Falando de Mercado: O segundo ano da abertura do mercado de gás natural no Brasil

Author Argus

O mercado de gás natural enfrentou vários desafios durante seu primeiro ano de abertura, com pressões internas e externas afetando preços e motivando alguns consumidores a postergarem sua migração para o mercado livre. Essa situação criou novos desafios e possibilidades para o gás e o GNL no Brasil.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Rebecca Gompertz, repórter de Gás Natural e Energia. Elas discutem o futuro do mercado livre de gás natural no Brasil, após o primeiro ano de abertura. 

(Podcast recorded in Portuguese)

Transcript

[Camila Dias] Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os mercados de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou Diretora da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Rebecca Gompertz, repórter de Gas Natural e Energia, sobre as expectativas do mercado brasileiro para o segundo ano da abertura do mercado de gás natural no Brasil. Bem-vinda, Rebecca.

[Rebecca Gompertz] Obrigada, Camila.

[Camila] Rebecca, em primeiro lugar, quem mais se beneficiou da abertura do mercado de gás nesse primeiro ano?

[Rebecca] Camila, em 2022 quem mais conseguiu aproveitar a abertura do mercado e fechar contratos bilaterais sem a Petrobras foram as distribuidoras estaduais. Elas começaram a diversificar seu suprimento fechando acordos com fornecedoras como a Galp, a Shell, a Origem Energia, a Petrorecôncavo e a 3R petroleum. 

Por outro lado, os industriais preferiram se resguardar de riscos nesse primeiro ano e poucos contratos foram fechados no mercado livre. Mas alguns grandes consumidores de gás natural já deram esse passo, como Gerdau e Proquigel. 

[Camila] Que tipo de riscos impediram que os industriais deixassem o mercado cativo?

[Rebecca] Bom, Camila, a soma dos riscos já esperados com os eventos inesperados de 2022 com certeza foram o que fez com que os consumidores industriais não dessem passos maiores em contratar suprimento de gás no mercado livre, diretamente dos produtores ou de comercializadores.

Um fator importante é que a demanda de gás natural no Brasil está reprimida. Se tivessemos mais gás, com valores competitivos, teríamos mais consumo. Mas hoje não temos gás suficiente sendo enviado ao mercado consumidor, por fatores como falta de gasotudos ou ainda por decisão das petroleiras em reinjetar o gás – devolve-lo ao poço de petroleo e gás – para aumentar a produtividade do petróleo, que pode ser vendido no mundo todo e tem maior valor agregado. Com pouca oferta de gás, para expandirmos o mercado livre, precisamos de gás novo, expansão da oferta. 

Isso dito, temos um dos fatores que reduziram a avidez dos consumidores em migrarem para o mercado livre: Olhando para o cenário interno, o atraso do terceiro gasoduto marítimo que traz gás dos campos do pre-sal, a chamada Rota 3, é um fator de risco muito importante. A expectativa era de que a Rota 3 entrasse em operação no segundo semestre de 2022. Com esse atraso, o mercado fica muito incerto em relação a quando esses 20 milhões de m³ por dia de gás natural do pré-sal vão entrar para a malha. Oficialmente, a Petrobras informa que ele deve iniciar a operação em 2023, começando a trazer para os consumidores em terra parte de sua capacidade total. Isso com certeza foi um dos fatores que segurou os industriais e fez com que eles não quisessem apostar no mercado livre ainda.

Além disso, no cenário internacional, o conflito entre Ucrânia e Rússia pressionou o preço do gas natural liquefeito nos mercados mundial, afetando o Brasil. Quem esperava a abertura de mercado para comprar GNL e reduzir consumo do mercado das distribuidoras acabou encontrando valores mais altos do que em anos anteriores, o que tornou o gas da distribuidora mais competitivo e desestimulou consumidores a assumirem riscos no mercado livre. 

Outros fatores que ainda dificultam a migração de consumidores para o mercado livre são dificuldades de acesso à malha de gasodutos e questões tributárias para usar essa malha. Ainda faltam regras claras no ambito federal, que precisam ser atualizadas pela agencia do petroleo, gas natural e combustiveis, a ANP. E também ainda há entraves provenientes das leis estaduais, que ainda criam dificuldades para migração parcial de consumidores, apenas para citar um exemplo. 

Sim, esse é o mesmo GNL que ficou caro no mercado mundial com o conflito na Europa. Porém, os produtores desse GNL ou importadores estão mirando em um novo segmento de mercado: ao inves de tentarem suprir uma parte do consumo dos consumidores industriais que hoje estão nas distribuidoras canalizadas, eles estão mirando em usar o gás para substituir combustiveis mais caros e mais poluentes, como alternativa ao GLP, diesel, óleo combustível e biomassa.

Essa opção é muito atraente porque os consumidores não ficariam dependentes da expansão dos gasodutos, que depende de investimentos demorados e custosos para acontecer.

Esse GNL poderia ser entregue via caminhão em regiões que não são atendidas pela malha. A Empresa de Pesquisa Energética disse em novembro que essa pode, inclusive, ser uma forma de criar âncoras de consumo em determinadas regiões do país. Assim, o investimento em pipelines viria quando já existisse essa demanda consolidada de ilhas de GNL e gás natural veícular nessas áreas, inicialmente atendidas por caminhões levando GNL ou Gás comprimido. E alem disso, esses caminhoes também poderiam ser movidos a gás natural. 

[Camila] O GNL em small-scale pode também ser uma alternativa para os veículos, Rebecca?

[Rebecca] Com certeza pode para a frota de veículos pesados, Camila, e é essa uma das apostas do setor de gas no Brasil. O setor de transporte é um dos grandes consumidores de combustiveis no Brasil e os combustíveis liquidos são mais caros que o gás natural, uma comparação que a Argus faz diariamente para os assinantes da Argus Brazil Gas and Power. 

Por exemplo, observando os diferenciais calculados da Argus entre 13 de dezembro de 2021 e 12 de dezembro de 2022, o preço do diesel S500 foi mil, cento e vinte e nove dólares e 48 centavos mais caro do que o GNL importado pelo Brasil, considerando o mesmo poder calorífico proporcionado pelos dois produtos. Ou seja: ha espaço para importação de GNL para substituir esse combustivel, e ainda causando menos emissões de gás carbonico ao meio ambiente.

Fazendo a comparação com o óleo combustível A1 no mesmo período, ele estava mil e quarenta e sete dólares e quinze centavos acima do preço do GNL importado pelo Brasil.

Alterar os motores de veículos pesados para aceitarem GNL, seria então uma alternativa interessante tanto do ponto de vista dos custos do combustível, quanto em relação a ser uma opção menos intensiva na liberação de carbono. Isso poderia expandir o consumo de gás de forma firme e ancorar investimentos em gasodutos.

[Camila] Falando em alternativas renováveis, e o biometano? Qual o futuro do “gás verde” no mercado brasileiro?

[Rebecca] Tanto o biometano quanto o biogás oferecem atributos de confiabilidade e sustentabilidade muito interessantes para os consumidores. São áreas que têm chances de se tornarem essenciais em 2023. Mas ainda se trata de um setor muito pequeno, que tem muito espaço para crescer. O Brasil produziu 5,1 milhões de m³ de biometano em junho, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Brasil.

Se o Brasil investir em programas de incentivo, como o projeto de lei recém aprovado no Senado que garante isenções fiscais para o biogás e o biometano, é provável que eles se tornem mais atrativos no mercado.

[Camila] Muito obrigada, Rebecca. A abertura do mercado de gás natural é uma novela que com certeza ainda vai render muitos capítulos. E a Argus vai continuar a acompanhar tudo bem de perto e a trazer as principais movimentações.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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