• 1 de fevereiro de 2026
  • Market: Oil Products

A captura de Nicolás Maduro pelos EUA mudou a dinâmica do mercado de petróleo venezuelano, inserindo barris antes sancionados no mercado global e pressionando preços de óleos pesados na América Latina. Conrado Mazzoni, gerente de desenvolvimento de negócios da Argus, conversa com João Scheller, especialista em petróleo da Argus, sobre como esses fluxos podem afetar Colômbia, Equador, Brasil e o Golfo americano nos próximos meses.

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Marcos Mortari: Os fluxos de diesel russo para o mercado brasileiro voltaram com força total neste início de 2026. Mas será que esse protagonismo veio para ficar? Quais são as tendências daqui para frente? 

Eu sou Marcos Mortari, um dos responsáveis pela publicação Argus Brasil Combustíveis, e hoje recebo no podcast “Falando de Mercado” Amance Boutin, gerente de desenvolvimento de negócios da Argus. Amance, seja muito bem-vindo! 

Amance Boutin: Obrigado, Marcos. 

MM: Amance, você acompanhou de perto o amadurecimento do mercado brasileiro de diesel nos últimos anos. Um dos momentos mais marcantes foi a crescente presença do diesel russo nos nossos line-ups, após o início do conflito com a Ucrânia, em 2022, e a imposição das sanções pelos Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido contra Moscou. Qual sua visão sobre o atual momento do mercado e o que o passado recente pode nos ensinar sobre o que está por vir? 

AB: Olhando o que temos observado nesses oito anos que eu estou acompanhando esse mercado, os importadores brasileiros sempre precisam trazer os volumes de diesel para compensar essa produção doméstica, equilibrando, no tudo, três pratos. Primeiro prato tem a ver com preços. Qual a origem mais competitiva do produto? Como esse preço do produto importado se compara com o produto da Petrobras hoje, se vale a muito a pena ou pouco a pena? O que posso esperar de preço e oferta de produto nas próximas semanas? É uma visão tática e dinâmica, que tem como horizonte o curto prazo, no máximo dois meses. O segundo prato é pouco comentado, na verdade, que é a questão da segurança de abastecimento. Isso tende a contrabalançar um pouco a primeira questão do preço porque tem a ver mais com a questão de longo prazo e de estratégia da companhia que importa. O quanto eu posso esticar meu suprimento de um fornecedor para outro? Posso diminuir meu fornecimento com a Petrobras? Que aliás, no momento, é o barril de diesel mais caro, mas e amanhã? O diesel russo, hoje, é muito mais em conta, mas será que não vale cultivar minha relação comercial com meu fornecedor no Golfo Americano, já que ele consegue me abastecer mais rápido e que eu sei que tem mais garantia de continuidade do abastecimento do lado dele? E aí tem o terceiro ponto, que é mais recente com a questão do advento do diesel russo, que é a questão do risco da carga, o risco do produto. Mas isso eu acho que você já tem esse dedo no pulso melhor do que eu, não é, Marcos? 

MM: É, Amance, de fato, a gente pode dizer que os fluxos russos para o Brasil atravessaram um duro inverno no último trimestre de 2025. Foi uma sequência de eventos que começou com aquelas paradas programadas em refinarias, que eram relevantes na Rússia, um aumento sazonal na demanda da Turquia, que é um dos principais parceiros comerciais e consumidores do diesel russo, e o avanço daqueles ataques que a gente viu de drones ucranianos a refinarias da Rússia. A escalada do conflito exigiu manutenções não programadas em instalações russas, e isso afetou drasticamente a produção russa. Consequentemente, vimos uma redução nos desembarques a partir dos dois principais portos que exportam produto aqui para o Brasil, que são Primorsk e Vysotsky. Esses reflexos a gente percebeu até quase o fim do ano passado. Mas, a partir de dezembro, esse ritmo de produção deu uma acelerada com a conclusão de várias dessas manutenções das refinarias, e as ofertas para o Brasil voltaram a ganhar tração. Os descontos começaram a crescer em comparação com cargas ofertadas de outras origens, como o Golfo Americano que é sempre o mercado de referência para o Brasil, e importadores brasileiros voltaram a buscar oportunidades na Rússia. Nos últimos dias, escutamos inclusive histórias de grandes distribuidores brasileiros que estavam revendendo cargas que eles tinham comprado nos Estados Unidos para aproveitarem melhor os descontos que estavam sendo oferecidos pelo produto russo. 

AB: Olha, muito interessante isso, Marcos. E você acha que a gente está de volta a um cenário que se estendeu ali de 2023 até meados de 2025, e se for o caso, qual seria sua avaliação sobre o papel que as cargas sancionadas desempenharam sobre o comportamento do mercado brasileiro? 

MM: Olha, uma boa pergunta, Amance. A continuidade desse cenário depende diretamente de uma série de variáveis que são relevantes aqui, que passam dos níveis de produção das refinarias russas, a demanda local, os volumes que vão ser disponibilizados para exportação, e o próprio comportamento dos preços, e como devem atuar alguns dos importantes parceiros comerciais de Moscou, como a própria Turquia. O surgimento das novas sanções, o próprio enforcement dos bloqueios que já estão em vigor também devem desempenhar um papel muito relevante sobre o futuro dos fluxos de diesel russo para o Brasil, assim como o andamento das conversas em torno de um possível acordo de paz entre Rússia e Ucrânia. Neste momento, grandes distribuidoras, por questão de compliance, não encostam em cargas que consideram vinculadas a algum tipo de sanção. Elas temem que o incremento de fluxos de cargas sancionadas no mercado, operadas muitas vezes por competidores regionais e até mesmo refinadores, possa gerar distorções no mercado e cria vantagens competitivas para quem pode acessar essas cargas. Mas esse não deve ser só um fator isolado no mercado. Olhando um pouco para frente, Amance, quais devem ser os principais drivers para o mercado brasileiro de diesel em 2026? 

AB: Bom, tirando a lupa do Brasil, olhando mais para um cenário mais macro, a gente segue num mesmo ambiente paradoxal ali de mercado: de um lado, um risco geopolítico exacerbado, e isso tende a criar uma volatilidade forte no dia a dia e picos súbitos de preço; enquanto, de outro, tem um quadro de fundamento de mercado, a relação entre oferta e demanda, que aponta para preços pressionados, para baixo. Nessa virada do ano, vimos o risco geopolítico aumentar de forma preocupante. O principal acontecimento, que mais tem impacto ali entre todos no nosso mercado de energia, é a Venezuela. Embora não tenha repercussões, no curto-prazo, para o mercado brasileiro, a captura do Maduro pelos Estados Unidos muda a equação do médio-longo prazo. As majors americanas vão topar esse desafio jogado pelo Trump a elas de investirem no aparelho produtivo da Venezuela para retomar a exploração, a produção de petróleo pesado? Vale a pena para elas, diante do cenário atual de transição energética liderado pela China, sendo que a gente só deve ter um aumento da exploração do petróleo num horizonte sem cadeias até 15 anos? E, do outro lado, surgem questões mais macro sobre a questão da ordem global, como é a questão da relação dos europeus com os EUA, e a própria existência da Otan, que é um pilar da ordem mundial desde o final da Segunda Guerra Mundial. Isso é um pouco mais afastado da realidade de mercado de energia, mas não deixa de gerar aquele ruído de mercado, aquele aumento de preço súbito no dia a dia que recai no dia seguinte, sabe como é? E agora, entre as questões mais atuais, tem a questão do Irã, o que pode acontecer com o regime iraniano que está passando por uma crise de revoltas no país inteiro. Hoje, esse país tem restrições para importar seu petróleo. E como esse rebuliço pode mudar esse cenário? Resumindo, Marcos, eu diria que é muito ruído que vai mexendo muito com as cotações no dia a dia. Enquanto isso, tem a produção da Opep que cresce, na questão de fundamentos, de oferta e demanda, e esse cenário vem se chocando com essa fotografia de demanda ali que não parece encontrar mais um motor de crescimento desde que o consumo chinês de petróleo começou a estagnar. Eu diria que é isso, esse quadro ambivalente entre ruídos de mercado, riscos geopolíticos e os fundamentos de mercado, mais de médio-longo prazo. 

MM: Muito bom. Amance, muito obrigado por compartilhar conosco suas visões no “Falando de Mercado”. E obrigado a você que nos acompanhou neste episódio. Até a próxima!