

Falando de Mercado: O potencial da Argentina como exportadora de combustíveis
Argentina deixa de ser importadora líquida e acelera exportação de diesel e gasolina; especialistas da Argus explicam os fatores por trás da mudança.
- 6 de janeiro de 2026
- : Oil Products
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Camila Fontana: A Argentina se prepara para deixar a posição de importadora líquida de combustíveis automotivos e acelerar a exportação de diesel e gasolina. Eu sou Camila Fontana, chefe adjunta da redação da Argus em São Paulo e minha convidada hoje é Flávia Alemi, que cobre combustíveis na América do Sul. Flávia, bem-vinda.
Conta pra gente o que está por trás dessa mudança.
Flavia Alemi: É basicamente uma combinação de reformas estruturais que foram introduzidas pelo governo do presidente Javier Milei desde o final de 2023. A mais impactante foi a remoção gradual dos subsídios aos combustíveis. Por décadas, esses subsídios mantiveram os preços internos artificialmente baixos, o que incentivou um alto consumo e distorceu os fluxos comerciais.
CF: Quando os subsídios foram retirados, o que aconteceu com a demanda?
FA: Bom, os preços ao consumidor subiram significativamente, o que reduziu a demanda e diminuiu também o contrabando para países vizinhos como o Brasil, Paraguai, Uruguai. As vendas de diesel e gasolina na Argentina em 2024, que foi o primeiro ano do governo Milei, caíram 9pc em relação a 2023.
E, ao mesmo tempo, as vendas no Paraguai subiram 10pc na mesma comparação. Esse ano, os dados oficiais mostram que a demanda cresceu 1pc em relação a 2024, mas ainda está 8pc abaixo de 2023. Isso faz com que alguns especialistas digam que os números agora refletem a demanda real da Argentina.
CF: Com vendas internas menores, imagino que isso reduziu a necessidade de importação. Foi isso que aconteceu?
FA: Exatamente. As importações de gasolina e diesel caíram pela metade no primeiro ano do Milei e voltaram a subir em 2025, mas ainda estão 25pc abaixo de 2023.
CF: Mas, Flávia, os subsídios não foram o único fator por trás desse movimento.
FA: Não foram, exatamente. Outra reforma importante que teve na Argentina foi a redefinição do papel da CAMESA, que é a operadora estatal da rede elétrica. Historicamente, a CAMESA coordenava compras subsidiadas de combustíveis para as usinas termoelétricas, o que criava uma demanda constante por gasóleo importado. Agora, a função da CAMESA é limitada apenas à gestão da rede elétrica.
E essa mudança coincidiu com a migração para a gás natural da região de Vacamoerta na geração de energia.
CF: E existem números que ilustrem essa mudança?
FA: Sim, bastante. O consumo de gasóleo pelas termoelétricas caiu 56pc de 2023 para 2025 e o uso de gás natural subiu 13pc. Ao mesmo tempo, as energias renováveis também tiveram um papel importante. A geração eólica e solar vem aumentando sua participação nos últimos anos e a fatia delas no sistema elétrico argentino passou de 14pc em 2023 e espera-se que no final de 2025 chegue a 18pc.
CF: Falamos bastante de demanda. E do lado da oferta? Como as refinarias estão se preparando para esse novo cenário?
FA: Bom, atualmente, as refinarias estão operando perto da capacidade máxima e investindo pesado para processar o petróleo medanito de Vacamoerta. A YPF, que é a estatal, investiu 600 milhões de dólares na refinaria de Luján de Cuyo adicionando um reator de hidrotratamento para reduzir o teor de enxofre do diesel para 10 ppm.
Outras refinarias tiveram paradas programadas esse ano, o que geralmente melhora a capacidade de refino, porque fazem limpezas internas e tudo mais, e isso geralmente resulta numa melhora de capacidade.
A planta da Pan American Energy deve ter um grande avanço em 2029, quando está prevista a instalação de uma nova torre de destilação adaptada para petróleos mais leves como o medanito.
CF: E as exportações já começaram?
FA: Na verdade, sim, embora os volumes ainda sejam um pouco modestos.
Quando a gente fala de exportação, passa uma sensação de que, nossa, vão fechar três barcos completos por mês, e não é bem isso. São volumes bem mais reduzidos. De janeiro a outubro desse ano, a Pan American Energy embarcou quase 30.000m³ de diesel para o Paraguai, e mais de 53.000m³ para o Uruguai.
A YPF e a Pampa Energia também exportaram gasolina premium. Para um país que costumava depender de importação para abastecer seu mercado interno, é um marco importante passar de importador para exportador.
CF: Mas isso significa que a Argentina está pronta para se tornar uma exportadora consistente?
FA: Ainda não. A capacidade de refino continua limitada, não tem planos, grandes planos de aumentar essa capacidade de refino nos próximos anos. E os mercados regionais também só conseguem absorver uma parte.
O crescimento das exportações dependeria de uma demanda interna persistentemente baixa. E isso, na verdade, pode mudar se a recuperação econômica da Argentina impulsionar o consumo. Os dados históricos mostram uma correlação muito clara entre o crescimento do PIB e da demanda por diesel na Argentina.
Como se espera que a economia argentina cresça nos próximos anos, isso pode aumentar a demanda interna, reduzindo o excedente para exportação. A identidade energética da Argentina está mudando, mas por quanto tempo essa transformação vai durar ainda é meio incerto.
CF: Muito obrigada, Flávia, por mais uma participação aqui no Falando de Mercado. Muito obrigada aos nossos ouvintes. A gente volta na semana que vem.
Até lá.

