Os fretes rodoviários de grãos e fertilizantes podem aumentar em 2026, visto que uma produção recorde de soja na safra 2025-26 pode impulsionar a demanda por serviços de transporte no primeiro trimestre, com muitas áreas sendo colhidas simultaneamente.
Os preços do frete de grãos no Brasil permaneceram em níveis elevados durante 2025, com a produção recorde de soja e milho ao longo do ciclo 2024-25 contribuindo para tarifas acima da média em comparação com 2024. No trecho Sorriso-Miritituba, as tarifas ficaram em média cerca de 12pc acima dos níveis de 2024, enquanto na rota Rondonópolis-Santos o aumento foi de cerca de 6pc. Os fretes também devem subir com o transporte de fertilizantes para a segunda safra de milho 2025-26 em maio.
No mercado de exportação, especialmente para a soja, as tensões comerciais entre a China e os Estados Unidos levaram o país asiático a recorrer às oleaginosas brasileiras para suprir a demanda. Isso ampliou a janela de exportação do Brasil e resultou em uma demanda constante por serviços de transporte rodoviário.
Para 2026, com o Brasil provavelmente registrando produção recorde de soja no ciclo 2025-2026, espera-se uma maior demanda por serviços de transporte nos corredores de exportação, o que também pode resultar em fretes mais caros.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que o Brasil produzirá 177,6 milhões de toneladas (t) de soja no ciclo 2025-26, aumento de quase 3,6pc em relação à safra anterior e o maior volumes já registrados, afirma a segunda projeção oficial para o ciclo. Mato Grosso, maior produtor nacional, deve colher 47,2 milhões de t de soja no ciclo 2025-26, de acordo com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). Isso representaria uma queda de 7,3pc em relação à produção de 2024-25, mas ainda assim seria a segunda maior da história do estado.
De modo geral, o ritmo de plantio para o ciclo 2025-26 transcorreu sem grandes problemas. O plantio registrou um aumento significativo ao longo de outubro. Nas primeiras quatro semanas de plantio, 21,2pc dos quase 13 milhões de hectares (ha) estimados para o ciclo foram semeados até 10 de outubro. No entanto, o plantio avançou 54,9 pontos percentuais ao longo do mês, totalizando 76,1pc até 31 de outubro.
Mais da metade da área de soja de Mato Grosso foi plantada durante o mesmo período. Isso gera preocupação entre participantes de mercado quanto à alta concorrência pelo transporte nos corredores de exportação e à disponibilidade de veículos, resultando em um gargalo logístico, já que a colheita dessas áreas também precisa ocorrer simultaneamente.
As questões climáticas continuam sendo uma preocupação. O acúmulo de chuvas em Mato Grosso durante novembro reduziu o estresse hídrico e favoreceu o desenvolvimento das lavouras. No entanto, as chuvas permaneceram irregulares em outras regiões, situação que pode prejudicar a produtividade no estado. Isso também pode afetar o período de plantio do milho e sua colheita no segundo semestre de 2026. Embora o Brasil espere uma produção significativa de milho, o mercado interno tem absorvido a maior parte do volume do grão, superando as exportações.
Isso deve resultar em menores níveis de frete de grãos durante o período, com boa parte da produção destinada à demanda da indústria brasileira. A produção de etanol de milho no Brasil deverá totalizar 8,7 bilhões de litros (l) no ciclo 2025-26, aumento de 11pc em comparação com os 7,8 bilhões de l produzidos no ciclo anterior. A Conab estima que 1t de milho pode produzir cerca de 400l de etanol, o que significa que aproximadamente 21,8 milhões de t de milho serão consumidas pela indústria de etanol, ante 18 milhões de t no ano anterior.
Fretes de fertilizantes devem subir
O transporte de fertilizantes também pode enfrentar gargalos logísticos no deslocamento de insumos dos portos para o interior do país, devido ao ritmo lento de compras de fertilizantes, especialmente nitrogenados, para a segunda safra de milho de 2025-26. A tabela de frete mínimo da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) também adiciona desafios ao mercado de logística.
Desde outubro, o cumprimento da tarifa mínima de frete é monitorado automaticamente, com base nas informações inseridas em um manifesto fiscal eletrônico obrigatório (MDF-e) emitido pela parte que contrata o motorista do caminhão, como as transportadoras. Esse manifesto reúne informações de diversas notas fiscais relacionadas ao transporte da carga, facilitando a fiscalização tributária e a gestão logística. O sistema cruza os dados declarados no MDF-e com a tabela oficial da tarifa mínima de frete. Se o valor declarado estiver abaixo do limite legal, o sistema identificará a irregularidade sem a necessidade de um relatório ou inspeção adicional.
O novo sistema automático de fiscalização levou a aumentos de até 70pc no frete rodoviário de fertilizantes em algumas das 31 rotas monitoradas semanalmente pela Argus. Posteriormente, as tarifas diminuíram, com algumas transportadoras ignorando a tabela e reduzindo suas margens de lucro na tentativa de oferecer preços competitivos.
Além disso, a demanda por veículos com maior número de eixos disparou. De acordo com as novas regulamentações, caminhões de sete eixos são considerados menos eficientes e econômicos do que caminhões de nove eixos, cuja oferta é mais limitada.
As entregas de fertilizantes nitrogenados, especialmente ureia e sulfato de amônio (SA), provavelmente aumentarão a concorrência por veículos no primeiro trimestre de 2026, principalmente em janeiro, quando a oferta de caminhões é reduzida devido aos motoristas que retornam para suas casas para as festas de fim de ano. Nessas circunstâncias, é esperado um aumento nas taxas de frete de fertilizantes e nos custos de logística rodoviária.
Os importadores brasileiros têm trocado ureia por SA, que ofereceu, durante a maior parte de 2025, um preço mais atrativo por ponto nitrogênio. No entanto, o volume de SA necessário para a mesma quantidade de nitrogênio é o dobro do necessário para a ureia, visto que a ureia contém 46pc do nutriente e o SA, 21pc, o que aumenta os custos logísticos e operacionais. A disponibilidade de caminhões tem sido uma preocupação, dificultando o transporte rodoviário.
O novo sistema eletrônico de fiscalização da tabela de fretes mínimos da ANTT, em vigor desde outubro, continua sendo um importante fator no mercado e resultou em um aumento significativo nos custos da logística rodoviária. No entanto, essa questão é envolta em incerteza jurídica, visto que uma decisão judicial estadual que suspendeu as multas em algumas regiões não conteve o crescente número de transportadoras que ignoram a tabela de tarifas mínimas de frete. Mesmo assim, a maioria das transportadoras continua a cumprir a tabela para evitar penalidades. As empresas de fertilizantes permanecem relutantes em absorver os aumentos de tarifas impostos pela tabela.
Nesse contexto, a situação só seria resolvida com uma decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade da medida. Mas participantes de mercado acreditam ser improvável que o problema seja resolvido em 2026, já que é impopular e afeta um setor importante para o país em um ano de eleições federais.

