia, que hoje é uma das maiores potências agrícolas do país. Em setembro de 2022, o agricultor de origem humilde, hoje grande empresário, esteve na Suiça, participando do Conferência Anual da International Textil e Manufacturers Federation (ITMF), para divulgar os programas voltados a sustentabilidade. A Associação Brasileira dos Produtores de Algodão também mantém um escritório próprio em Singapura, que vem negociando diretamente com os países asiáticos uma valorização comercial igual ou melhor que o algodão norte-americano, hoje o produto mais exportado globalmente. Neste cenário, os brasileiros esperam ultrapassar os Estados Unidos e alcançar a primeira posição na exportação global de algodão até 2030. Para isso, este perfil de fazendeiro mais moderno tem dado sinais de que realmente está aberto a mudanças. Atualmente, 84pc da área cultivada com a pluma em nove estados brasileiros e 85pc do volume colhido já têm o selo de Algodão Brasileiro Responsável (ABR), que permite a rastreabilidade socioambiental cada vez mais exigida pelos compradores internacionais.

CD: Muito obrigada Alessandra, até a próxima.

AM: Até a próxima.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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