• 13 de janeiro de 2026
  • : Agriculture, Grains, Oilseeds and Veg Oils
A Argentina produziu uma grande safra de trigo, com elevada produtividade mas baixo teor de proteína. Jeffrey Lewis, especialista do serviço Argus AgriMarkets, viajou ao país a convite da Bolsa de Cereais e Produtos de Bahia Blanca e compartilhou suas impressões da viagem com Renata Cardarelli, responsável pelo relatório Argus Brasil Grãos e Fertilizantes.

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Renata Cardarelli: Olá e bem-vindos ao Falando de Mercado. Meu nome é Renata Cardarelli e no episódio de hoje converso com Jeffrey Lewis, especialista em agricultura do serviço Argus AgriMarkets, que acompanhou o AgroTour organizado pela Bolsa de Cereais e Produtos de Bahia Blanca, a BCP, para avaliar as condições das lavouras de trigo e cevada na região sul da província de Buenos Aires. Bem-vindo, Jeffrey.

Jeffrey Lewis: Olá, Renata.

RC: Olá. O tour, Jeffrey, durou dois dias e mobilizou duas dezenas de equipes em caminhonetes por quatro rotas diferentes para avaliar essas lavouras. Então, conte para nós, Jeffrey, o que o tour revelou em termos de produtividade e níveis de proteína.

JL: Bem, pois não houve surpresas como o que vimos. Já esperávamos rendimentos mais altos que o normal e todo mundo esperava, provavelmente, níveis de proteína mais baixos do normal.

Então, vimos que os rendimentos de trigo na região do tour, que era a região ao redor da cidade de Bahia Blanca, um porto lá no sul de Buenos Aires, o rendimento era 4,8 toneladas por hectare. Isso comparado com 3 toneladas por hectare no ano anterior. E para cevada, o rendimento era 4,9 toneladas por hectare, comparado com 3,5 toneladas o ano anterior.

Então, números bem mais altos do que é normal naquela região. E também vimos os níveis de proteína mais baixos. O nível médio de proteína de 19 amostras de trigo era 9,3%.

E isso comparado com a média de 11% pelos 28 anos anteriores e comparado com 12,2% pelo ano passado. Para cevada, o nível médio de 32 amostras chegou a 9,25%, comparado com 11% na média dos últimos 10 anos. E o ano passado era 11,6%.

RC: Uma boa diferença, né Jeff? E quais condições ajudaram a Argentina a produzir uma safra tão grande de trigo neste ciclo?

JL: Era muita chuva. Nos cinco meses até novembro, houve chuva acima da média. E isso ajudou muito.

E até em dezembro também vão chegar a ter mais chuva do que o normal. Já por isso, estávamos esperando rendimentos melhores por esse clima favorável. E na Bolsa de Cereais de Buenos Aires e a Bolsa de Comércio do Rosário, em ambos os lugares estão esperando produção recorde.

Em Buenos Aires estão esperando 25,5 milhões de toneladas e em Rosário estão esperando 27,7 milhões de toneladas. E em ambos os lugares eles subiram as previsões, as estimativas, depois do tour.

RC: E junto com o Jeffrey nessa viagem estava o Nicolás Alberdi, que é agrônomo da Agroalarcia.

O Nicolás e o restante da equipe analisaram de perto as lavouras de trigo e cevada no campo. Jeffrey, o que o Nicolás falou para você sobre essas lavouras durante a viagem?

JL: Bem, o Nicolás e eu e os outros dois que estavam no nosso time vimos uma variedade de situações. Muito trigo em boas condições, o que quer dizer rendimentos altos, com pouca doença, poucos insetos.

E também vimos em alguns lugares rendimentos mais baixos e com mais presença de doença e de insetos. Mas majoritariamente era melhor. Também vimos rendimentos de trigo entre 2 toneladas por hectare, ou seja, um rendimento mau, e até 8 toneladas por hectare, o que é muito bom.

RC: Perfeito, Jeffrey. E o que comentou sobre os níveis de proteína do trigo?

JL: Bem, o Nicolás me explicou que normalmente quando tem rendimentos altos, geralmente isso quer dizer que vai ter níveis baixos de proteína. E foi assim.

Já antes da AgroTour, houve informação de outras regiões da Argentina que ia ter proteína baixa. Com os rendimentos altos que vimos na região da AgroTour, o Nicolás e os outros agronomistas também estavam esperando proteína mais baixa que o normal. A Argentina normalmente produz trigo com 11,5% de proteína, 12,5%.

Isso é o standard, não? Mas assim, não tem muito. Bem, de 12,5% quase não tem. E de 11,5% tem pouco.

E até temos visto níveis de proteína tão baixos como 7,5% em algumas partes da região da AgroTour. E esse resultado da AgroTour, de fato, chegou mais perto do final de dezembro porque houve umas situações. Houve chuva na região e houve também trigo que não estava pronto para colheita, mas finalmente recebemos essas informações.

RC: Perfeito, Jeff. E realmente uma boa diferença pensando em níveis de proteína, né? Além do Nicolás, também participou da viagem com você a Guadalupe Bravo, da BCP. O que ela disse sobre o impacto da grande safra, da grande produção nos mercados globais de trigo?

JL: Guadalupe me falou que já estamos esperando safras grandes, safras maiores do que o ano passado, de outros países produtores, da Austrália, da Rússia, da União Europeia.

E a USDA, a agência americana, já prevê uma produção recorde para essa safra de 838 milhões de toneladas, que seria quase 5% mais do que o ano passado. Então, o impacto disso sobre os mercados é que vai ter mais trigo para exportar. E isso é uma expectativa que vai colocar pressão sobre os preços, sobretudo de trigo de baixa proteína.

Também no tour, conheci a Paulina Lescano, que é uma analista independente de mercados, e ela me falou que com níveis de proteína de 9% ou até mais baixo, que vai ter ganhadores e perdedores. Quem tem produzido trigo com níveis altos de proteína vai receber mais dinheiro pelo trigo. Esse trigo de mais alta proteína está usado para moagem, mas vai receber um preço maior. E quem está produzindo trigo com menos proteína vai receber menos dinheiro.

RC: Além dos prêmios que você já mencionou, Jeffrey, você tem visto outros efeitos para os mercados globais?

JL: Sim, no início de dezembro, ouvimos de várias pessoas que houve alguns contratos cancelados, contratos de compra de trigo da Argentina, porque o trigo não tinha aqueles níveis de trigo especificados nos contratos. Isso foi no início de dezembro.

Também vimos de moinhos do sudeste da Ásia, em particular da Indonésia, uma disponibilidade para usar trigo de menos proteína. Por exemplo, 10,5% de proteína para moagem. Isso enquanto esse trigo cumprir outras especificações dos contratos.

RC: Pois é, vamos acompanhando essa questão, principalmente do teor de proteína. E uma última pergunta, Jeff. Qual foi a sua impressão sobre a experiência no tour?

JL: Foi uma muito boa experiência.

Eu conheci gente maravilhosa, gente que me ajudou muito, eu aprendi muito e gostaria muito de poder fazer o ano que vem. Eu também gostaria de agradecer a gente do BCP por toda a ajuda, todo o apoio deles, antes, durante e depois do tour.

RC: Realmente parece ter sido uma ótima experiência e eu tenho certeza de que você já está muito ansioso pelo próximo crop tour.

Muito obrigada pela participação, Jeff. Obrigado. Este e outros episódios do nosso podcast estão disponíveis no site da Argus.

Voltaremos em breve com outra edição do Falando de Mercado. Até logo!