

Falando de Mercado: Tendências do mercado de fertilizantes em 2026
O podcast antecipa os principais temas da conferência Fertilizer Latinoamericano (FLA), que reunirá líderes do setor em Miami entre 26 e 28 de janeiro.
- 19 de janeiro de 2026
- Market: Fertilizers
A conferência Fertilizer Latinoamericano (FLA) acontece em Miami entre 26 e 28 de janeiro. Gisele Augusto e Bruno Castro, colaboradores da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, antecipam os principais assuntos que serão discutidos nesse evento que reúne cerca de 400 empresas e representantes de mais de 50 países.
Gisele Augusto: Olá e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts semanais da Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Gisele Augusto, especialista de fertilizantes da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, e hoje estou aqui com Bruno Castro, nosso especialista da publicação de fertilizantes. Tudo bom, Bruno?
Bruno Castro: Oi, Gisele. Tudo bem? Muito obrigado.
GA: Bom, a ideia é a gente bater um papo sobre o mercado de fertilizantes neste momento que começa o ano.
BC: Perfeito, vamos falar um pouco sobre as tendências no mercado de adubo no Brasil ao longo de 2025 e quais são as expectativas para esse ano. Por sinal, esse cenário para 2026 deve ser um dos principais tópicos da conferência Fertilizer Latinoamericano (FLA), que é organizado pela Argus, e será sediado em Miami, entre os dias 26 e 28 de janeiro. Gisele, quais temas você acha que serão destaques na FLA deste ano?
GA: Bom, considerando que tem ainda essa postergação das compras de fertilizantes que vem aí dos últimos dois anos, deve ter um debate sobre as compras finais para atender a segunda safra de milho 2025-26. Ainda alguma coisa de nitrogenados faltando rodar, algum volume também de repique faltando rodar. Deve ter uns debates em relação a isso, e também as perspectivas para a safra de soja em 2026-27, que já começou a ter as aquisições, principalmente no mercado doméstico. Então, entender um pouco qual vai ser o comportamento do agricultor para este ano.
A perspectiva é de que ainda tenha essa postergação de compras. Então, quando eles devem vir para o mercado, qual vai ser a tendência dos preços no mercado e a tendência do padrão de compra, por qual fertilizante eles vão começar comprando, o que a gente deve esperar em questão de fornecimento? Até entender um pouco se a gente deve agora, em 2026, continuar vendo aquela tendência de 2025 de mudar as compras da alta concentração para a baixa concentração.
BC: Exatamente. Falando especificamente do uso nitrogenados, a gente viu essa preferência pelo sulfato de amônio em detrimento da ureia. As importações brasileiras de sulfato de amônio atingiram um recorde em 2025, à medida que a maior competitividade dos preços levou os compradores a optarem pelo fato de sulfato de amônio em vez da ureia. O Brasil importou quase 7,8 milhões de toneladas (t) de sulfato de amônia entre janeiro-dezembro, que representa um aumento aí de 28pc em comparação a esse mesmo período em 2024, e isso posicionaria as importações totais de sulfato de amônio nesse período em cerca de 100.000t acima das importações de ureia, que totalizaram aproximadamente 7,7 milhões de toneladas — esse total representa uma queda de 7pc nos volumes importados de ureia em comparação a 2024. Essa alteração para uma maior preferência de compra por produtos de baixa concentração, igual o sulfato de amônio, também foi observado entre os fosfatados, não é, Gisele? Como é que isso aconteceu?
GA: Exatamente, Bruno? O Brasil importa alguns tipos de fosfatados: o MAP 11-52, o TSP ali com 46pc de P2O5, majoritariamente, que são os que a gente chama de alta concentração. Tem as NPs que vêm principalmente ali da China: NP 08-40 com adição de enxofre, sem enxofre; 11-44, que são específicos dessa origem. E tem a baixa concentração, que é o SSP 19pc-20pc, que é o que a gente mais vê na importação e acabou sendo o principal fosfatado que o Brasil importou em 2025. A gente importou cerca de 3,2 milhões de toneladas de SSP, que foi um recorde para o Brasil e também ficou ali mais de 20pc acima do ano anterior, e ficou 100.000t acima do MAP, que antigamente era o principal fosfatado para o Brasil.
A gente começa a ver também essa dinâmica nova do agricultor nos fosfatados. Isso não só por questões de escolha do próprio agricultor, mas por alguns fatores, como uma menor oferta de MAP pro Brasil. Isso acabou afetando bastante. A gente tem duas origens, basicamente, ofertando para o país, o que acaba dificultando um pouco o acesso e, com isso, teve a maior importação de MAP desde 2016, com 3,1 milhões de toneladas. Além disso, quando a gente vai para o supersimples (SSP), tem uma disponibilidade muito maior dos produtores, o que acaba gerando um mercado um pouco mais fácil de ser acessado pelo agricultor. Agora o ponto de atenção fica no custo do enxofre. A gente vinha vendo uma tendência de você ter muitas compras de supersimples, a gente viu compras acontecendo entre agosto, setembro, outubro, principalmente pensando no mercado doméstico. E com o aumento do custo do enxofre atingindo patamares recordes em algumas regiões, no Brasil ultrapassando os U$530, acaba pesando no custo de produção nas origens, e isso se reflete também no preço da importação, que passa do início ali do segundo semestre de 2025, em torno dos U$180-185/t por um 19pc, chegando até os U$230/t neste começo de 2026, então acaba sendo um ponto de atenção. O mercado de enxofre é um mercado que a gente precisa acompanhar de perto, isso porque ele é uma matéria-prima, mas é um subproduto. Ele depende da produção de um outro produto para a gente ter a disponibilidade. E aí a demanda acaba crescendo numa intensidade muito mais forte do que a própria oferta. A gente tem a indústria não só de fertilizantes, mas de bateria, de metais consumindo esse produto, então fica como um ponto de atenção daqui para frente para os agricultores e para os importadores.
BC: Exatamente, e o cenário Internacional deve exercer um papel muito importante nessa definição, se a tendência de baixa concentração deve ou não continuar em 2026. E a China e a Rússia são fatores importantes, não só porque são as duas maiores fornecedoras de adubo para o Brasil, mas porque estão entre as principais produtoras globais de fertilizantes. A gente tem ouvido de participantes do mercado que a China pode restringir a exportação de fosfatados de alta concentração até agosto para atender o mercado interno. Isso já elevou os níveis de DAP e MAP globalmente e, caso se concretizem, pode sacramentar a preferência de compra dos importadores brasileiros pelo supersimples e pelas NPs como a principal fonte de fósforo. Já na Rússia, que exportou cerca de 17pc de toda ureia que o Brasil consumiu em 2025, o país ainda está envolto em conflitos que têm prejudicado a produção e o escoamento de fertilizantes. Isso pode reduzir ainda mais a disponibilidade global de ureia e elevar os preços, o que, em tese, levaria os importadores brasileiros a optarem pelo sulfato de amônio novamente como a principal fonte de nitrogênio para as lavouras.
Além dessas duas potências, também têm o Irã e a Venezuela, que são importantes origens para a ureia consumida no Brasil, também passam por instabilidade geopolíticas e que podem resultar num corte de produção do nitrogenado. Então, a gente tem um cenário em aberto para 2026 quanto à competição entre produtos de baixa e alta concentração.
GA: É, exatamente. Até pensando ainda no contexto geopolítico, 2025 foi marcado ali pelas tarifas norte-americanas. Então a gente teve incertezas, vários debates em relação a isso, principalmente pensando no cloreto de potássio. A gente iniciou 2025 com muita incerteza sobre os preços, viu uma alta de preços mais firme durante 2025 aumentando U$5-10 por mês, isso se mantendo ao longo do ano, entrando 2026 também um pouco mais firme, mas que agora parece que entra num momento de um pouco mais de calma em relação a possíveis tensões, mas ainda com preços um pouco mais firmes. Os Estados Unidos retiraram as sanções que tinham contra a Bielorrússia, e isso abre um novo mercado para o cloreto bielorrusso. Fica um ponto de atenção para os fluxos globais desse fertilizante. O Brasil importa muito cloreto da Bielorrússia, é uma importante origem para o Brasil. A gente importa muito cloreto, de maneira geral: foram 13,7 milhões de toneladas em 2025.
Então fica o ponto de atenção mais em relação aos fluxos globais. A gente sabe que existe a disponibilidade, sabe que tem todas essas questões, mas os fluxos podem ser alterados durante o ano.
BC: Além disso, Gisele, o que você acha que deve ser destaque para o mercado brasileiro neste ano?
GA: O grande ponto de atenção vai seguir também no crédito, acesso a crédito por parte dos agricultores segue um ponto de alerta. Foi uma questão em 2025. A própria postergação de compras vem também dessa questão de crédito, a dificuldade de capitalização, de financiamento, tudo isso acaba postergando as compras enquanto o agricultor tenta juntar esse capital. A gente vê essa interligação do crédito com as postergações de compra, atenção aos desenvolvimentos geopolíticos e a gente deve continuar atento às questões de recuperação judicial e desenvolvimento das empresas aqui no Brasil.
Bruno, muito obrigada por ter participado.
BC: Muito obrigado.
GA: Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender os seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição de Falando de Mercado. Até logo!

