O El Niño pode provocar um recuo no volume de cana-de-açúcar processado em 2026-27 ao postergar as operações de moagem no Centro-Sul, mas não a ponto de alterar expectativas de produção recorde de etanol.
O fenômeno climático se estabeleceu em 11 de junho e deve atingir o pico entre 22 de setembro-21 de dezembro, segundo o Instituto de Meteorologia dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês). No Centro-Sul, o setor sucroalcooleiro estará suscetível às altas temperaturas e chuvas irregulares.
O impacto tende a ser limitado nos números desta safra, visto que o pico do El Niño ocorrerá nos últimos meses de colheita no Centro-Sul. Alguns produtores aceleraram a moagem para evitar ter cana em pé durante a fase mais crítica, uma estratégia para driblar os efeitos nos canaviais.
Os maiores riscos decorrem da possibilidade de as chuvas postergarem a moagem na reta final da safra e aumentarem a quantidade de cana bisada – a cana-de-açúcar que, em vez de ser moída na safra vigente, é mantida no campo para o ciclo seguinte.
Isso pode reduzir o volume moído nesta safra, entre 1º de abril de 2026-31 de março de 2027 — em 20 milhões de toneladas (t) no Centro-Sul, por falta de tempo hábil para processar a cana-de-açúcar, avaliam empresas do setor. Atualmente, o consenso do mercado estima 638,5 milhões de t.
Mesmo com um cenário de perdas, ainda seria maior que os 616,2 milhões de m³ processados em 2025-26, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
O mix de açúcar também pode ser afetado. Mais chuvas podem diminuir a concentração de sacarose na planta, dificultando a cristalização e a fabricação do adoçante.
Com isso, as usinas podem encontrar dificuldade em maximizar a produção de açúcar. A mediana das estimativas de participantes de mercado para o mix de produção no Centro-Sul está em 47,1pc de açúcar e 52,9pc de etanol. Isso se compara com o mix de 50,38pc de açúcar e 49,62pc de etanol verificado em 2025-26, de acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).
O setor continua vendo forte fabricação do biocombustível nesta safra: 38,05 milhões de m³, considerando tanto etanol anidro quanto hidratado, o que seria a máxima na série histórica de 18 safras da Conab.
O El Niño deve durar até o fim do verão no Hemisfério Sul, ou seja, até 31 de março de 2027, segundo o NOAA, deixando impactos também no próximo ciclo.
O eventual aumento no volume de cana bisada para 2027-28 se somaria ao cenário de estoques fortalecidos e de crescimento nas operações de etanol de milho, acrescentando pressão aos preços no início da próxima safra.
Participantes de mercado também acreditam que o El Niño pode potencializar o rendimento dos canaviais em 2026-27, sobretudo caso se concretize o cenário de chuvas acima da média.
El Niño mais forte que a média
A intensidade do fenômeno supera as ocorrências em anos anteriores, acelerando ainda mais o aquecimento das águas e influenciando maiores temperaturas — de até 4°C acima da média — no cerrado brasileiro, incluindo os estados de Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, explica o agrometeorologista da Rural Clima, Marco Antonio dos Santos.
Um El Niño mais intenso já é apontado como um dos fatores por trás de eventos extremos recentes, como o temporal com ventos de 160 km/h em Ribeirão Preto (SP) e o tornado registrado em Salgado Filho (RS).
As culturas de soja, milho e café podem ser beneficiadas pelo fenômeno climático na região Centro-Sul, afirma o especialista.
Por Maria Lígia Barros e João Curi

