Falando de Mercado: Explorando a Margem Equatorial brasileira, uma nova fronteira energética

Author Argus

A Margem Equatorial, faixa da costa da América Latina que engloba seis países, entre eles o Brasil, tem sido palco de grandes descobertas e investimentos, com potencial para moldar o futuro da energia no país.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Betina Moura, editora de Gás Natural e Energia Elétrica. Elas conversam sobre as expectativas do Brasil para essa área na corrida pela segurança energética em meio às questões ambientais.

Transcript:

[Camila Dias] Olá, bem-vindos ao Falando de Mercado. Está é uma série de podcasts semanais da Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para o mercado de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, sou Diretora da Argus no Brasil, e no episódio de hoje vamos conversar sobre a exploração da Margem Equatorial pelos países da região e a situação do Brasil neste contexto. Para isso, tenho a companhia hoje de Betina Moura, editora de Gás Natural e Energia da Argus no Brasil. Bem-vinda, Betina.

[Betina Moura] Olá, Camila. Olá a todos que nos ouvem. É um prazer estar aqui, obrigada pelo convite.

[Camila Dias] Betina, nas últimas semanas, vimos muita movimentação na região da Margem Equatorial. A Chevron, por exemplo, comprou uma participação importante do bloco Stabroek, na Guiana. Esse é apenas um exemplo de toda a atenção e investimento que a região está atraindo.

[Betina Moura] Exatamente, Camila. A Margem Equatorial é esta faixa da costa da América Latina. No Brasil, ela segue desde o Norte do país, partindo do Amapá, até o Rio Grande do Norte e forma cinco grandes bacias na costa brasileira. A mais famosa é a bacia do Foz do Amazonas, mas há outras cinco: a bacia Amapá, bacia do Pará-Maranhão, Bacia de Barreirinhas, Bacia do Ceará e Bacia Potiguar. Já Margem Equatorial estendida engloba outros países: Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Trindade e Tobago e Colômbia. A região já está sendo estudada e explorada há quase uma década, sendo os primeiros poços perfurados em 2015. Dados da Petrobras revelam que dos 193 poços já perfurados, foram feitas 97 descobertas. Ou seja, descobriu-se óleo ou gás em 97 projetos. Os poços da Guiana e de Suriname são as maiores descobertas depois do pré-sal. Então, você imagina a expectativa gerada no mercado e os investimentos atraídos. A Petrobras chegou a publicar no seu plano de investimentos uma previsão de 2,9 bilhões de dólares para investir na região até 2027. O principal foco da Petrobras é o bloco FZA-M-59, na bacia do Foz do Amazonas da Margem Equatorial – mas que a Petrobras está chamando de Amapá águas profundas. Esse bloco fica na fronteira marítima com a Guiana Francesa, que faz fronteira com Suriname e Guiana. A Petrobrás, no entanto, tem esbarrado em uma série de demandas do Ibama para concessão da licença ambiental para os primeiros estudos. O Ibama tem sido especialmente zeloso, em uma região sensível, ainda relativamente desconhecida, que abriga uma série de mamíferos aquáticos, corais, população ribeirinha etc. Portanto, o processo de concessão de licença para o bloco FZA-M-59 pela Petrobras está em avaliação pela equipe técnica do Ibama, após a interposição do recurso feito pela empresa, em 25 de maio de 2023. Ou seja, a Petrobras recorreu, e o recurso ainda está em análise. Enquanto isso, o Ibama concedeu duas licenças para a bacia potiguar, no Rio Grande do Norte, estado de origem do Jean Paul Prates, presidente da Petrobrás. O órgão ambiental ainda tem outras 36 outras solicitações para a região na fila de análise.

[Camila Dias] Então são 38 projetos na Margem Equatorial ao todo?

[Betina Moura] Exatamente. Só na Bacia do Foz do Amazonas são nove: o FZA-M-59, da Petrobras – mais cinco poços também da Petrobras, além de dois de duas petroleiras independentes: um da Enauta e outro da Petrorio. No restante da Margem Equatorial, há interesses da Shell e da BP, em Barreirinhas, da Wintershall, na Bacia Potiguar, e outros projetos ao longo da costa envolvendo todas essas empresas.

[Camila] E por que a Margem Equatorial ganhou tamanha importância no debate?

[Betina Moura] O volume total de reservas provadas, segundo dados atuais na Agência Nacional do Petróleo (ANP), é 14 milhões de barris de óleo equivalente. Esse número pode aumentar consideravelmente se somarmos as reservas potenciais, por exemplo. Além de 407 milhões de metros cúbicos de gás natural. O problema é que as previsões do Ministério das Minas e Energia são de declínio dessas reservas no final desta década – ou seja, a previsão é alcançar um pico de produção em, digamos, seis anos, para começar uma fase de declínio a partir de 2029. Estamos falando da produção do pré-sal. Então a preocupação aqui é estabelecer uma nova fronteira exploratória para o Brasil manter-se como um integrante relevante no mercado global de hidrocarbonetos.

[Camila Dias] O ministro Alexandre Silvera chegou a chamar a região de "passaporte para o futuro". Qual é a expectativa real do governo brasileiro em relação à Margem Equatorial? Ótima pergunta: o Ministério estima investimentos superiores a 50 bilhões de dólares nos próximos anos e uma arrecadação que bate o patamar de 200 bilhões de dólares. Não é pouca coisa, mas é claro que existem algumas vozes menos entusiasmadas. Não tanto por discordarem do potencial da Margem Equatorial, mas por terem uma visão menos determinante em relação ao futuro atual das reservas brasileiras. Mesmo com a previsão de queda de produção no final desta década – uma parte do mercado ainda tem expectativas com o potencial dos poços mais maduros, tanto da bacia de Campos, quanto da bacia de Santos. Bacias que por sinal estão bem mais próximas da costa do Brasil que a bacia do Foz do Amazonas, a 500 km de distância.

[Camila] Obrigada, Betina. Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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