
Market Talks: Outlook for Brazilian soybean and corn crops
- 19 de maio de 2025
- Market: Agriculture
As projeções de enormes safras de soja e milho na temporada 2024-25 fortalecem a posição do Brasil no mercado de exportação, principalmente para países como a China, em meio às reviravoltas da política tarifária dos Estados Unidos. Mas a demanda doméstica também deve aumentar e intensificar os entraves logísticos. Saiba mais sobre as perspectivas de oferta e procura por commodities agrícolas nessa conversa entre Nathalia Giannetti, especialista em agricultura e uma das responsáveis pelos relatórios Argus AgriMarkets e Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, e Camila Fontana, chefe adjunta de redação da Argus em São Paulo.
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Camila Fontana: Olá pessoal, sejam bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts semanais da Argus Media sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Eu sou Camila Fontana, chefe adjunta da redação da Argus no Brasil. Eu estou aqui com Nathalia Giannetti, ela é especialista em agricultura e uma das responsáveis pelos relatórios Argus AgriMarkets e Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Hoje a gente conversa sobre quais serão as perspectivas para safras de soja e milho nesta última etapa da temporada 2024-25.
Nathalia, com essa colheita praticamente finalizada, o que a gente pode dizer de uma forma geral sobre essa safra de soja?
Nathalia Giannetti: Então, Camila, a safra de soja da temporada 2024-25 já está confirmada para ser um recorde de produção. Anteriormente, esse recorde pertencia ao ciclo 2022-23. O Brasil segue sendo o maior produtor de soja do mundo e mantém uma grande vantagem sobre os Estados Unidos, que é o segundo maior produtor.
As condições climáticas foram ideais no maior estado produtor de soja do país, que é o estado de Mato Grosso, que está previsto para também produzir um recorde nessa temporada. Alguns estados como Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul, que também são grandes produtores, chegaram a apresentar alguns problemas com a seca, mas esses problemas foram bastante pontuais. E, no final, a produção recorde de Mato Grosso vai mais do que compensar quaisquer perdas nesses outros estados.
O único estado que passou por problemas severos esse ano foi o Rio Grande do Sul, que no início esperava também uma produção recorde, mas, no início do ano, passou por uma estiagem severa que derrubou as produtividades das lavouras, com algumas passando a apresentar perdas totais do potencial produtivo. Mas, novamente, os resultados de Mato Grosso devem mais do que compensar essas perdas.
Esse recorde de produção do Brasil tem muito a ver com uma tendência de expansão de área plantada que a gente já vê há quase 20 anos. Neste ano, a expansão até superou as expectativas iniciais. Há mais ou menos um ano, participantes de mercado esperavam que os produtores fossem expandir a área plantada em aproximadamente 1pc, porque os preços continuam bastante baixos devido a um excesso de oferta global. Mas, no final, os produtores decidiram expandir a área plantada em aproximadamente 3pc em meio a expectativa de maior demanda pra soja nesse ano.
CF: Então você já falou da oferta, desse cenário ai pra oferta que promete ser bastante grande. E, agora, a gente tem que falar da demanda, principalmente ai pensando em exportações. Qual é o cenário para a venda externa de soja neste ano, Nathalia?
NG: O Brasil é o maior exportador de soja do mundo e deve embarcar um volume recorde neste ano, que pode chegar a totalizar 110 milhões de toneladas, devido a uma produção nacional também recorde e a uma demanda externa bastante forte. O Brasil está agora no meio da sua temporada de exportação de soja, uma vez que a colheita ainda está em andamento e logo deve ser finalizada e os embarques acumulados até então são recordes.
A China é o maior importador de soja do mundo e recebe mais de 100 milhões de toneladas de soja a cada temporada. O Brasil é o principal fornecedor de soja para a China. A China recebe pelo menos 70pc da soja exportada pelo Brasil a cada ano desde 2020.
Agora pro resto do ano, ainda há muita incerteza. Com base no dia de hoje em que estamos gravando o podcast, dia 8 de maio, China e Estados Unidos ainda não chegaram a um acordo sobre as tarifas e não se sabe ainda se esse acordo realmente vai acontecer. Caso não aconteça, a tendência seria a China importar mais soja do Brasil.
Da última vez que os Estados Unidos tarifaram a China, a China retaliou e tarifou os Estados Unidos e passou a importar mais soja do Brasil. Desde 2018, a China expandiu o recebimento de soja brasileira. Então, naquela época, a China respondia por mais ou menos 60, 65pc das exportações brasileiras e agora já ultrapassa 70pc.
Mas eu tenho escutado em conversas com o mercado que esses primeiros impactos da preferência da China pelo Brasil só seriam notados a partir da segunda metade do ano. Essa é a época em que a China costuma a passar das exportações do Brasil para as exportações dos Estados Unidos, porque os Estados Unidos já estão colhendo a sua próxima safra de soja e o Brasil ainda está no começo do plantio.
É importante lembrar que existem outros países que podem fornecer soja para a China, então não seria só o Brasil. Temos a Argentina, temos o Paraguai, mas o Brasil é o que tem a maior capacidade de atender à demanda chinesa que é bastante grande.
CF: E Natália, dentro desse cenário de demanda que você descreveu para a gente, né? De demanda externa, sobretudo, como você e a equipe aí estão vendo o impacto que esse cenário teria sobre preço, sobre fretes?
NG: A questão do preço é bastante incerta, mas a tendência de quando há um aumento de demanda é que os preços subam. E isso pode até compensar uma pressão que já está acontecendo há muito tempo, que é de um excesso de oferta.
Nesse começo de ano, todo mundo esperava que os preços da soja despencassem por causa de uma safra recorde. Mas não foi isso que aconteceu. Todo esse conflito das tarifas deu um suporte para os preços brasileiros de soja, especialmente para os diferenciais portuários, que são os preços negociados no porto, no mercado de exportação. Eles permanecem positivos, em vez de caírem para níveis negativos. Então, eles representariam um desconto em relação ao preço negociado na Bolsa de Chicago.
Foi isso que aconteceu há 2 anos quando o Brasil colheu uma safra recorde. Quanto à logística, uma maior demanda chinesa pode comprometer os fluxos logísticos na segunda metade do ano. Essa é a época em que o Brasil costuma exportar bastante milho. Então, com muita soja e muito milho chegando aos portos, é provável que as filas de espera para embarque nos navios fiquem bastante longas, o que encareceria o custo de exportação.
CF: Então agora, a gente falou bastante, né, de soja, das exportações de soja. E o milho? Pensando aí qual que é o cenário para safra 2024-25?
NG: Antes de explicar esse cenário, eu acho importante destrinchar um pouco como é a produção de milho no Brasil, principalmente para os ouvintes que não conhecem muito esse mercado. O Brasil tem três safras de milho, sendo a segunda a maior e mais relevante, quando a gente pensa em exportação.
A primeira safra, que é conhecida como safra de milho verão, é semeada junto da soja no verão, então por isso o nome e ela costuma perder muito espaço porque os produtores preferem semear soja, porque a soja tem naturalmente preços mais altos e uma demanda externa muito forte. Tem também a terceira safra de milho que é semeada apenas em alguns estados do Nordeste nessa primeira metade do ano e representa uma parcela mínima da safra total de milho do Brasil.
Então, a mais importante é sim a segunda safra de milho, que também é conhecida como safra de milho inverno, por ser colhida durante o inverno brasileiro e também como “safrinha”.
CF: Ela não é pequena, né, Natália? Ela é “safrinha”, mas não é pequena.
NG: É, porque ela começou a ser cultivada como uma cultura de cobertura para soja em pequenas áreas e desde então começou a se expandir, porque os produtores perceberam uma grande oportunidade de lucro.
O plantio da safra de milho inverno, dessa temporada já foi finalizado e a colheita costuma começar agora em meados de maio. Até o momento, as lavouras têm apresentado condições excelentes de desenvolvimento. Muitos produtores decidiram investir bastante nessa temporada, porque há uma expectativa que os preços subam ao longo do ano, porque é uma expectativa que a demanda do milho supere a produção.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos projeta que essa diferença seja de mais de 25 milhões de toneladas. A Conab espera que a temporada 2024-25 de milho no Brasil seja a segunda maior da série histórica e esteja apenas alguns milhões de toneladas abaixo do recorde da safra 2022-23, que apresentou condições climáticas ideais para as lavouras. A safra atual enfrenta alguns problemas pontuais por causa da falta de chuvas, especialmente no Paraná e em Goiás, que são dois dos maiores produtores de milho do país.
Mas o estado de Mato Grosso, que é o maior produtor de milho, assim como é também o maior produtor de soja, tem apresentado um clima perfeito. O regime de chuva tem superado as expectativas e a média para essa época do ano.
CF: E com certeza os produtores aí estão torcendo por uma demanda externa bastante grande, né? Qual que é a perspectiva para a exportação de milho?
NG: As exportações de milho deste ano ainda estão bastante incertas, não se sabe ainda se haverá um aumento ou uma queda em relação ao ano passado, mesmo que a safra 2023-24 tenha sido menor. Isso porque tudo depende de uma demanda doméstica.
A demanda doméstica brasileira tem crescido bastante, porque as indústrias de etanol de milho e de ração animal estão em expansão no Brasil e ano passado já consumiram volumes recordes e tudo indica que esse ano vão repetir um recorde de produção mais uma vez e a tendência é que a partir de então isso siga acontecendo e com isso as exportações perdem espaço. Então a Conab espera que quase 70pc da produção nacional permaneça no país.
O setor de etanol de milho é o principal responsável por esse predomínio no mercado doméstico. Há uma expectativa que a produção de etanol de milho cresça 32pc na safra 2024-25 com cerca de 19 milhões de toneladas de milho destinadas à indústria de biocombustíveis. A maioria das usinas de etanol de milho está localizada em Mato Grosso. Então a safra do estado, que é a maior do país, deve abastecer essa indústria em grande parte.
Mas até o momento a gente não tem observado uma demanda tão forte vindo do etanol de milho e também do setor de ração. Isso porque a tendência é que as compras dessas indústrias se intensifiquem a partir da segunda metade do ano. No segundo semestre de 2024, essa demanda impulsionou os preços domésticos e incentivou os produtores a avançar bastante nas vendas da safra 2023-24, que estavam atrasadas.
O mercado de exportação tentou acompanhar esses aumentos de preço, mas os importadores não quiseram subir as suas ofertas de compra para alinhar com os preços domésticos, então os importadores foram atrás de outras origens, o que acabou deixando o nosso mercado de exportação de lado. A tendência é que isso volte a se repetir este ano.
CF: Muito obrigada, Nathalia! E a Argus Media, claro, vai continuar acompanhando os mercados de milho e soja no Brasil e compartilhar as atualizações com os nossos ouvintes.
Obrigada você que está aqui com a gente e lembrando que este e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site argusmedia.com.
Visite a nossa página para saber mais sobre os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities. A gente volta em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até a próxima!

