Falando de Mercado: Tendência mista para nitrogenados no Cone Sul

Author Argus

A atividade no mercado de nitrogenados deve continuar reduzida na Argentina, onde agricultores poderão substituir a área plantada de milho por soja, já que o custo de produção da oleaginosa é inferior ao do grão. No Paraguai, negócios de sulfato de amônio devem se intensificar em outubro para atender às necessidades para a safra de milho.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Renata Cardarelli, editora adjunta da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre a demanda por nitrogenados nos mercados do Cone Sul.

Transcript:

CD: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil. No episódio de hoje, converso com Renata Cardarelli, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre a tendência para os fertilizantes nitrogenados no Cone Sul. Olá, Renata, bem-vinda.

RC: Olá, Camila. É um prazer estar aqui.

CD: Renata, o mercado argentino tem apresentado demanda reduzida por nitrogenados. Essa tendência deve permanecer?

RC: Fontes do mercado argentino relatam que o último negócio de ureia granulada aconteceu a $420-430/t cfr, mas os preços avançaram para cerca de $445-455/t cfr. Participantes que operam na Argentina afirmam que há poucas ofertas de venda e que apenas negócios pontuais deverão acontecer até outubro. É importante ressaltar que as importações argentinas de ureia granulada diminuíram 28pc, para 307.900t de janeiro a julho na comparação com o mesmo período do ano anterior, à medida que participantes de mercado têm dificuldade para acessar dólares norte-americanos enquanto o país atravessa uma crise econômica, com o peso argentino perdendo mais da metade do seu valor em um ano. Como alternativa, alguns compradores pagam fornecedores globais em yuan chinês. Empresas globais sediadas em outros mercados tentam pagar produtores globais de fertilizantes fora da Argentina. A baixa liquidez é exacerbada pelo período de eleições presidenciais. Nas semanas anteriores e posteriores às primárias de 13 de agosto, a atividade do mercado foi reduzida devido à incerteza quanto à evolução política na Argentina.

CD: Essa dificuldade de acesso aos dólares norte-americanos tem algum efeito na decisão de compra de fertilizantes por parte de participantes do mercado argentino?

RC: Sem dúvida, Camila, agricultores argentinos podem tomar uma decisão de última hora e substituir milho por soja na safra 2023-24, já que o custo de produção da soja é inferior ao do milho. O milho é uma cultura que necessita entre 180-300kg/hectare (ha) de fertilizante na Argentina, acima das necessidades de fertilizante da soja, de cerca de 62kg/ha. Em comparação, no Brasil, o solo precisa em média de 400kg/ha de fertilizante para cultivar soja. Os custos mais baixos no mercado argentino são reflexo da redução da demanda por fertilizantes. Participantes de mercado estimam que os custos de produção da soja na Argentina representam cerca de 15pc do custo no mercado brasileiro. Os custos de produção da soja são estimados em R$4.179/ha em Mato Grosso. Os fertilizantes utilizados no plantio da soja na Argentina são basicamente MAP e SSP. As importações argentinas de MAP diminuíram 6pc, para 430.200t nos primeiros sete meses do ano, em relação ao mesmo período do ano anterior. A faixa semanal de DAP/MAP da Argus ficou em $550-555/t cfr Argentina em 31 de agosto, queda de 21pc em relação ao início de janeiro. Mas agricultores podem intensificar as compras de SSP, uma vez que a Argentina tem produtores regionais do fosfatado e compradores podem pagar os volumes com o peso argentino.

CD: Renata, essa redução na importação argentina de nitrogenados e a decisão de última hora para substituir milho por soja tem algum efeito nas compras de fertilizantes de outros países do Cone Sul?

RC: A redução da atividade na Argentina afeta os mercados locais, especialmente Uruguai e Paraguai. Historicamente, o Uruguai depende de embarcações de fertilizantes que primeiro desembarcam na Argentina e depois são reenviadas para o Uruguai. O Paraguai é um país sem costa marítima, onde compradores costumam arbitrar entre os preços praticados na Argentina e no Brasil para fechar negócios de fertilizantes. Compradores paraguaios têm dificuldade para encontrar caminhões disponíveis para transportar fertilizantes do Brasil para suprir suas necessidades de última hora para a soja, enquanto no Brasil caminhões estão ocupados transportando grãos para corredores de exportação e fertilizantes para produtores de soja.

CD: O Paraguai está em momento de compra de fertilizantes nitrogenados?

RC: Quando o plantio da soja avançar, negócios de fertilizantes nitrogenados para o milho deverão se intensificar. As entregas para a soja deverão continuar até outubro, enquanto o plantio já começou em algumas áreas do leste do país no início de setembro. Participantes do mercado local estimam que cerca de 65pc das necessidades de nitrogenados foram atendidas para o cultivo de milho no Paraguai, à medida que as compras de fertilizantes se intensificaram no fim de julho. Espera-se que os 35pc restantes sejam adquiridos em setembro-outubro, com expectativa de aumento de importações no período. O Paraguai deve intensificar as importações de sulfato de amônio (SA), nitrogenado comumente usado em formulações NPK para o milho, como 12-15-15, 10-15-15 e 15-15-15. As importações de SA totalizaram cerca de 87.700t nos primeiros oito meses do ano, aumento de 15pc na comparação anual.

CD: Muito obrigada, Renata. Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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