Falando de Mercado: Região brasileira do Matopiba desponta como polo produtor de soja

Author Argus

A região brasileira conhecida como Matopiba passou por impressionantes aumentos na produção de soja entre as safras 2012-13 e 2022-23, passando a ser vista como um novo importante polo produtor da oleaginosa no país.

Porém, o ciclo 2023-24 pode ser desafiador para a cultura na região e interromper a série de sucessivos recordes registrados ao longo das últimas temporadas.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Nathalia Giannetti, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre quais fatores levaram à expansão do cultivo de soja no Matopiba e o que podemos esperar para a safra 2023-24. 

Transcript:

CD: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, diretora da Argus Media no Brasil. No episódio de hoje eu converso com Nathalia Giannetti, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre o boom na produção de soja na região brasileira conhecida como Matopiba e o que podemos esperar para safra 2023-24. Bem-vinda, Nathalia.

NG: Obrigada, Camila. É um prazer estar aqui no Falando de Mercado.

CD: Nathalia, o que aconteceu com a produção de soja na região do Matopiba ao longo da última década?

NG: Camila, primeiramente, vale destacar que Matopiba é um acrônimo formado pela sigla de quatro estados que compõem seu território: Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. E onde tem ocorrido uma forte expansão agrícola desde a década de 1980. Nesses últimos anos, o Matopiba tem despontado como um importante polo produtor de soja do país. Em 2022-23, esses quatro estados juntos produziram cerca de 20 milhões de t de soja. Esse total fica abaixo apenas dos dois maiores produtores brasileiros de soja do Brasil, ou seja, Mato Grosso e Paraná. Na safra 2022-23, Mato Grosso produziu mais de 45 milhões de t e Paraná produziu 22 milhões de t de soja. Há 10 anos, a produção de soja no Matopiba totalizava apenas 6,8 milhões de t. Então, os volumes triplicaram nesse período. Claro que a produção nacional de soja também cresceu exponencialmente nesta última década. Mas o avanço registrado no Matopiba supera proporcionalmente o crescimento da produção de soja de outros estados e regiões, havendo um aumento na participação do Matopiba na produção total do Brasil. Em 2022-23, a região respondeu por 13pc do recorde de 154,6 milhões de t produzidos nacionalmente. Dez anos antes, na safra 2012-13, o Matopiba respondeu por 8pc dos 81,5 milhões de t de soja colhidos no Brasil.

CD: Realmente, houve um aumento de produção bastante significativo. E o que aconteceu nesta última década que pode explicar isso?

NG: Uma combinação de avanços, Camila, tanto na área plantada, quanto de produtividade, tendências também registradas nacionalmente. Isso porque, entre 2013 e 2023, agricultores brasileiros começaram a perceber a cultura da soja como economicamente favorável. A desvalorização do real em relação ao dólar norte-americano nesse período fez com que a soja brasileira se tornasse mais competitiva no mercado de exportação, por exemplo. E com isso, produtores passaram a expandir cada vez mais a área semeada e a aumentar seus investimentos em fertilizantes, pesticidas e outros insumos agrícolas. O clima também foi outro fator bastante favorável nesses últimos 10 anos. A maior parte dos ciclos que sucederam a temporada 2012-13 foi favorecida pela ocorrência de chuvas regulares no Matopiba, que impulsionaram ainda mais a produtividade da soja. Por exemplo, nas últimas três temporadas, quando o fenômeno climático La Niña promoveu uma boa regularidade de chuvas na região, houve um aumento de 4,5 milhões de t na produção de soja da região. E no caso específico da Bahia, podemos citar a prática de cultivo de vegetação herbácea no intervalo entre os ciclos da soja para manter os níveis de umidade do solo. Essa prática contribuiu para a expansão da produção na Bahia, que saltou de 2,7 milhões de t em 2012-13 para 7,7 milhões de t de soja produzidas nesta última temporada. A Bahia é hoje o sétimo maior produtor de oleaginosas do Brasil e o maior produtor fora polo de produção do Centro-Sul. A Bahia também teve o nível de produtividade média mais alto do país em 2022-23. Há 10 anos, o estado ocupava a penúltima posição no ranking nacional de produtividade da soja.

CD: Então, já podemos esperar que a tendência de crescimento continue e a safra 2023-24 seja um novo recorde de produção no Matopiba?

NG: Então, Camila, a situação do Matopiba nessa próxima temporada é bastante complicada. O fenômeno climático El Niño, que já tem mostrado sinais de intensidade forte aqui no Brasil nas últimas semanas, deve provocar um período de estiagem na região por volta da virada do ano, prejudicando a produtividade das lavouras de soja do Matopiba. Isso se assemelha ao que ocorreu na região Sul nas últimas três temporadas, quando o fenômeno La Niña causou grandes perdas para a produção de soja, em especial no Rio Grande do Sul. Com o El Niño, há uma inversão de padrões climáticos. O Sul deve receber um aumento considerável de volumes de precipitação, enquanto o Matopiba, que desfrutou de chuvas regulares desde 2020-21, deve passar por um período de seca. A última vez que o El Niño ocorreu foi na temporada 2015-16, quando a produção da região totalizou 6,8 milhões de t, uma redução de 3,8 milhões de t em relação à temporada anterior. Caso o fenômeno seja de alta intensidade novamente, é possível que um corte anual de produção parecido com aquele aconteça.

CD: Perfeito, Nathalia. Mas ainda não há nenhuma certeza de que isso de fato vai ocorrer?

NG: Bom, Camila, até o momento, o Instituto Nacional de Meteorologia prevê que o El Niño deve variar de intensidade moderada a forte durante as estações de primavera e verão aqui no Brasil. Mas ainda é tudo muito incerto, essa previsão pode mudar até a chegada do período crucial para o desenvolvimento das lavouras de soja, que costuma ser de dezembro a fevereiro. Além disso, o Brasil está sujeito à influência de outros fenômenos climáticos e massas de ar, que podem reduzir ou ampliar os efeitos do El Niño.

CD: Interessante, Nathalia. Vamos ver quais serão os próximos desdobramentos para o Matopiba nesta safra 2023-24. E obrigada pela participação. Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

Related blog posts

08 março 2023

Falando de Mercado: O impacto da reoneração dos combustíveis

A reoneração parcial da gasolina e do etanol movimenta os mercados de combustíveis e dos créditos de descarbonização (Cbios), em um debate que pode voltar ao radar em junho.

Filter:

Português Derivados de petróleo América Latina e Caribe

15 junho 2023

Falando de Mercado: Monofasia da gasolina sai do papel

A implementação da cobrança monofásica do ICMS para a gasolina entrou oficialmente em vigor no início de junho, possibilitando a incidência do imposto apenas uma vez, no primeiro elo da cadeia.

Filter:

Derivados de petróleo Português América Latina e Caribe

23 maio 2023

Falando de Mercado: Mercado de Cbios reage às mudanças no Renovabio

O governo restabeleceu o período de 12 meses até dezembro de cada ano para comprovação das metas do Renovabio, praticamente dando início à agenda de fortalecimento da Política Nacional de Biocombustíveis.

Filter:

Bioenergia América Latina e Caribe Português