Falando de Mercado: Captura de carbono no Brasil e o potencial do etanol

Author Argus

O sistema de captura e armazenamento de carbono pela rota da bioenergia (BECCS, na sigla em inglês) é considerado um elemento importante para a meta global de zerar as emissões de CO2 até 2050.

Ainda inédita no Brasil, a técnica a partir da biomassa vem conquistando o interesse de grandes empresas de etanol que visam ter uma produção de biocombustível carbono negativa.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Laura Guedes, integrante do time da publicação Argus Brasil Combustíveis. Elas conversam sobre o funcionamento dessas tecnologias e o potencial do etanol carbono negativo no mercado internacional.

Transcript:

CD: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, eu sou diretora da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com Laura Guedes, integrante do time da publicação Argus Brasil Combustíveis, sobre a tecnologia de captura e armazenamento de carbono pela rota da bioenergia, também conhecida como BECCS. Bem-vinda, Laura.

LG: Obrigada, Camila. É um prazer falar com você e com todos que estão nos ouvindo.

CD: Laura, antes de falar da rota da bioenergia, você pode explicar o que é o processo de captura e armazenamento de carbono, também chamado de CCS?

LG: Claro! Basicamente, o CCS é uma sigla em inglês para o processo de captura, transporte e armazenamento de carbono, visando reduzir as emissões para a atmosfera de grandes quantidades de CO2, o dióxido de carbono, de forma permanente. Esse CO2 é injetado no solo e pode ser armazenado em reservatórios de petróleo e gás chamados “depletados”, camadas profundas de carvão, aquíferos salinos, dentre outras. A tecnologia vem crescendo no Brasil e a Petrobras anunciou, neste ano, que fará um projeto piloto de CCS no estado do Rio de Janeiro, com capacidade para capturar 100 mil toneladas de CO2 por ano no terminal de Cabiúnas. E, recentemente, o projeto de lei Combustível do Futuro, apresentado pelo governo do presidente Lula, propôs um marco regulatório para o CCS, atribuindo a sua regulação para a ANP, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Além disso, também é importante mencionarmos a tecnologia CCUS, que é a sigla em inglês para a captura, uso e armazenamento de carbono. A diferença em relação ao CCS é que aqui há um reuso do CO2 de processos industriais com a conversão em produtos como concreto, combustíveis, polímeros e metano. Tanto o CCS quanto o CCUS não são uma novidade e eles vêm se desenvolvendo. No ano passado, a Petrobras bateu recorde de CCUS, atingindo a marca de 10,6 milhões de toneladas reinjetadas. Atualmente, as 21 plataformas operadas pela petrolífera que produzem pré-sal na Bacia de Santos incorporam a estratégia de captura, uso e armazenamento.

CD: E o BECCS? Como funciona?

LG: O BECCS é essa atividade de captura e armazenamento de carbono pela rota da bioenergia. A partir de processos em que a biomassa é convertida em combustíveis ou diretamente queimada para a geração de energia. É interessante que, de acordo com a Agência Internacional de Energia, o BECCS é a única técnica de remoção de CO2 que também pode suprir energia. Em seu mais recente relatório World Energy Outlook, a agência chegou a mencionar que essa rota do CCS pela biomassa vai desempenhar um papel crítico na compensação de emissões residuais visando zerar as emissões de carbono até 2050. No entanto, a agência também reforçou que os planos para a implementação do BECCS continuam insuficientes para atingir esse cenário net zero. Para ficar mais claro, vamos usar um exemplo do uso da tecnologia na produção de etanol: sabemos que o processo de fermentação para fabricar o biocombustível gera um CO2 que é o mesmo que a cana-de-açúcar ou o milho capturaram através da fotossíntese e, normalmente, esse carbono seria devolvido para a atmosfera, deixando tudo empatado em zero a zero. Mas, com o BECCS, esse CO2 é capturado e devolvido permanentemente para o solo, possibilitando emissões negativas.

CD: E, pelo que a gente vem apurando no relatório Argus Brasil Combustíveis, os planos de BECCS no Brasil são voltados para a produção de etanol, certo?

LG: Exatamente, Camila. A iniciativa é inédita no Brasil e três empresas já demonstraram interesse nessa atividade. A produtora de etanol de milho FS anunciou um projeto de BECCS para conectar sua planta em Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, a um gasoduto que transportará o CO2 capturado de suas instalações para o armazenamento subterrâneo na Bacia dos Perecis. Com um investimento de 350 milhões de reais, a expectativa da FS é remover até 432.000 toneladas de dióxido de carbono por ano. Além disso, a empresa sucroalcooleira Uisa também divulgou que planeja injetar o carbono da sua produção de etanol em Nova Olímpia, no Mato Grosso, na Bacia dos Perecis. O projeto é semelhante ao da FS, mas, no caso da Uisa, o poço vai ficar mais longe da usina, a cerca de 20km de distância da planta industrial. Por fim, a Raízen, que é uma joint venture entre a Shell e o conglomerado Cosan, também anunciou planos de BECCS para suas usinas do oeste paulista. Em conversas durante um evento de transição energética, na semana passada, a Shell Brasil nos informou que a empresa já possui um local para um provável teste, mas que ainda não tem uma localização exata para um poço definitivo. Cabe lembrar aqui que São Paulo é o maior produtor de cana-de-açúcar do Brasil, o que abre oportunidades para o estado protagonizar a cena de BECCS no país. Em outro evento que estive presente, desta vez focado na captura e armazenamento de carbono, fontes oficiais declararam que o governo do estado estuda investir em CCS por meio do setor sucroalcooleiro. Na mesma ocasião, a Petrobras, ainda que sem anúncios de projetos de BECCS, disse ter interesse em transportar e armazenar carbono por meio de parcerias com outras empresas, que poderiam ser indústrias de bioenergia.

CD: Laura, você comentou sobre o BECCS gerar carbono negativo para essas produtoras de etanol. Qual é a importância disso para a comercialização do biocombustível?

LG: O etanol carbono negativo seria valorizado em mercados que favorecem uma economia de redução dos gases de efeito estufa, como a Califórnia, com o programa Padrão de Combustíveis Renováveis, a União Europeia e o mercado global de combustível de aviação sustentável, o SAF. No caso do SAF, é preciso lembrar que o etanol pode ser uma matéria-prima para o biocombustível de aviação. Inclusive, diversas empresas brasileiras, como Raízen, São Martinho, BP Bunge e Zilor, já garantiram a Certificação Internacional em Sustentabilidade e Carbono, chamada ISCC Corsia, que comprova que o etanol à base de cana está de acordo com as exigências internacionais para a produção de SAF. Dessa forma, produtores brasileiros de etanol têm buscado se colocar como uma alternativa viável para o setor de aviação global cumprir sua ambiciosa meta de zerar as emissões de carbono até 2050. Mas, pensando nos produtores brasileiros de etanol de milho, é provável que eles encarem um desafio mais árduo para penetrar esse mercado de combustível de aviação sustentável na União Europeia, que favorece os biocombustíveis à base de resíduos e, em menor escala, sintetizados a partir de hidrogênio ou e-fuels produzidos a partir de fontes renováveis. Então, vamos continuar acompanhando por aqui todo o desenrolar dos projetos de BECCS e as dinâmicas desse futuro etanol carbono negativo para os mercados internacionais.

CD: Com certeza, esse é um tema que a Argus está cobrindo de perto dentro da nossa publicação Argus Brasil Combustíveis, então fique ligado e acompanhe nosso conteúdo. Laura, muito obrigada pela sua participação. Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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