
E-combustíveis e a descarbonização do transporte marítimo
Combustíveis sintéticos podem ajudar o transporte marítimo a zerar emissões até 2050; especialistas discutem oportunidades, desafios e o futuro deste mercado.
- 25 de fevereiro de 2026
- : Oil Products, Marine Fuels
Os combustíveis sintéticos se destacam como uma rota promissora para alcançar zero emissões líquidas de gases de efeito estufa no transporte marítimo até 2050. Natália Coelho, colaboradora do relatório Argus Marine Fuels, e Pâmela Machado, que cobre hidrogênio e derivados, discutem as oportunidades e desafios em torno desses combustíveis limpos, incluindo o recente adiamento da votação sobre precificação de carbono na Organização Marítima Internacional.
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Natália Coelho: A missão de descarbonização do transporte marítimo da Organização Marítima Internacional, a IMO, pode ser um desafio, mas um tipo de combustível parece ser uma boa solução para atingir a meta de zero emissões dos gases do efeito estufa, os combustíveis sintéticos.
Olá todo mundo, meu nome é Natália Coelho e eu sou repórter de combustíveis marítimos aqui na Argus.
Pamela Machado: E eu sou Pâmela Machado, sou repórter sênior na Argus, cobrindo o setor de hidrogênio e derivados. Essa é mais uma edição do Falando de Mercado, uma série de podcasts semanais da Argus Media sobre setores de commodities, de energia no Brasil e no mundo.
No episódio de hoje, eu e Natália vamos falar sobre como essas commodities se convergem nos chamados combustíveis sintéticos e como esse mercado tem enxergado essa que pode ser uma das soluções para a descarbonização do setor de transporte marítimo.
NC: Os e-fuels, como o e-amônia e o e-metanol, são feitos a partir da separação da molécula de hidrogênio da água usando eletricidade de pouca ou até nenhuma emissão de carbono.
PM: Essas moléculas então são combinadas com o dióxido de carbono para fazer o metanol ou com o nitrogênio para fazer a amônia verde. Isso resulta em um combustível com zero ou quase zero emissões de gases de efeito estufa, o que é apontado como um dos combustíveis mais limpos. Ainda não possuem restrições em sua matéria-prima, como, por exemplo, acontece com alguns biocombustíveis.
NC: Mas, apesar de parecerem uma boa solução para a descarbonização, são poucos os participantes do mercado que estão dispostos a apostar nos combustíveis sintéticos, principalmente após o adiamento da votação da classificação de carbono da IMO. E sem essa regulamentação, não há um incentivo claro para os participantes.
PM: As incertezas também têm a ver com a pouca disponibilidade desse produto, não só para o transporte marítimo, mas também para outras áreas, sem falar nas poucas estruturas portuárias disponíveis atualmente para armazenar e distribuir esses combustíveis sintéticos. Tudo isso encarece o preço final do produto, e, se não há uma regulamentação ou algum incentivo, é difícil convencer os armadores a pagar esse preço.
NC: E o adiamento da votação da IMO ampliou todas essas incertezas. Mas antes da reunião de outubro acontecer, produtores de e-fuels fizeram apelo aos delegados dos países participantes da IMO para aprovarem esse mecanismo de classificação e darem
um tratamento favorável aos combustíveis sintéticos. Esse grupo inclui grandes empresas de shipping, como a Moeve, a Green North Energy e a European Energy.
PM: Projetos de hidrogênio e derivados, como os combustíveis sintéticos, precisam de um empurrão regulatório para se materializarem. O custo de produção é alto e consumidores ainda não estão dispostos a pagar mais por combustíveis verdes. A precificação e taxação de carbono em produtos fósseis seriam medidas que poderiam incentivar o uso de alternativas mais limpas.
Projetos de hidrogênio e e-fuels são estruturalmente complexos. Eles envolvem a integração de novas tecnologias numa só planta. Por isso, eles requerem alto investimento de capital.
Ainda mais, esses projetos precisam de um contrato de 10 anos de fornecimento, no mínimo, para conseguir financiar seus planos. Este acaba sendo o maior desafio do mercado nesse momento. Natália, como o mercado de combustíveis marítimos reagiu ao adiamento da votação da IMO?
NC: Pâmela, não houve um consenso na reação do mercado. Um lado falou exatamente da escassez de combustíveis alternativos, como você acabou de mencionar, que incluem combustíveis sintéticos, que estariam impedindo uma adoção mais ampla. Os participantes também mencionaram as regulamentações existentes na Europa, como a FuelEU, que poderia fazer com que o preço a ser pago pela compliance fosse dobrado.
Já uma outra metade do mercado, que incluía organizações marítimas, como a International Chamber of Shipping, disse estar decepcionada com o adiamento, visto que falta exatamente esse direcionamento caro para a indústria. Muitas empresas e participantes também falaram da influência do presidente dos Estados Unidos, o Donald Trump, no adiamento, visto que ele foi um crítico ao mecanismo desde o início de seu mandato.
PM: Mas mesmo se tivesse sido aprovado, a precificação de carbono da IMO não teria dado um grande incentivo a combustíveis sintéticos nos primeiros anos, porque o preço de carbono ainda não seria alto o suficiente. De acordo com algumas estimativas da consultoria da Argus, seria ali por meados da década de 2030 que o uso de combustíveis como a amônia e o metanol ganharia realmente escala. Como tem sido a procura por biocombustíveis?
NC: Quando a gente compara o mercado de biocombustíveis com os dos combustíveis sintéticos, a gente percebe como os biocombustíveis têm sido uma das principais escolhas por serem considerados exatamente combustíveis de transição para zerar as emissões e porque principalmente não é preciso uma mudança nas embarcações para
usá-los. A título de comparação, um barco que roda a óleo e combustível ou a diesel marítimo consegue também rodar com biocombustível sem nenhuma alteração no barco, mas não com metanol ou com e-metanol. Então é preciso colocar todos esses custos na ponta do lápis.
PM: Pois é. O grande incentivo atual para os combustíveis sintéticos é a política europeia do setor marítimo, a chamada FuelEU Maritime, como você disse. Esse é um quadro regulatório europeu que impõe altas multas aos participantes que não baixarem as emissões.
O programa também incentiva combustíveis sintéticos por via do uso do multiplicador, o que significa que cada molécula de e-fuel usada numa embarcação tem a sua redução de gases de efeito estufa multiplicada por dois.
NC: E o uso dos sintéticos também será obrigatório pela FuelEU a partir de 2034, quando os armadores precisarão usar pelo menos 2pc de e-fuel.
PM: Apesar desses contratempos no mercado, a empresa de tecnologia marítima Accelleron avaliou que as tecnologias já existentes de hidrogênio e de e-fuels já estão suficientemente maduras quando falamos para o seu uso no transporte marítimo.
NC: Outra estratégia para estimular o uso de fuels são os chamados corredores verdes, que são rotas geralmente entre portos em que os barcos devem usar combustíveis de zero ou pelo menos de quase zero emissão. A depender da estratégia, os armadores podem até ser beneficiados com redução de taxas portuárias ou até prioridades na hora de entrar no porto. É o caso, por exemplo, do corredor verde entre Antuérpia, na Bélgica, e o Porto de Açu, no Brasil, em que haverá desconto nas taxas dos portos.
PM: Atualmente, existem 84 iniciativas de corredores verdes no setor marítimo pelo mundo. Isso segundo o mapeamento do Fórum Marítimo Global. A União Europeia também está tentando impulsionar o desenvolvimento do mercado de e-fuels por meio de leilões bilaterais e subsídios.
Bruxelas inaugurou recentemente a terceira rodada do Banco Europeu de Hidrogênio, que é o seu maior instrumento de promoção de hidrogênio do bloco. Essa rodada inclui um orçamento de 300 milhões de euros destinados exclusivamente à aquisição de combustíveis sintéticos para os setores de aviação e o setor marítimo.
NC: Mas, apesar de tais incentivos, parece que a gente ainda vai ter que aguardar mais alguns anos para poder ver os combustíveis sintéticos despontando como realmente alternativas viáveis para a descarbonização, né, Pâmela?
PM: Pois é, Natália. As políticas de uso de combustíveis sintéticos vão realmente incentivar o mercado em 2030 e adiante. Nestes próximos anos, os temas-chave vão ser a clareza regulatória e a estruturação de projetos.
Mas, enquanto isso, você pode acompanhar mais notícias sobre e-fuels, hidrogênio e combustíveis marítimos nas plataformas da Argus Media.
NC: E no site você também encontra mais episódios do nosso podcast.
PM: A gente volta em breve com mais uma edição do Falando de Mercado. Até já!

